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Desde que o vilão Darth Vader cruzou as portas da nave Tantive IV na abertura do primeiro filme de Star Wars, em 1977, criava-se ali um ícone pivotal do cinema hollywoodiano de todos os tempos. A curiosidade por trás do capacete, a respiração mecânica e a voz grossa de James Earl Jones cativaram o público por anos, à medida em que George Lucas lentamente nos revelava flashes de seu passado, a conexão com Luke Skywalker e finalmente o rosto debilitado e frágil que se escondia por trás da máscara, minutos antes de sua morte em O Retorno de Jedi. E mesmo assim, Darth Vader permaneceu um mistério.

Um mistério que parecia finalmente ser revelado quando Lucas anunciou a trilogia prequel em 1997, que iria se concentrar justamente no passado de Anakin Skywalker antes de sua transformação no grande vilão da trilogia original. Com dois filmes que lentamente acompanhavam o crescimento do personagem e os pequenos indícios de sua queda para o Lado Negro da Força, Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith finalmente realizaria a audaciosa tarefa de retratar o exato momento em que Anakin é convertido de heróico Cavaleiro Jedi ao Lorde Sith mais famoso e poderoso da saga. E o caminho é uma das melhores coisas que o universo Star Wars já nos entregou.

A trama se inicia três anos após os eventos do Episódio II, trazendo a galáxia em um período turbulento e intenso graças às Guerras Clônicas, que colocaram a República diretamente contra os Separatistas. O conflito pode chegar ao fim com a captura do vil General Grievous (voz de Matthew Wood), híbrido que lidera os exércitos dróides para a Federação do Comércio. Tendo essa informação em mente, o Conselho Jedi envia Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) para dar cabo ao comandante, enquanto Anakin Skywalker (Hayden Christensen) mantém seu casamento com Padmé Amidala (Natalie Portman) um segredo de todos, temendo por sua vida graças a temíveis sonhos que profetizam a morte de sua esposa. Quando Anakin é designado para espionar as misteriosas atividades do Chanceler Palpatine (Ian McDiarmid), todas as suas angústias e medos serão aproveitadas pelo político, que enfim revela suas verdadeiras intenções.

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Sessão Matinê

Este é indubitavelmente o melhor filme da trilogia prequel. Não que isso seja uma tarefa particularmente difícil, mas é realmente impressionante observar o amadurecimento e o crescimento de George Lucas como realizador, até mesmo quando comparamos com seu trabalho em Uma Nova Esperança. Logo nos segundos iniciais, Lucas surpreende com um engenhoso plano sequência que já esbanja sua criatividade e o irretocável trabalho de efeitos visuais da Industrial Light & Magic para uma sequência em que os caças Jedi de Anakin e Obi-Wan cruzam uma gigantesca batalha espacial onde Palpatine é mantido como refém do General Grievous. É uma cena crucial para demarcar o ritmo inicial do filme.

Assim como o Episódio II também contava com dois filmes diferentes se desenrolando paralelamente, o Episódio III por sua vez igualmente apresenta duas narrativas distintas aqui – apenas tratando-se de uma divisão mais nítida, quase uma Parte I e Parte II. Tal primeira parte é uma aventura deliciosa e old school que se desperta nessa sequência inicial de resgate ao Chanceler. Vemos o relacionamento de Anakin e Obi-Wan muito bem estabelecido e com alívios cômico que funcionam de maneira orgânica (ainda que aqui e ali a escrita de Lucas seja danosa, nada é perfeito). Até mesmo o inexpressivo Hayden Christensen apresenta uma melhora notável aqui, devendo muito ao trabalho impecável de Ewan McGregor como seu mentor e amigo, e que aqui está cada vez mais parecido – fisicamente e em termos de atuação – como a figura do Ben Kenobi de Alec Guiness que conhecemos no primeiro filme da saga.

Anakin e Obi-Wan dão o tom apropriado para essa primeira porção, especialmente quando a montagem de Ben Burtt os divide para acompanhar a caçada do Mestre Jedi ao asqueroso General Grievous. Aliás, o líder do exército dróide permanece até hoje como uma das criaturas digitais mais consistentes de toda a saga, ainda me fazendo jurar que algumas tomadas só poderiam ter sido realizadas em animatronics, dado o realismo e verossimilança de seus movimentos. Como personagem, Grievous é um bom vilão introdutório e rende sequências de ação muito bem elaboradas, como sua fuga de uma nave espacial e a insana perseguição onde o personagem controla uma roda giratória enquanto é seguido de perto por Kenobi, montando uma espécie de lagartixa gigante. Sua habilidade de usar quatro braços em um duelo de sabres de luz com Kenobi é uma ideia que eu teria em sonhos molhados, mas infelizmente Lucas erra ao compor uma mise en scène baseada apenas em planos fechados que falham em explorar a grandiosidade do confronto. Mas as hélices de sabres de luz com certeza foram de arrepiar, muito obrigado Ben Burtt.

