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Tanto em minha crítica de O Homem de Aço quanto na minha própria descrição de perfil, aleguei que havia sido sugado para as telas pela primeira vez em um filme live action pela obra que aqui vos escrevo a respeito. Portanto, admito que se trata de uma tremenda honra dissecar o filme que me permitiu enxergar essa forma de arte com tanto apreço e o personagem-título como o herói de quadrinhos definitivo de minha preferência.

Saindo dos quadrinhos e séries de TV – as de Kirk Alyn e George Reeves – e indo para o seu primeiro grande lançamento nos cinemas – anteriormente, as aparições de Superman nos cinemas estavam limitadas a transmissão dos seriados ou eventos com episódios estendidos – o último filho de Krypton, encarnado por Christopher Reeve, lida com uma narrativa dividida em 4 polos de foco. A abertura, em Krypton, a rápida história de origem, a revelação do Superman e a conclusão com os planos de Lex Luthor. Tudo guiado por um tom camp e sem muitas pretensões dramáticas em termos de arcos. Essencialmente, alguns dos elementos que iriam ser copiados à exaustão por vários filmes de heróis que se seguiriam.

A direção de Richard Donner é certeira ao imprimir alguns dos simbolismos religiosos que são marca registrado do herói – a posição de cruz é repetida durante algumas vezes, saber explorar ao máximo o espaço de enquadramento que possui nas cenas de voo – com efeitos revolucionários para a época e que, mesmo relativamente datados hoje, merecem o devido reconhecimento, ser criativo na montagem rápida de Superman parando uma série de crimes e ajudando cidadãos comuns, incluindo a icônica cena do gato na árvore e extrair atuações cirurgicamente coerentes de seus personagens principais. Onde Donner erra talvez seja na decisão de filmar cenas de ação mais graves e intensas abusando de planos fechados – até para não custear demais a obra, e na hora de balancear o tom geral da obra que oscila entre o camp, o galhofa e o drama. Um desnivelamento de ritmo também pode ser sentido durante o manejamento dos 4 polos. O início se alonga demais desnecessariamente e, ainda assim, conhecemos pouco sobre Krypton.

Já a história de origem de Clark é apressada e condensada em poucas cenas – sua chegada na Terra, sua adolescência durante a corrida contra o trem, a morte de Jonathan, o funeral e a ida para a Fortaleza. São ao todo 3 cenas que Clark possui com os Kent. Assim que ele deixa o Kansas, uçsua mãe, por exemplo, não reaparece na história. Seu hiato na fortaleza e a passagem abrupta de idade e troca de roupa são igualmente mal ajambrados. O vilão demora para ser apresentado e, ao revelar-se como Superman para o mundo, não há um grande arco de aprendizado e desenvolvimento ao final para o herói. Até o romance soa estranhamente conectado.

O roteiro de Mario Puzo – autor e roteirista de O Poderoso Chefão  David Newman, Leslie Newman, Robert Benton e Tom Mankiewicz tenta envolver elementos demais – até a sequência é armada com a prisão de Zod no início – mas os temas são satisfatoriamente trabalhados. O erro maior está na solução final fácil encontrada por Superman para reverter a morte de Lois, a viagem pelo globo até voltar no tempo. Por mais que esteja de acordo com parte de arco que fora montado anteriormente sobre Kal-El não interferir no rumo natural da humanidade, é inegável que se trata de um descarado deus ex machina. Geoffrey Unsworth imprime uma identidade visual louvável à obra. Em Krypton, Metropolis ou no esconderijo de Lex, a cinematografia sempre tenta extrair as cores chamativas de seu figurino, cenário por um jogo de luzes digno que constantemente lembra o espectador de estar assistindo algo relacionado a quadrinhos.

Se todo filme tem que ser analisado por uma perspectiva musical em vez da tradicional perspectiva narrativa, Superman tem seus percalços sendo levemente descompassado mas compensando no arranjo geral. Entretanto, quando falamos de forma concreta sobre o trabalho sonoro que encontramos aqui, só podemos concluir que se trata de um ápice no gênero. A música-tema composta pelo gênio John Williams, não somente em um de seus melhores trabalhos, mas em uma das melhores composições já vistas para um filme, elabora uma sinfonia essencial para a construção do personagem e já figura no cânone do azulão. Assim como o uniforme, a tonalidade musical é vívida e fiel ao espírito otimista do personagem, clamando a cada conquista ou salvamento realizado pelo herói.

