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Star Trek: Discovery tornou-se uma das grandes surpresas do final de 2017. Além de ser transmitida pela Netflix semanalmente, forneceu uma perspectiva completamente reformulada acerca da obra criada por Gene Roddenberry e que já foi adaptada para a televisão. Entretanto, ao mesmo tempo em que explora outros conceitos do panteão intergaláctico, famoso por personagens como Spock e Capitão Kirk, a nova roupagem fornecida por Bryan Fuller e Alex Kurtzman permite-se mergulhar em uma mitologia já conhecida, aproveitando-se de easter eggs e elementos nostálgicos para abraçar as múltiplas audiências. E após o término de sua midseason finale, uma certa dúvida ficou no ar no tocante ao retorno dos episódios e se os showrunners conseguiriam manter o magnífico curso da U.S.S. Discovery a todo vapor.

Para aqueles que não se recordam, a nave comandada por Gabriel Lorca (Jason Isaacs) passou por alguns obstáculos ao performar o último salto espaço-temporal utilizando os esporos de micélio para viajar através das dobras. E visto que eles exploraram ao máximo seu funcionamento através do corpo físico do Chefe de Engenharia Paul Stamets (Anthony Rapp), não é nenhuma surpresa que, o que outrora funcionava como um elemento-surpresa em relação à esquadra inimiga, tenha se tornado a principal base para uma mudança drástica na vida de cada um dos tripulantes: acontece que, ao performar o 133º salto, a exaurida mente de Stamets entrou em um estado de convulsão pleno que o permitiu enxergar todas as centenas de milhares de dimensões universais, levando o receptáculo a migrar da realidade que conheciam para uma completamente diferente.

A premissa não é uma das mais originais, considerando que inúmeras obras de ficção científica já se valeram do mesmo arco para desenvolverem suas narrativas. Entretanto, Star Trek parece ter aprendido com os erros do passado e permitido que as novas tramas não durassem apenas um episódio: como sabemos, alguns capítulos de importância essencial para a compreensão do panorama geral valeram-se de fragmentos soltos e completos em si para desenvolverem seus personagens, ainda que tenham sido resgatados mais para a frente. Em Despite Yourself, como intitulado o novo capítulo, todos precisam abandonar suas fraquezas em um ambiente inóspito e desconhecido, ainda que seja familiar pelas razões equivocadas, e adaptarem-se como forma de não serem descobertos.

O roteiro assinado por Sean Cochran não emerge como um escopo completo. Logo, é de praxe que os protagonistas tenham suas subtramas exploradas com um pouco mais de profundidade, além de serem influenciados pelo arco geral. Um dos principais a terem esse maior cuidado é Ash Tyler (Shazad Latif), o qual descobrimos na iteração anterior que sofreu certas mudanças psicológicas e físicas nas mãos dos Klingons, além de ter desenvolvido um relacionamento forçado com uma de suas carcereiras. Aqui, descobrimos que na verdade a “cirurgia” sofrida pelo soldado na verdade é muito pior do que se imagina: ele, na verdade, carrega dentro de si uma personalidade dupla, dotada de perigoso potencial e que desenrola-se como uma peça-chave para o avanço do Império sobre a Frota Estelar e uma gradativa dominação a longo-prazo.

Talvez um dos pontos de maior ovação dentro desse novo episódio é a completa e total disposição que os criadores fazem de seus próprios personagens. Eles não se preocupam em utilizá-los ou descartá-los para um bem maior, e usam do artifício do sacrifício para dar continuidade a uma trama que poderia ser barrada, eventualmente. Não é à toa que uma das sequências mais emocionantes e envolventes venha com a morte do par romântico de Stamets, o Dr. Hugh Culber (Wilson Cruz), pelas mãos de um perturbado Comandante Tyler. Esse é um dos primeiros indícios de que a ameaça, antes externa e quase inalcançável pela estrutura fortificada da Discovery, agora está dentro das instalações e pode desmantelar a sensação de segurança constante que todos os membros da tripulação carregam – ou pelo menos carregavam.

Uma das grandes e mais impactantes mudanças é, sem dúvida, os novos alter-egos adotados pelos personagens principais: Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) é uma capitã tirana que não mede esforços para manter sua posição – e protagoniza uma das melhores cenas de combate da série até agora; a comissária Tilly (Mary Wiseman) é a real responsável pela navegação da Discovery, enquanto Lorca é um desertor anti-Império que tentou assassinar o real – e desconhecido – governante do universo no qual se encontram. Essa brusca inversão de papéis é estonteante e aterrorizante tanto para o público, que não consegue sair desse macrocosmos, quanto para os personagens, que devem se adaptar para não serem descobertos e mortos.

Em suma, o retorno de Star Trek: Discovery não poderia ser melhor: a re-entrada triunfal marca uma transição da zona de conforto para um “triângulo das bermudas” espacial que esconde ainda mais mistérios – e uma quantidade ainda maior de perigos.

Star Trek: Discovery – 01×10: Despite Yourself (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Alex Kurtzman
Direção: Jonathan Frakes
Roteiro: Gene Roddenberry (baseado em Star Trek), Sean Cochran
Elenco: Doug Jones, Sonequa Martin-Green, Jason Isaacs, Michelle Yeoh, Rainn Wilson, James Frain, Terry Serpico, Anthony Rapp, Shazad Latif
Emissora: Netflix
Gênero: Ficção científica, Ação
Duração: 45 minutos

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