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Star Trek: Discovery finalmente chegou ao final de sua primeira temporada – e digo com muita felicidade que, analisando de modo geral, a série conseguiu manter seu ótimo ritmo até os últimos momentos, ainda que tenha apresentado algumas divergências narrativas. É um fato dizer que o retorno desse panteão intergaláctico para as telinhas desencadeou diversas dúvidas em relação à necessidade de mais uma continuação após uma trinca de longas-metragens totalmente profusos entre si e spin-offs e shows derivados do incrível cosmos arquitetado por Gene Roddenberry. Entretanto, desde o episódio piloto, essa nova investida conseguiu nos fornecer uma nova perspectiva acerca da icônica Frota Estelar ao mesmo tempo em que implantava easter eggs e referências da franquia atemporal.

Bryan Fuller e Alex Kurtzman perceberam que o desfecho dessa primeira narrativa teria que dar uma acelerada antes de reencontrar seu ritmo – e talvez seja por isso que o penúltimo episódio, intitulado The War Without, the War Without, tenha se desenvolvido a curtos passos, aguardando a finalização de seu terceiro ato para finalmente nos entregar a um ambicioso cliffhanger. Afinal, como bem sabemos, a tripulação do U.S.S. Discovery conseguiu retornar para a realidade de onde vieram, ainda que nove meses no futuro: logo, esperava-se que certas mudanças drásticas aconteceriam, e fui justamente isso o que o roteiro de Ted Sullivan explorou.

Conforme nos é revelado, a guerra entre a Frota Estelar e o Império Klingon chegou a um fim – e os inimigos venceram as grandiosas batalhas espaciais, expandindo seu território por toda o universo e reduzindo a esquadra oposta a um número quase inexistente. Os últimos sobreviventes se refugiaram no planeta Terra e ainda ousam tentar atacar as poderosas naves comandadas por essa raça violenta e sanguinária, sem sucesso ou qualquer sinal de mudança de ares. Com o Capitão Gabriel Lorca (Jason Isaacs) revelando quem é e encontrando seu trágico fim no décimo-terceiro capítulo, cabe agora ao Comandante Saru (Doug Jones) e a Tenente Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) idealizarem planos bélicos para contra-atacar ou para refrear essa brusca conquista. Entretanto, nenhum dos dois sabe exatamente por onde começar – e o fatídico destino do cosmos que conhecem pode estar nas mãos de uma figura nem um pouco convencional, perigosa e poderosa.

Acontece que Michael, em uma tentativa de se redimir de seu turbulento passado, traz a versão alternativa de Philippa Georgiou (Michelle Yeoh) para sua própria dimensão, cometendo o erro irreparável de trazer uma terráquea sedenta por vingança e cujos valores são pautados pela subjugação dos mais fracos pelos mais fortes, acreditando piamente em uma supremacia racial que deve ser adotada por todas as civilizações. Em outras palavras, a outrora conhecida e temida Imperatriz em nada se parece com a compreensiva Capitã que também servia como figura maternal para a Tenente. Ainda assim, ela é a única que tem o necessário para combater os Klingons, visto que já os havia vencido em sua realidade.

Ambas as últimas iterações funcionam de modo complementar; logo, se uma preza mais pelo desenvolvimento pessoal dos personagens e adota uma perspectiva mais intimista e perscrutada pelo drama, a outra compensa essa inteligente “estabilidade monótona” com algumas cenas de ação que sempre são bem-vindas. O problema está na dosagem e na colocação profusa desses momentos dentro do escopo narrativo; em Will You Take My Hand?, como foi chamado o season finale, Akiva Goldsman entra como responsável pelo último projeto e até consegue entregar um produto satisfatório. Entretanto, ele se restringe ao término de apenas um arco – o arco majoritário e que rege cada um dos personagens -, esquecendo-se de coadjuvantes que precisavam e mereciam um pouco mais de atenção. Com exceção de Philippa e Michael, todas as outras figuras têm um breve momento de protagonismo cênico, mas mais se parecem como tapa-buracos que qualquer coisa.

Desde Tilly (Mary Wiseman) até Ash (Shazad Latif), o roteiro permanece respaldado no constante embate entre dois exércitos diferentes – e nem mesmo coloca um pano de fundo bélico. Se não fosse pelos pequenos resquícios de foreshadowing ou até mesmo pelos sutis diálogos entre os personagens, nos esqueceríamos de que há mais uma batalha de formando, cujas consequências não terminaram. Porém, tudo permanece no campo das ideias, em um banho-maria interminável e que chega a cansar o espectador – note bem que estou apenas reclamando sobre essa desconexa investida que se instaura na superficialidade e não abre nenhuma brecha para uma exploração mais profunda. Em relação às duas personagens principais, tudo gira em perfeita sincronia e até mesmo trilha um caminho diferente, fornecendo dois arcos de redenção completamente opostos e que, ao mesmo tempo, dialogam entre si.

Há sequências ótimas dentro de cada um desses episódios e que contribuem até mesmo para mostrar a versatilidade de seus atores. No último capítulo, Goldsman faz muito bom uso dos planos-sequência e da montagem paralela para revelar as reais intenções tanto do que restou da Frota Estelar, que agora é dominada pelo medo e pelo pânico, quanto para fazer referências a inúmeros produtos audiovisuais do gênero de ação. A equipe da U.S.S. Discovery arquiteta um plano para implantar um drone nos vulcões inativos do planeta-natal dos Klingons e tentar descobrir suas reais intenções de guerra; entretanto, levando em consideração que essa missão fica a encargo de Philippa, sabemos que nem tudo é o que parece ser e que, eventualmente, os ideais pacíficos da Frota são colocados em cheque e enxergam como última alternativa um genocídio em massa.

O final da primeira temporada de Star Trek: Discovery pode não ter sido exatamente o que aguardávamos, mas dentro de seus limites narrativos e levando em consideração que seus criadores não poderiam florear demais dentro dos últimos minutos, esses dois capítulos são aceitáveis e interessantes de serem analisados como parte do panteão cósmico. Talvez o que tenha falado mais alto e roubado todas as expectativas seja o seu frame conclusivo – que nos deixa ansiosos para o próximo ano e premedita a aparição de alguns personagens bastante conhecidos.

Star Trek: Discovery – 01×14: The War Without, the War Within / 01×15: Will You Take My Hand? (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Alex Kurtzman
Direção: Olatunde Osunsanmi, Akiva Goldsman
Roteiro: Gene Roddenberry (baseado em Star Trek), Ted Sullivan, Gretchen J. Berg, Aaron Herberts
Elenco: Doug Jones, Sonequa Martin-Green, Jason Isaacs, Michelle Yeoh, Rainn Wilson, James Frain, Terry Serpico, Anthony Rapp, Shazad Latif
Emissora: Netflix
Gênero: Ficção científica, Ação
Duração: 45 minutos

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