E quem melhor para se cercear do tema do que Christopher Reeve? A encarnação perfeita e definitiva dessa visão do Superman. Engana-se quem pensa que o processo de atuação de Reeve fora limitado e fácil. Além do carisma absurdo, a diferenciação entre o desajeitado Clark Kent e o confiante e patriótico Superman é um ponto dificílimo de se alcançar pelo equilíbrio interpretativo e o ator tira de letra, fazendo-nos crer em seu disfarce. Sua entonação de voz ingênua, suave ou heróica e sua pose curvada ou retilínea fazem dos detalhes fundamentais que compõe uma entrega completa de profissional para personagem. O que contribui ainda mais para o impacto na dramática guinada final. Margot Kidder, mesmo sem muito tempo para diversificar sua Lois Lane, entrega uma performance que, se não multifacetada, convence como uma repórter extrovertida e admirada por seu salvador extraterrestre.

A cena de seu monólogo mental durante o primeiro voo do casal pode ser interpretada tanto como um ponto baixo – ao revelar alguém mais frágil e deslocada da proposta inicial – quanto alto – ao representar o estado de emoção dos fãs – na construção de sua personagem e, ao final, não faz muito a não ser servir de dama em perigo que convenientemente estava no local dos planos nefastos do vilão. Lois Lane de fato aprendeu a ser mais proativa ao longo de suas outras encarnações. Marlon Brando em suas pontuais participações como Jor-El engole o cenário com sua presença imponente e centrada, certamente fazendo valer seu cheque milionário que seria motivo de discórdia entre a produção durante a filmagem da sequência.

O lado antagonista da história talvez seja o ponto mais fraco. Lex Luthor, interpretado por Gene Hackman, visivelmente inspirado e se divertindo, é apresentado tarde demais, tem pouco tempo de desenvolvimento, elabora um plano mirabolante e cartunesco, do nível dos piores vilões de James Bond, conta com 2 capangas – Otis e Miss Tessmacher – de falho alívio cômico, toma decisões estúpidas, é unidimensional, infantil e parece ter saído direto do seriado do Batman de Adam West. Ainda assim, é um personagem absurdamente magnético e contagiante que, mesmo não representando ameaça e ter alguns diálogos expositivos penosos, deixa sua marca demonstrando algumas características básicas de Lex como seu egocentrismo, narcisismo, arrogância e inteligência – é o único a saber usar as fraquezas do herói contra ele. É uma versão tão sincera e surtada que só seria superada de verdade nessa mídia 39 anos depois por Jesse Eisenberg.

Por tudo que falei até agora, o longa aparenta ser aqueles típicos exemplos de “mais um filme de herói, com a clássica jornada de origem e um núcleo vilanesco subaproveitado” que inunda as telas de cinema atualmente. De fato, o é. Se fosse lançado hoje – dados as devidas atualizações em efeitos, técnicas, narrativa e propostas – provavelmente estaria em pé de igualdade com o bom Capitão América: O Primeiro Vingador, por exemplo. Mas essa é grande parte da magia que o faz ser um acerto. Ser o primeiro. O primeiro a ditar as regras, o primeiro a propor um modelo de história mais guiado pelo personagem de forma emocional do que pela história racionalizada, o primeiro a nos fazer acreditar que um homem como Christopher Reeve poderia sim voar.

Superman: O Filme pode não ser perfeito, mas nem tenta ser. Tem problemas estruturais mas é uma tentativa válida e divertida de se interpretar quase que de forma perfeitamente funcional e fiel um dos personagens mais icônicos e influentes das páginas de quadrinhos. Alça grandes voos e, certamente, assim como aconteceu comigo, marcou e continua marcando a infância de vários outros nerds esperançosos. Se tropeça em pontos que podem ser incômodos, ao menos recompensa o fã com uma sequência – ambas as versões existentes – que corrige quase que a totalidade dos erros da obra que a precedeu. Trata-se do primeiro passo para uma grande obra-prima e para a fincada de base que sustentaria inúmeros blockbusters do subgênero até hoje, quase 40 anos depois, onde, faltando exatamente 10 dias para a estreia de Liga da Justiça, me encontro aguardando com expectativa o simples retorno rearranjando da música-tema de John Williams.

Superman: O Filme (Superman: The Movie, EUA – 1978)

Direção: Richard Donner
Roteiro: Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman, Robert Benton, Tom Mankiewicz
Elenco: Marlon Brando, Gene Hackman, Christopher Reeve, Ned Beatty, Jackie Cooper, Glenn Ford, Margot Kidder, Phyllis Thaxter, Marc McClure, Valerie Perrine, Maria Schell, Terence Stamp, Jack O’Halloran, Jeff East, Sarah Douglas, Diane Sherry Case
Duração: 143 min

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