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Quando soube que o Superman estaria na 2ª temporada de Supergirl e de forma completamente afastada da versão do cinema e aproximada dos anos 80, instantaneamente um borbulhão de curiosidade me atingiu. O lado fã do maior e melhor herói de todos os tempos despertou. Eu tinha que conferir, não importava se seria ruim ou não, eu apenas tinha que conferir. Mas, para isso, precisava entender o contexto. Sendo assim, fui rapidamente investir na 1ª temporada de Supergirl da qual tinha sérias ressalvas e questionamentos. E que boa surpresa! Acabei me surpreendendo.

Depois de estar saturado e largar a sisudez excessiva de Arrow, o irritante melodrama adolescente de Flash e os gigantescos furos de lógica de DC’s Legends of Tomorrow, não tinha mais fé em nada que saísse da emissora The CW. Tudo bem que Supergirl era da CBS na época mas, de qualquer forma, era comandada pela mesma equipe. E então veio a previsível transferência definitiva de emissora junto com o anúncio da possibilidade de cada vez mais crossovers.

Sendo assim, a temporada se propõe a mostrar os primeiros passos de Kara Danvers (Melissa Benoist), prima do Superman, como a heroína Supergirl em National City ao longo de 20 episódios, inicialmente, certamente, prevista para menos, porém devido a encomenda de uma nova leva, eis o aumento. Essa falta de planejamento inicial acaba prejudicando. Ao longo da estrutura procedural do vilão aleatório da semana, temos a trama maior por trás envolvendo, claro, a dominação mundial pelos vilões que possuem poderes que se equiparam ao da heroína e alguns episódios que fogem do padrão de ambos ao serem mais contidos e intimistas – onde a série acerta na mosca, aliás.

Felizmente, contra todas as minhas expectativas, Melissa funciona extremamente bem no papel principal. É carismática, tem presença, personalidade e eleva a personagem a algo bem acima do genérico que a escrita proporciona e pede. Em episódios em que a heroína opera como uma criança ou uma princesa da Disney, é Melissa quem não deixa a peteca cair completamente. E em outros, que exigem maior dramaticidade e peso, a atriz tira de letra, provando-se bem versátil, principalmente no episódio 16 onde Kara entra em contato com a Kryptonita artificial vermelha e muda bruscamente de personalidade ou no episódio 6 em que, durante uma luta contra o Tornado Vermelho, libera toda sua raiva.

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O resto do elenco também surpreende. Chyler Leigh como Alex Danvers, irmã da protagonista, sempre entrega quando precisa e acompanha todo o drama de Kara com peso, Mehcad Brooks como James Olsen e Jeremy Jordan como Winn não exatamente se provaram como atores aqui, mas também não comprometeram em momento algum. David Harewood como Hank Henshaw consegue transmitir bem o instinto paternal e o mistério que envolve o personagem – que por sinal, rende uma excelente reviravolta que me pegou desprevenido.

Calista Flockhart como Cat Grant é a maior revelação para mim. Causando uma péssima primeira impressão (até pelo texto que lhe foi dado) no piloto, onde a personagem soava como uma caricatura com um quê de O Diabo Veste Prada com seu jeito de andar, se portar e dialogar, imaginei que estava diante da “Felicity de Supergirl”. Personagem insuportável, quero dizer. Entretanto, conforme a temporada avançava e os roteiristas começavam a humanizá-la e a dar bons diálogos com referências pop, acabei tomando simpatia por Cat e logo a queria ver interagindo com todos do elenco tanto quanto amadurecendo sua belíssima e muito bem aproveitada relação com a protagonista. De longe, minha personagem favorita da série.

Falando em referências pop, há um muito bom uso destas junto com a ótima trilha sonora de mesmo calibre, nunca deixando a áurea da série ficar pesada. O que nos leva a um de seus maiores trunfos: a leveza, o descompromisso, o bom humor e a fidelidade ao espírito das HQs da Era de Ouro e Prata. Não perdendo tempo com dilemas e conflitos existenciais depressivos e não entrando em terrenos complexos em termos de história, a série finca sua bandeira fora da realidade de forma leve, descompromissada e agradável. É simplesmente uma delícia assistir Supergirl. Como comer brigadeiro colorido. É atrativo, gostoso, fácil de digerir mas pobre em substância e o consumo em excesso não faz bem e pode deixá-lo mal acostumado.

Logo, se tratando de Greg Berlanti e Andrew Kreisberg, podemos concluir que nem tudo são flores. Falemos dos problemas menores primeiro.

A direção, ou a falta dela, em alguns episódios, incomoda. Muito. É triste ver uma heroína como essa ter que ser enquadrada de forma automática na quase totalidade das cenas de voo e em diálogos dramáticos. Tudo bem que o orçamento limita o trabalho e manuseio de câmera mas o que foi apresentado aqui é preguiça mesmo. Os efeitos especiais também sofrem por conta do fator orçamentário, oscilando entre adequados e pobres. Igualmente preguiçosas são as coreografias de luta, sem um pingo de criatividade, beirando ao ridículo em algumas ocasiões, só faltando o cabo estar a mostra. Por não ter uma direção competente, as lutas carecem de ameaça para a protagonista. Não há urgência porque sabemos quem sairá vitoriosa sem maiores danos. Problema intensificado pelos inimigos de porte físico extremamente inferiores a heroína – um deles, a prende em areia movediça. Sim, areia movediça.