Enquanto a caçada de Kenobi nos garante os momentos de ação, a trama de Anakin surpreendentemente talvez seja ainda mais interessante. Com o jovem cavaleiro Jedi cada vez mais íntimo de Palpatine, é a oportunidade para termos o exemplar mais forte da escrita de Lucas até então, com a natureza sombria do Chanceler finalmente sendo revelada e lentamente seduzindo Anakin. A famosa cena da ópera quando Palpatine conta à Anakin a tragédia de Darth Plagueis, é um raro momento de sutilezas e atmosfera (sem falar na criação de uma mitologia palpável dentro desse universo) incômoda em uma filme dirigido por Lucas, seja pelo texto, a fotografia soturna de David Tattersall, a trilha sinistra de John Williams ou a performance arrasadora de Ian McDiarmid. São também os pequenos toques que vão lentamente nos indicando para o filme sombrio que viria a seguir.

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Coração das Trevas

Com a morte do General Grievous e a revelação de que Palpatine é de fato um lord Sith, A Vingança dos Sith começa a tornar-se um filme assustadoramente diferente. É uma mudança de ritmo tão forte que o resultado é perfeitamente capaz de ser perturbador, ainda mais se existe um envolvimento emocional com a trama e os personagens – e eu entendo aqueles que não têm. É quando Anakin finalmente passa para o Lado Negro e assume a identidade de Darth Vader. Em um raríssimo momento de contemplação, a condução de Lucas torna-se brilhante: Anakin é instruído por Mace Windu (Samuel L. Jackson) a aguardar no templo Jedi enquanto ele e um grupo partem para matar Palpatine; que na visão de Anakin, seria a única pessoa com o segredo para salvar Padmé de seus sonhos premonitórios. Vemos uma sequência movida pelo canto sinistro da música de John Williams, onde Anakin contempla a metrópole de Coruscant e vemos Padmé fazendo o mesmo em seu apartamento, distante em algum canto da cidade. É o momento em que, sem o uso de seus diálogos expositivos e frases de efeito toscas, entendemos perfeitamente o que o personagem pensa, apenas pelo poder da imagem e da montagem.

Lucas abraça o melodrama pesado durante a cena em que Anakin testemunha um confronto entre Palpatine e Mace Windu, construindo bem o suspense até o momento em que o jovem decepa o braço do Mestre Jedi e ajuda o Sith a sobreviver. A maquiagem excepcional ajuda a deixar McDiarmid ainda mais monstruoso e intimidador, já nos remetendo à sua figura de Imperador em O Retorno de Jedi. Confesso que até a atuação de Hayden Christensen torna-se mais interessante durante essa virada para o Lador Negro. Claro, não é um trabalho perfeito e também não iria ao ponto de chamar sua atuação de “ótima”, mas é um avanço considerável de seu trabalho em Ataque dos Clones – aparentemente, Francis Ford Coppola teria indicado seu coach de elenco para Lucas – e eficiente ao ilustrar a angústia e raiva que tomam conta de Anakin.

O que se segue então é um filme devastador, principalmente para crianças. Eu mesmo me lembro de ter saído profundamente abalado de minha sessão do Episódio III, há 11 anos atrás, e confesso que o efeito ainda funciona agora. Palpatine ordena a destruição de todos os Jedi espalhados pela galáxia, algo que seu exército de Clones executa em uma sequência triste e sem piedade: ao som de uma peça sinfônica excepcional de John Williams (“Execute Order 66”), os Clones se revoltam e assassinam todos os desavisados Jedi, e Lucas até trabalha bem os simbolismos ao trazer um tilt onde a câmera concentra-se nos pés dos soldados parando atrás de um Jedi, já deixando explícito de que não seguem mais suas ordens. O mais assustador é quando vemos Anakin invadindo o Templo Jedi com um exército de Clones, e acendendo seu sabre de luz antes de exterminar um grupo de crianças pequenas – e é o fato de não vermos a ação que a torna tão devastadora.

E se mencionei Coppola ali em cima, não foi só aí que a presença do lendário diretor da trilogia Poderoso Chefão foi sentida. Em uma discreta homenagem ao batismo de fogo de Michael Corleone no primeiro filme, acompanhamos a cena em que Palpatine instala a criação do Império Galáctico no Senado, e a montagem de Ben Burtt e Roger Barton inteligentemente a intercala com Anakin cumprindo as ordens de seu Mestre e assassinando os líderes Separatistas remanescentes. Uma cena impecável que representa a sujeira sendo varrida pra debaixo do tapete de Palpatine, e a cena ainda culmina com um Lucas extremamente sensato ao trazer todo o Senado aplaudindo a nova política do vilão, enquanto Padmé constata para outro senador que “é assim que a liberdade morre, com um estrondoso aplauso”.

