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Obs: Atenção a pequenos spoilers

Eu só consigo imaginar hoje o alvoroço que Superman II – A Aventura Continua deve ter causado em 1980, na época de seu lançamento. A chegada da continuação de um dos filmes mais aclamados daquela década, como fora o majestoso Superman de Richard Donner, é um evento raro entre cada geração e um fenômeno um tanto bem conhecido hoje no mundo dos blockbusters. Com filmes sem o mesmo nível de grandeza ou impacto claro, mas que já era um strike de sucesso naquela época.

E, como também desde sempre, as expectativas e apostas para filmes assim sempre estão no mais alto nível. Felizmente Superman II foi criticamente e financeiramente bem recebido como seu antecessor, e já prometia ainda mais frutífero futuro para a franquia do homem de aço nos cinemas por um bom tempo. Porém, encontramos um filme aqui que fica muito aquém da qualidade de seu, até hoje insuperável, antecessor. Mas já vamos chegar lá.

Na trama, encontramos Clark Kent/Superman (Christopher Reeve) mais adaptado a sua dupla vida de repórter desajeitado do Planeta Diário e o herói global de capa vermelha. E começando a encarar sua intensa dúvida sobre seu lugar no mundo e suas responsabilidades de salvador da humanidade, ao se apaixonar mais e mais por Lois Lane (Margot Kidder) que começa a suspeitar da identidade do colega repórter. Enquanto isso, uma grande ameaça chega a terra com a libertação do General Zod (Terence Stamp) e seus seguidores Urca e Non (Sarah Douglas e Jack O’Halloran) de sua prisão infinita da zona fantasma. E agora ameaçam dominar a humanidade no momento de maior fragilidade de seu grande herói.

Uma decente decepção

Talvez nem seja o caso de “expectativas não supridas”, pois o filme claramente agradou a crítica e ainda conquistou parte do público em sua época. E isso talvez se deva a um efeito colateral causado pelo filme original de Donner que fora tão bom e marcante, e era simplesmente impossível sair algo ruim desses elementos em futuras continuações, pelo menos é isso que todos nós queríamos. Mas ao se afastar um pouco dessa ótica “nostalgia infalível”, é inevitável notar o quão falho é Superman II em grande maioria de seus quesitos.

E se você pensava que só as produções de filmes de super-heróis de hoje eram frutos de dores de cabeça e profundas depressões graças à diferenças criativas e interferência dos estúdios, Superman II foi com certeza um dos pioneiros no quesito. Com o desde sempre subestimado Richard Donner sofrendo nas mãos dos produtores Ilya e Alexander Salkind, e mesmo ele tendo filmado mais de 75% do filme, as limitações impostas de orçamento e as diferenças criativas o afastou da produção. Eis que entra o mediano Richard Lester para coordenar refilmagens e filmar o restante do filme em sua visão. Que no final termina em uma bagunça de filme, disfarçado de bom.

Digo disfarçado pois, realmente, Superman II é um filme inofensivo em sua grande problemática narrativa. Claro, é impossível ignorar o ritmo muito inconsistente, oras picotado em pequenas rápidas sequências que se baseiam basicamente em muitas piadas e tiradas cômicas, algumas com o Lex Luthor de Gene Hackman fazendo sua usual graça caricata com seus ajudantes, e outras entre Lois e Clark. E em outros momentos, esticadas e arrastadas sequências com Zod e sua trupe fazendo um vergonhoso show off de seus poderes, de forma quase episódica.

Uma hora estão na lua matando astronautas como assassinos slashers poderosos; e na outra atormentando uma cidadezinha pacata e enfrentando militares, em uma sequência que parece coreografada por um circo com direito a carros fazendo piruetas. E nem estou querendo com isso fazer piada às vestimentas Kryptonianas cafonas do trio de vilões, mas já que mencionei, o brutamontes do Non mais parecendo um palhaço retardado mudo com seus grunhidos, e Ursa a assistente sensual do mestre de cerimônia Zod, esse que acaba sendo mesmo a melhor coisa do filme. Stamp se mostra altamente carismático e imponente no papel e faz sua icônica frase “ajoelhe-se perante Zod” bem memorável em meio de tanta galhofa.