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A já comentada estrutura de 20 episódios também assola a série com vários episódios filler que só existem para preencherem lacunas e acabam tendo pouca ou nenhuma importância para a temporada como um todo. Os vilões também são um problema. Os oponentes da semana não possuem personalidade, não são bem desenvolvidos e alguns possuem visuais dignos de cospobres que causam vergonha alheia, fazendo parecer que estamos vendo uma série de Joel Schuhmacher em seus piores momentos, como Indigo, Livewire, Banshee Prateada e o robótico Tornado Vermelho.

Astra e Non também não funcionam. Ambos vilões blasé, rasos como um pires e com discursos repetitivos. A primeira, tia da heroína, protagoniza um momento vergonhoso no final do episódio 13 e o segundo, interpretado no automático por um apático Chris Vance, é antipático e destoa demais do conjunto da série. Quem se salva é Peter Facinelli com seu Maxwell Lord servindo, na maior parte do tempo, como o Lex Luthor da temporada. Seu egocentrismo e sarcasmos são genuínos e acreditamos em Peter enquanto vilão. O equilíbrio de Max, porém, é perdido no episódio 12, “Bizarro”, um dos piores da temporada, em que os showrunners pareciam perdidos e completamente em dúvida de que caminho seguir para o personagem. Felizmente, nos episódios seguintes, seu curso é ajustado novamente.

Um dos problemas de Max são as conveniências absurdas que, aliás, permeiam todo o roteiro. O personagem sempre tem uma solução para qualquer problema assim como a resposta para criar tudo que lhe vem à mente com os planos mais mirabolantes possíveis. O “DEO”, organização governamental para qual Kara trabalha, também sofre do mesmo problema, assim como Winn – o gênio da computação da vez – ao final da temporada. Assim como Felicity e o STAR LABS em Arrow e Flash.

Há também os triângulos amorosos típicos das séries juvenis da The CW. Felizmente, a série não investe tanto no melodrama desses e rapidamente resolve a questão com Winn, com o filho de Cat – extremamente boba e previsível – e com James Olsen (que possui um conflito válido e interessante de acompanhar com sua namorada, Lucy Lane, irmã de Lois).

O roteiro não peca somente nesses vícios mas também ao nunca arriscar sair da zona de conforto. Tudo é previsível e unilateral demais. Você sabe como vai terminar todo episódio a partir do momento que um padrão é estabelecido. Os episódios que saem parcialmente dessa zona, são os melhores. Episódios 7, 13, 16 e 17, para ser exato. O 13, em particular é excelente, não somente por se basear em uma das melhores histórias do Superman, “For the Man Who Has Everything” (Alan Moore), mas por sua execução que seria quase excepcional não fosse a pressa para encerrar logo o arco em 1 episódio.

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O final é outro erro. Sintetizando tudo que a série tem de pior, os dois últimos episódios usam e abusam das conveniências de roteiro, das soluções fáceis – um discurso motivacional que reverte uma hipnotização cerebral em massa? – dos fillers e da pressa em terminar tudo, deixando um gosto amargo no encerramento com um cliffhanger para lá de desnecessário.

A participação do Flash no episódio 18, “World’s Finest” (outra referência), é orgânica e funciona, não soando como filler ou algo jogado. A química entre Melissa e Grant Gustin é excelente e fica visível a empolgação de ambos por estarem contracenando. Espero ver mais crossovers no futuro, com Cat interagindo com os heróis sempre, de preferência.

O lado nerd da série é bem afiado, indo até o fundo do baú para buscar vilões ou nem tão fundo assim para buscar nomes de episódios e alguns eventos clássicos. A temporada erra, porém, quando perde a identidade e resolve referenciar demais todo o cânone do “Superman”, usando e abusando de elementos que lembrem ou conectem o momento a história do Homem de Aço, sendo a visita a “Fortelaza da Solidão”, um desses casos.

Supergirl é uma série honesta, simples, bem humorada, inocente e que não deve ser subestimada. Diverte ao mesmo tempo que sabe se divertir e apresentar bons momentos de heroísmo clássico que há muito tempo eu não via presente na mídia televisiva ou cinematográfica – a última vez foi em Superman: O Retorno -, como uma sequência de rápida e eficiente montagem de múltiplos resgates e e salvamentos guiada por “Hit Me With Your Best Shot” na trilha. Entretanto, por estar presa a um dos times criativos mais preguiçosos em atividades na televisão aberta, fica impedida de alçar voos mais altos e sair da zona de conforto para se transformar em algo verdadeiramente memorável. Esperamos que o “Superman” chacoalhe um pouco as coisas…

Obs: Eu estava determinado a dar nota 2,5 por conta dos terríveis episódios finais mas devido à enorme força de vontade do elenco, da áurea alegre e positiva que me encheu de esperança e do fato de ser melhor e mais atrativa do que todas as bobagens que a DC têm produzido/produziu recentemente relacionado a super-heróis na televisão  (sim, falo de Smallville, Arrow, Flash, Legends of Tomorrow e Gotham) aliados ao meu receio e preconceito completamente enterrados ladeira à baixo, tive que dar um desconto.

O mundo precisa de Supergirl… e eu também.

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