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O Nascimento de Darth Vader

Todo esse turbilhão dramático e sombrio acaba levando para um dos mais esperados momentos de toda a saga: o duelo entre Anakin e Obi-Wan, que culminaria em sua transformação em Darth Vader. É uma cena impressionante do ponto de vista técnica, especialmente em toda a concepção visual e a lógica interna criada pelo departamento de arte para o planeta vulcânico de Mustafar, uma verdadeira visão do Inferno e o palco ideal para a destruição da amizade que vimos ser construída relativamente bem durante a trilogia.

Tanto McGregor quanto Christensen são capazes de capturar a intensidade e o drama da cena, e surpreendem em um duelo estupidamente bem coreografado – ao contrário da maioria, não vejo isso como um demérito, afinal são dois Jedi no ápice de suas habilidades, e a mera imagem de termos dois sabres de luz azuis se chocando é algo inédito na saga até então, provocando um efeito interessante e altamente simbólico.

Repito-me mais uma vez, mas é preciso apontar, sim, o espetacular trabalho de John Williams no tema musical da cena, batizado de “Battle of the Heroes”, que captura esse aspecto trágico e operático da queda de Anakin Skywalker de forma perfeita.

E assim como nos longas anteriores, também temos um clímax marcado por ações paralelas. Porém, dada a gravidade da situação, o roteiro de Lucas sabiamente reside seu foco em apenas duas ações, sendo elas o já comentado confronto entre Anakin e Obi-Wan e o empolgante duelo entre Yoda e Palpatine. Imagino os desafios de se realizar tal cena, já que um dos lutadores é um idoso e o outro um boneco digital.

O resultado é tão impressionante quanto a pirotecnia do duelo em Mustafar, principalmente pelo valor simbólico que é ver Palpatine arremessando as plataformas do Senado para tentar matar o mestre Jedi, literalmente jogando a diplomacia no lixo e a usando como arma. Os raios azuis do Sith são o toque final para a entrada de uma coloração intensa e dinâmica para o confronto, e particularmente sempre achei belíssimo o nível de detalhes ao ver o reflexo dos raios nos olhos de Yoda. Uma cena plasticamente perfeita, ainda que frustrante por ser tão curta – novamente, o foco precisava residir no outro duelo.

O desfecho do duelo entre Anakin e Obi-Wan é algo que marcou minha infância. Mesmo sendo uma censura já elevada para o PG-13 (primeira vez que isso aconteceu na saga), nada poderia nos preparar para o chocante momento em que Anakin é imolado vivo após perder suas pernas e um braço. É uma cena gráfica e intensa, e fico genuinamente impressionado que o estúdio tenha permitido a exibição da cena para uma platéia tão jovem – mesmo em 2005, era algo impactante.

O que se segue depois é o aguardado momento em que finalmente as peças se encaixam e Anakin é forçado a entrar na roupa de Darth Vader para sobreviver, e novamente temos um exemplar de brilhantismo da montagem paralela, com a cena de Vader sendo “construído” sendo entrecortada com Padmé dando luz aos gêmeos Luke e Leia. Isso ainda culmina na emblemática imagem do capacete descendo ao rosto de Anakin capturada em um plano contra plongée que nos coloca no ponto de vista de Anakin, chegando até o momento em que ouvimos aquela arrepiante respiração pela primeira vez.

Tudo bem que eu poderia passar sem ver a imagem ridícula de Vader gritando o escandaloso “NÃO!” ao tomar ciência da morte de Padmé, mas Lucas não poderia ser tão bom por muito tempo sem cometer alguma gafe.

Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith é um filme que impressiona por suas pesadas viradas sombrias e a forma eficiente com que conta a real origem de Darth Vader, conectando perfeitamente os pontos com o início da trilogia original. Traz um George Lucas que permanece imperfeito, mas que revela-se incrivelmente mais maduro, talentoso e focado. Um dos melhores filmes da saga.

Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith (Star Wars: Episode III – Revenge of the Sith, EUA – 2005)

Direção: George Lucas
Roteiro: George Lucas
Elenco: Ewan McGregor, Hayden Christensen, Natalie Portman, Ian McDiarmid, Samuel L. Jackson, Frank Oz, Anthony Daniels, Kenny Baker, Peter Mayhew, Christopher Lee, Temuera Morrison, Matthew Wood
Gênero: Aventura, Ficção científica
Duração: 140 min

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