Super comédia escrachada

Não que a culpa seja toda de Lester, afinal ele pegou o bonde andando de um filme quebrado, e juntou os estilhaços de forma desconjuntada, mas que ainda funciona no final. Mas sua especialidade vindo de filmes de comédia apenas o deixaram fazer aqui um filme muito desconexo em tom em relação ao seu primeiro filme. Enquanto o filme de Donner tinha uma construção de uma aventura épica, com uma aura quase poética na forma que construirá a jornada de Clark se tornando Super-Homem, que capturou com perfeição a essência clássica dos quadrinhos do personagem de sua época; o filme de Lester mais parecerem excertos de uma comédia romântica com ação e uma pequena jornada existencial para o herói, que aparece do nada no filme.

Nem preciso dizer que Lester não sabe mesmo mexer direito em cada uma dessas vertentes. E até deturpa quase por completo o tom sério e tão equilibrado no drama e humor do primeiro filme com seu humor galhofa aqui, até em cenas que nem eram supostas ser de comédia. Tome por exemplo o que ele faz na intro do filme ao recriar o momento de apresentação de Zod e seus seguidores, feito de forma fantástica na intro do filme original e estabelecido de forma perfeita para esse, onde faz quase parecer um heist de Abbott e Costello em Krypton. Ou no confronto final do filme quando os cidadãos de Metropolis pensam que Superman morreu durante a luta e vão pra cima dos vilões com paus de madeira. Um momento que poderia ter sido de forte grau inspirador e emocional, vendo as pessoas que o Superman luta e protege, se erguendo para vinga-lo. Mas se torna uma sequência embaraçosa com o trio assoprando os cidadãos, com direito a inúmeros gags no meio do caos; um homem falando no telefone de rua enquanto o super assopro derruba sua cabine e ele continua mo Telefone por exemplo; momentos que quase fazem parecer uma comédia escrachada de alto orçamento.

E Lester claramente não conhece nada do Super-Homem e inventa alguns poderes inesperados durante o filme. Como Zod lançando raio pelos dedos e controlando objetos, ou com uma vergonhosa luta na fortaleza da solidão com direito a teletransportação, o super se multiplicando, ou o meu favorito, ele lançando o símbolo do seu peito para nocautear Non. Isso era pra ser uma comédia certo?!

Mas como disse, erros um tanto irritantes, mas que nem são o suficiente para diminuir um filme que ainda sustenta um saldo positivo. Graças aos bons momentos e conceitos em meio de idéias tão bobas e embaralhadas. O arco Lois e Clark, embora pareça uma comédia romântica de Peter Bogdanovich inserida no meio do filme, garante bons diálogos entre os personagens que nutrem uma ótima química graças ao carisma encantador de Margot Kidder e o charme tão puro e inabalável de Reeves, ainda irretocável no papel que ele nasceu para interpretar.

A Crise de um Deus

E é nesse arco da história no qual é introduzido o “grande” fio dramático da trama de Superman II, a crise pessoal de Clark sobre continuar sendo ou não o herói que salva a todos e a humanidade está sempre precisando. E o roteiro de Mario Puzo e David e Leslie Newman, em contexto melhor que em estrutura, inserem isso de forma inteligentíssima. Se aproveitando do fato de Lois ser apaixonada por Superman e não por Clark, é levantada a dúvida em Clark se ela continuará sentindo o mesmo sabendo quem ele é de verdade, e não só pela sua faceta de divindade e perfeição que seus poderes lhe garantem. No momento em que ela afirma que seu amor é verdadeiro pela pessoa, supostamente, ele não vê mais razões de se sacrificar pelo mundo já que encontrou a felicidade que tanto ansiava, e usa a máquina de seus antepassados na Fortaleza da solidão para absorver seus poderes.

Mas as consequências dessa decisão vem em rápida antemão. A cena em que Clark, agora sem poderes, confronta um bruto antagonizando Lois dentro de um restaurante, e começa a ser esmurrado friamente sem piedade, é um momento muito doloroso de se assistir e muito bem concebido (não a toa, fora uma das cenas que Donner havia filmado antes de sua saída).

Esse arco, do herói em crise, de identidade, de seus poderes, de seu lugar no mundo em meio as suas responsabilidades e humanidades, se tornou grande base de inspiração para tantas continuações de filmes de super-herói até hoje. Vide Homem de Ferro 2, Batman – O Cavaleiro das Trevas, seu maior discípulo Homem Aranha 2, etc, estão aí como prova do marco influente que a história que Superman II estabelecera no gênero até hoje.

