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Obras de ficção científica normalmente tem como escopo geral um futuro ou uma realidade caótica decorrente do uso exacerbado da tecnologia ou do progresso, normalmente enfrentando o possível confronto entre máquina e homem. Inúmeras séries atuais, como Black Mirror, analisam de forma mórbida como o mundo poderia estar em um futuro não tão distante, perscrutado pelos dois lados da moeda das invenções maquinárias que, a princípio, deveriam facilitar a vida de todos. Filmes mais antigos, como 1984 e Admirável Mundo Novo, fornecem uma perspectiva mais distante, mas igualmente trágica para a condição de individualidade e livre-arbítrio. E de forma aplaudível, o novo episódio de Star Trek: Discovery parece ter mudado as perspectivas da série de forma muito interessante.

Em The Wolf Inside, estamos na segunda investida para uma dimensão completamente diferente da qual estávamos acostumados. A U.S.S. Discovery, agora repaginada para se adaptar às novas condições nas quais se encontra, enfrenta uma ameaça que jamais imaginou enfrentar: a tirania do governo terráqueo perante as outras raças da galáxia. Desde o capítulo predecessor, a narrativa outrora fantasiosa e nostálgica deu lugar para uma investida muito mais psicológica e que conversa com narrativas atemporais como O Senhor das Moscas no quesito do retorno à barbárie e ao primitivo: aqui, a ameaça humana veio em uma tentativa de abandonar uma condição mortal e encontrar a necessidade de continuar lutando própria das pessoas, o que as transformou em cegos seguidores de uma vertente extremista assustadora, comandada pela figura oculta do Imperador.

Michael Burnham (Sonequa Martin-Green), dotada de um treinamento Vulcano e terráqueo que a permite transitar entre a razão e a emoção com uma facilidade incrível, logo veste a máscara de uma comandante tirana e impetuosa que não mede esforços para conseguir o que quer. Ao menos essa é a reputação que lhe precede, e gradativamente ela se vê num arco tour-de-force que a obriga a ir contra todos os ideais que defendia na Frota Estelar, incluindo a de não-violência. Mas o twist é justamente esse: a Frota não existe mais, visto que foi extinta após o crescente domínio dos humanos. Os valores estão totalmente distorcidos e partem de mentes calculistas e movidas pelo ódio.

O Capitão da Discovery, Gabriel Lorca (Jason Isaacs) começa a mostrar seus primeiros sinais de fraqueza ao ser jogado na posição de desertor e motineiro, responsável pela tentativa de assassinato do Imperador. Diferentemente de sua condição na realidade que conheciam, ele sofre de modo recorrente com os mais variados tipos de tortura, ainda relutando para perder sua consciência e seu julgamento e emergindo como a debilitada figura que ainda consegue guiar sua tripulação. Ao mesmo tempo em que preza por essa manutenção da estabilidade, uma caótica situação se instala na nave-mãe, posterior à morte do Dr. Culber (Wilson Cruz) e às tentativas de resgatar Paul Stamets (Anthony Rapp) de seu coma cósmico.

Sem sombra de dúvida, um dos maiores arcos a encontrarem uma continuidade plausível e emocionante envolve o relacionamento entre Burnham e Ash Tyler (Shazad Latif). Como sabemos, Tyler começou a lidar com uma real e íntima crise de identidade decorrente de seu tempo como prisioneiro dos Klingon, carregando dentro de sua carcaça a personalidade bélica do líder Voq, cujo plano era realmente se infiltrar na Discovery para apreender seus segredos de sobrevivência e até mesmo de transporte através das dobras. Em uma sequência muito bem coreografada e que faz ótimo uso da fluidez cênica, Burnham confronta seu amor ao perceber que ele não é quem diz ser, e utiliza de toda sua estabilidade emocional para sacrificá-lo em nome do retorno ao lar – mas com uma virada inesperada nos quarenta e cinco minutos do segundo tempo.

Se Star Trek: Discovery consegue tratar de temas tão humanos e ao mesmo tempo futuristas com tamanha destreza, faz a mesma coisa ao fornecer uma perspectiva levemente otimista e que preza pela união de raças outrora inimigas, como os Klingons e os Vulcanos lutando lado a lado para impedir a expansão territorial terráquea. Em uma tentativa de compreender como eles conseguiram deixar as diferenças de lado e até mesmo discursos de soberania racial para criar laços inquebráveis – e que inclusive trazem o retorno de um querido personagem para a franquia – e de extrema valia para a luta contra a ditadura intergaláctica. E de forma surpreendente, essas faíscas de esperança logo se esvaem com o ataque da nave comandada pelo próprio Imperador, ou, de modo inesperado, da Imperatriz Georgiou (com o retorno da incrível Michelle Yeoh para o panteão).

O décimo-primeiro episódio de uma das melhores séries de 2017/2018 continua sua onda positiva e muito satisfatória, principalmente por permitir se entregar a territórios ainda não explorados e que fornecem uma maior complexidade para a mitologia acerca da atemporal franquia espacial.

Star Trek: Discovery – 01×11: The Wolf Inside (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Alex Kurtzman
Direção: T.J. Scott
Roteiro: Gene Roddenberry (baseado em Star Trek), Sean Cochran
Elenco: Doug Jones, Sonequa Martin-Green, Jason Isaacs, Michelle Yeoh, Rainn Wilson, James Frain, Terry Serpico, Anthony Rapp, Shazad Latif
Emissora: Netflix
Gênero: Ficção científica, Ação
Duração: 45 minutos

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