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Obs: alguns spoilers

Superman estava morto. Após o fracasso do tenebroso Superman IV: Em Busca da Paz, facilmente um dos piores filmes de super-heróis da História da Humanidade, a Warner Bros deixaria o Homem de Aço descansar das telonas por um bom tempo. Teríamos a série Smallville, centrada na adolescência de Clark Kent e seu futuro crescimento para tornar-se o herói de Metrópolis, mas Kal-El só retornaria aos cinemas quase 20 anos depois. 

A ressurreição do Superman passou pelas mãos de diferentes cineastas, em um longo caminho de projetos cancelados e roteiros descartados, que incluíram a passagem de Tim Burton, Kevin Smith, Wolfgang Peterson, J.J. Abrams, McG e até um filme que colocaria o Batman contra o Superman, antes de Zack Snyder enfim concretizar essa ideia em 2016. E, claro, temos aquelas fotos bizarras de Nicolas Cage cabeludo com o uniforme do herói, que seria a versão abortada de Burton – e muito bem explorada no eficiente documentário The Death of Superman Lives, que fica recomendado. No fim, o escolhido para levar o Homem de Aço de volta aos céus foi Bryan Singer, que na época estava no auge graças ao sucesso de sua visão para os X-Men no cinema. Assim, nascia um dos mais incompreendidos e injustiçados filmes de super-heróis já feito: Superman: O Retorno.

Parte reboot, parte continuação do filme original de Richard Donner, o roteiro de Michael Dougherty e Dan Harris abraça a metalinguagem e nos apresenta a um mundo onde o Superman (vivido por Brandon Routh) está desaparecido da Terra. Após um período de 5 anos, onde havia partido para encontrar vestígios de seu planeta natal, Krypton, Kal-El retorna para o mundo, atraindo a atenção da mídia, de sua outrora amante Lois Lane (Kate Bosworth) e também do megalomaníaco vilão Lex Luthor (Kevin Spacey), que arquiteta um plano para destruir o herói e sacudir a Ordem Mundial, após encontrar a Fortaleza da Solidão e se apoderar dos cristais Kryptonianos do herói.

Superman Lives

É incrível assistir a Superman: O Retorno e pensar em como ele dificilmente seria realizado hoje, mesmo tendo sido lançado a pouco mais de uma década. A menos que fosse lançado sob a agora revolucionária linha da Fox, que aposta em filmes de gênero mais isolados com seus personagens de quadrinhos (ver Logan, Deadpool ou o trailer de Novos Mutantes), este Superman sairia como um estranho perto da atual linha de produção intensa da Marvel Studios ou do estrabalhado Universo Cinematográfico da DC. Isso porque o trabalho de Singer é muito mais humanista e romântico, não se preocupando muito com a ação, explosões ou outros elementos que vêm jogando o gênero em um desgaste preocupante. Isso também explica como o filme foi tão mal nas bilheterias em sua época de lançamento, eliminando qualquer chance desta versão do personagem virar uma franquia; e, sinceramente, talvez tenha sido a melhor decisão, já que o filme funciona melhor como algo único.

Da mesma forma como O Despertar da Força é uma grande homenagem ao primeiro Star Wars, O Retorno é uma verdadeira carta de amor ao filme de Richard Donner, chegando a repetir praticamente todos os beats da história, e também o plano principal de Lex Luthor – no original, a versão de Gene Hackman queria uma ilha, aqui ele almeja por um continente. Essa reciclagem da trama foi outro elemento muito criticado na época, mas que, vendo nos dias de hoje onde esse jogo seguro de repetir a estrutura do original é mais comum do que nunca, envelhece bem e se mostra, estranhamente, “à frente de seu tempo” nessa questão. Claro, isso pode ser considerado um “defeito” se considerarmos a forte semelhança entre os dois roteiros, mas a partir dessa leitura da homenagem, o experimento de Singer funciona muito bem.

Isso porque, apesar de ser o filme-gênese para heróis de quadrinhos no cinema, o filme de Donner era simples e ingênuo demais; se compararmos com a linha que o gênero segue hoje. Por isso, é ousado que Singer aposte em uma abordagem romântica e sem muita ação para um dos seres mais superpoderosos da cultura pop, e também explica como o longa não se conectou com o público mais jovem; afinal, o Superman não soca ninguém nesse filme. No lugar disso, temos um estudo sobre o impacto que o Superman provoca no mundo com seu retorno, e também sobre as dificuldades em suas relações pessoais, especialmente Lois Lane, que agora encontra-se noiva do sobrinho de seu patrão (vivido por James Marsden) e mãe de um garotinho asmático (Tristan Lake Leabu). Singer aposta muito em cenas sobre o relacionamento dos dois, sobre a pressão que White sente com o retorno do herói na vida de sua noiva, e também sobre a extrema rejeição da jornalista com o reaparecimento do Superman; por este ter ido embora sem avisar e retornar do mesmo jeito, inclusive tornando seu artigo vencedor do Pulitzer (um grande texto sobre como o mundo não precisa de um salvador) uma hipocrisia, considerando a histeria da população em receber o herói de volta.