Mas nem preciso dizer que Lester falha em saber dirigir bem esse arco do roteiro, e até toma decisões bizarras no tratamento dela. Ao se submeter ao corte de gastos dos produtores retirando as cenas filmadas de Marlon Brando como Jor-El e as substituindo por outras supostas figuras de Krypton completamente aleatórias e a mãe de Kal-el/Clark. Causando bizarras quebras de ritmo e um “sumiço” completamente sem sentido de Jor-El da história de Clark.

E nem sequer falei ainda do RIDÍCULO beijo apaga memória usado no final do filme por Clark para fazer Lois esquecer que ele é o Super-Homem. Não é só uma idéia em si preguiçosa e idiota, como é também um percurso bem covarde do roteiro. Não só por temer deixar as consequências de Lois saber a identidade secreta de Clark em aberto para desenvolvimento e possível aprofundamento complexo da relação de ambos, como também volta a reduzir a personagem de Lois para uma ignorante distraída que nem sequer nota óbvio da identidade de Clark, como continua a abusar de seu bom grado em prol do humor.

Erros tão bobos, mas que não viveram o suficiente para se estabelecerem como marca do “definitivo Superman 2”. Pois anos mais tarde, o espírito do filme original fora novamente ressuscitado com louvor (não, não estou falando de Superman: O Retorno)!

The Richard Donner’s Cut

Ah pois é, também não é de hoje que vemos versões alternativas, estendidas, de diretor, etc; que vêm como uma chance de salvar e mostrar o verdadeiro valor qualitativo de um filme, a visão original do autor/diretor antes de ser remexido e picotado por executivos e estúdios. E eis que Superman II recebeu essa sua chance, tantos anos depois, pelas mãos do único homem que deveria tê-lo dirigido para início de conversa, o senhor Richard Donner.

E o trabalho que ele realiza aqui é simplesmente surpreendente! Sendo dada-lhe a chance pelo editor e produtor Michael Tau, Donner conseguiu aqui reconstruir o filme o mais próximo possível de sua visão original. O segredo pra isso é saber que Donner filmou grande parte de Superman II enquanto ele ainda estava filmando Superman, uma produção digna de um épico clássico que acabou se tornando esses dois filmes contando a mesma história: a jornada de um herói.

Sendo assim, o que vemos nessa versão é realmente o que o O Poderoso Chefão: Parte II foi para o seu primeiro filme, um complemento e expansão da história e seu universo. Então pode se esquecer do tom comédia escrachada da versão de Lester; a versão de Donner se revela como sendo um verdadeiro drama, íntimo e emocional de Clark em seu grande momento de conflito pessoal, mas ainda com muita ação e aventura na dosagem, só que dessa vez muito melhor equilibrados.

A montagem de Tau em si tem um toque moderno bem notável, com uso de upper cuts e transições rápidas, mas que é tão bem projetada e inteligente, onde é quase um alívio ver Donner retirando por completo vários dos momentos bobos e sem sentido da versão original, como dedos laser e beijo amnésico por exemplo, e os alternando por uma continuidade muito melhor fluída e ótimas novas cenas inseridas. E mesmo ainda se utilizando de grande parte filmada por Lester, nota-se como Donner consegue melhorar e muito as coisas que o outro diretor tinha originalmente criado.

A intro volta a ter a icônica presença do Jor-El de Marlon Brando e a origem da chegada de Zod e seus aliados na Terra toma forma quase a de uma viagem pirotécnica ala 2001 – Uma Odisséia no Espaço. A luta final em Metropolis se torna muito mais excitante e frenética, com um novo trabalho de som fantástico re-editado por cima dando a qualidade de um filme de ação moderno. Os efeitos que, embora ainda um pouco datados, são muito bem recriados como se tivessem sido feito ainda na década de 80. Principalmente nas cenas adicionais com Jor-El na Fortaleza da solidão que são tão boas quanto as do original. Até a presença do Lex Luthor de Hackman, embora.ainda com seu charme caricato, se mostra mais suportável e divertida como o alívio cômico do filme e deixa toda a vilania de Stamp como Zod brilhar, que mostra um ar até mais psicótico aqui.