Esse aspecto do Superman como indivíduo e a reação do mundo a sua presença é o aspecto mais interessante. Todo o romance e triângulo amoroso entre Clark, Lois e Richard não é dos mais estimulantes, além de termos uma deficiência no casting (que falaremos mais à frente) e acabar caindo em clichês, mas que compensam com a ótima reviravolta envolvendo a paternidade de um dos personagens. Quanto ao retorno, é um tema que acaba sendo muito bem explorado graças ao fantástico trabalho de world building, conceito que cada vez mais vai se perdendo em novas adaptações de super-heróis. Ao termos o núcleo do Planeta Diário e a presença da mídia, todas as ações do Superman ganham repercussão e parece palpáveis, com a simples fala do jornalista Perry White (Frank Langella, ótimo) em disparar uma série de perguntas para sua equipe (“é uma roupa nova?”, “como vão fazer pra tirar o avião do campo de beisebol?”) sendo uma forma perfeita e eficiente em tornar os personagens – e aquele universo – tridimensionais, algo que o design de produção do grande Guy Hendrix Dyas (de A Origem) faz maravilhosamente bem ao transformar Metrópolis em uma cidade real.

 

Um homem pode voar

Mas ainda que este não seja um filme de ação, todas as sequências de Superman: O Retorno que abraçam o espetáculo são incríveis. Bryan Singer talvez seja o diretor que melhor já transpôs super-poderes às telas, como fica bem claro em seu excepcional trabalho nos filmes dos X-Men (cenas de Noturno em X-Men 2 e Mercúrio em Dias de um Futuro Esquecido e Apocalipse mandam lembranças) e também em seu tratamento com o Homem de Aço. Para Singer, uma habilidade extraordinária sempre requer ser tratada como tal, e sinceramente… o potencial cinematográfico do Superman nunca foi tão bem aproveitado como aqui, ainda que Richard Donner tenha feito um trabalho revolucionário em seu primeiro filme e Zack Snyder não tenha feito feio com sua versão mais sombria do personagem, com Henry Cavill.

A primeira grande set piece é também um dos melhores momentos que um super-herói já teve nas telas. Com um set up tipicamente quadrinesco, um avião jumbo carrega um ônibus espacial para realizar um lançamento econômico e, claro, as coisas dão errado quando uma falha no acoplamento acaba levando o avião junto com o veículo espacial. O Superman vem ao resgate em uma sequência eletrizante, que permanece envolvente mesmo com o nítido envelhecimento dos efeitos visuais, que transformam Superman em um claro boneco digital borrachudo, no melhor (?) estilo Matrix Reloaded. Porém, Singer é um diretor que entende de câmera e fotografia virtual como poucos, e valoriza o escopo da geografia espacial (com as nuvens, a vista do planeta Terra) e também a velocidade de ambos os objetos, com o avião em queda livre, e girando no próprio eixo, sendo perseguido pelo herói. O som da cena é muito importante, e garante um design poderoso e minucioso, com um detalhe que parece irrelevante, mas que faz toda a diferença para que o público creia nessa bonecão digital: o som da capa sendo balançada ao vento durante o voo.

Ao contrário dos irmãos Russo ou Taika Waititis da vida, Singer mantém uma câmera elegante e que nunca cai nos vícios contemporâneos de tremedeira ou cortes rápidos. E por falar em cortes, a montagem de John Ottman (que também assina a trilha sonora) e Elliot Graham é inteligente ao intercalar a ação externa de Superman com todos os tripulantes do avião se segurando e em desespero, expondo ao espectador os riscos e as vidas em jogo – e Singer é hábil em usar a câmera para passar entre os corredores e janelas, conectando os passageiros com Superman na asa do avião através de seus olhares. A sequência ainda é avalancada pela excepcional trilha sonora de Ottman que mantém o suspense, o terror e finaliza com uma retomada emocionante do tema clássico de John Williams, no momento espetacular em que o herói pousa o avião em um estádio de beisebol. Uma cena que é a pura definição de heroísmo, e não seria a única amostra.