E outra que coisa que mostra ter um ar completamente novo, é a essência do filme em si. Realmente se faz sentir ao longo da projeção da versão de Donner como esse filme se conecta fortemente com o filme original. E não falo isso só pela presença de Brando, mas também a forma como ele lida a história de Clark aqui, à par em tom e aura como a do primeiro filme: movido completamente sob emoções. O amor de Clark e Lois se mostra sendo lidado de forma muito mais madura e tocante, e sua intensa dúvida existencial, ainda apareça na narrativa de forma abrupta, é muito melhor aprofundada dramaticamente.

Tome por exemplo a cena em que Clark volta à Fortaleza da solidão clamar por seus poderes de volta. Na versão de Lester a cena parecia jogada e quase sem investimento emocional adquirido, e nunca vemos Clark recuperando os poderes apenas encontrando o diamante principal brilhando e corta para a comédia em Metrópolis. Aqui, não só estamos sentindo o pesar da alma partida de Clark, como vemos um último diálogo inspirador entre ele e Jor-El, com direito a uma cena belíssima com Brando entrando em cena como uma espécie de projeção viva de Jor-El, tocando no filho para lhe devolver os poderes. Deus voltando a dar vida a Jesus(?!).

Há ainda certas mínimas coisas que incomodam aqui e ali, principalmente ainda envolvendo o final que ainda acho uma saída muito preguiçosa a que Donner também mostra tomar para o desenlace do arco Lois e Clark. Que fora também tão melhor trabalhado nessa versão, mas também perde a oportunidade de se concluir de forma aberta para um futuro aprofundamento complexo e fecha de forma muito feliz e fácil. Crédito seja dado e pelo menos não temos nenhum ridículo beijo amnésico, mas sim uma repetição de trama com o Super voltando novamente o tempo ao girar de novo em volta da terra. Visualmente é interessante e divertido como fora no primeiro filme, mas se torna uma idéia um tanto boba ele voltar no tempo e descartar tudo (de ótimo) que aconteceu no filme até ali. E até sem sentido ele depois no final do filme voltar ao mesmo restaurante que fora esmurrado, para se vingar do valentão lhe dando uma lição. Se ele voltou no tempo nada daquilo tinha acontecido, então porque voltar e subjugar o homem?! Bem, Clark é tão humano como a gente não é mesmo?!

Uma quebrada obra-prima

É até desconcertante ver a versão de Lester depois e encarar suas idéias chulas. Mas seu filme ainda possuí sim seu merecido crédito. De um filme (e franquia) que realmente nunca deveria ter saído das mãos de Richard Donner. Seu filme original já bastava como comprovação, mas sua Richard Donner’s Cut o solidifica sim como o melhor diretor que já mexeu com o personagem no cinema, assim como Sam Raimi para o Homem-Aranha e Christopher Nolan para o Batman. E isso vem de alguém que gosta muito da visão que Zack Snyder incorporou no personagem no novo universo estendido da DC no cinema.

Mas no final você nota como a versão de Donner consegue ser uma versão tão nostálgica para os fãs do seu primeiro filme. Não só por trazer alguns de seus elementos mágicos bem conhecidos, como também trazer de volta aquela sensação de estar a assistindo a uma jornada épica e dramática de um herói, cheio de aventura e ação mas também muito coração. Ao mesmo tempo que consegue criar sua identidade própria e se mostrar uma história íntima e emocional do Super-Homem em seu estado de grandes dúvidas, e mais humano do que nunca no cinema (ainda gosto muito de vocês Homem de Aço e Batman vs Superman).

Em resumo de nota, que depois de tantos elogios seria até desnecessário, mas a Richard Donner’s Cut merece um 4,5/5 cadeiras aqui do site. As pequenas míseras falhas ainda impedem do filme alcançar a almejada perfeição que merecia. Mas é, sem sombra de dúvidas, a versão que Superman 2 merecia ter e que os fãs mereceriam e deveriam assistir. Super-Homem sendo feito com paixão e esmero!

Superman II – A Aventura Continua (Superman II – EUA – 1980)

Direção: Richard Lester
Roteiro: Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman
Elenco: Christopher Reeve, Margot Kidder, Gene Hackman, Terrence Stamp, Sarah Douglas, Jack O’Halloran, Mark McClure, Jackie Cooper, Valerie Perrine, Ned Beatty
Gênero: Ação, Aventura, Ficção-Científica
Duração: 127 min / 115 min (Richard Donner’s Cut)

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