Em outra excelente amostra das habilidades de Kal El, temos um ótimo e intimista momento onde Superman paira sobre a Terra, e a câmera lentamente faz um giro em 360º sobre o corpo do herói, que parece em transe enquanto ele escuta absolutamente TUDO o que está acontecendo no planeta, deixando a mixagem de som tomar conta da narrativa e catapultar uma nova sequência de acontecimentos, com todos os sons paralelos sendo ofuscados por uma sirene policial. É aí que temos uma sequência quase episódica, com o Superman resolvendo alguns crimes da cidade – ainda que pareça pura distração e não mova à trama, ela complementa o world building da história, com a presença do herói sendo sentida entre os cidadãos de Metrópolis. Temos o Superman impedindo um assalto à banco, com a imagem impressionante do herói sendo atingido por uma rajada de balas de uma poderosa metralhadora giratória, e ele simplesmente caminhando como se nada estivesse acontecendo (culminando naquela tomada da bala se amassando em seu olho) e no resgate de um carro desgovernado – na verdade, uma distração provocada por Lex Luthor – que rende um belo fan service com a recriação da capa de Action Comics #1, primeira aparição do Superman nos quadrinhos.

O clímax mantém toda essa exploração magnífica, com momentos que traduzem visualmente a superforça do herói, sua visão de calor e também o super sopro, tanto na ótima sequência do terremoto em Metrópolis, como no deliciosamente over the top confronto com Lex Luthor e seu novo “continente” de kryptonita. Aliás, em meio a esse dramático clímax, Singer oferece um dos momentos mais frios de todo o gênero, quando o Superman perde seus poderes ao pisar no terreno construído por Luthor, e toma uma surra homérica e brutal do vilão e todos os seus capangas. É uma verdadeira humilhação, e poucas vezes vi um herói sofrer tanto em tela como nessa cena, e o efeito é ainda mais forte por termos o uniforme mega colorido e cartoon em meio a uma paisagem inóspita e mergulhada em tons de cinza opressores.

Ainda nessa linha, o terceiro ato do filme vai por caminhos ainda mais melancólicos ao trazer ares de A Morte do Superman, com o herói extremamente debilitado e fraco devido ao contato pela Kryptonita. Em mais um atestado de heroísmo e grande escala pelas lentes de Singer, o herói levanta UM CONTINENTE inteiro, levando a criação mortal de Luthor para o espaço (novamente, a desproporção entre o pequeno boneco digital e o gigantesco pedaço de terra é incrível), ao mesmo tempo em que sua energia vai sendo sugada. Superman empurra a construção para o espaço, e cai em pleno centro da cidade. É quando o filme inesperadamente transforma-se em um “hospital movie”, com o herói sendo levado às pressas para a UTI, e é uma ironia trágica ver como seu corpo indestrutível não pode ser perfurado por agulhas ou suportar o efeito de desfilibradores, que simplesmente explodem em seu contato. É uma cena em que realmente tememos pela destruição de um ícone, com Singer usando o assassinato de John F. Kennedy como uma referência na criação da urgência e o sentimento de luto coletivo por parte da população.

Herdeiros de Krypton

Até a estreia de Superman: O Retorno, apenas um ator havia interpretado o herói nos cinemas: Christopher Reeve, que é, e sempre será, a performance definitiva do Homem de Aço. Dessa forma, é um desafio para qualquer um que ouse adotar o papel de Kal-El e seu alter ego de Clark Kent, e o fascínio de Singer por Donner e Reeve acabou levando-o a encontrar praticamente um sósia do ator: Brandon Routh. Infelizmente, apenas a semelhança do ator com o ícone não é o suficiente, e a performance de Routh acaba saindo inexpressiva e sem muito brilho: mesmo quando percebe o roubo de seus cristais, Routh é incapaz de oferecer um Superman realmente PUTO, limitando-se a uma cara fechada. Além disso, falha em criar o equilíbrio entre o Superman seguro e o Clark Kent fragilizado; estranhamente, o Clark de Routh surge quase como um creep, e nem de longe passa a empatia que esperaríamos. É um dos motivos pelo qual a trama romântica não funciona tanto, e Kate Bosworth como Lois Lane é outro erro, já que a atriz surge com uma performance sistemática e quase robotizada, raramente passando alguma expressão além de total sarcasmo e ranzinza.

De longe, e é um tanto difícil falar disso diante de toda a polêmica envolvendo a vida pessoal do ator, Kevin Spacey é o grande destaque entre o elenco principal. Seu Lex Luthor é uma bela continuação daquele introduzido por Gene Hackman na franquia original, e ouso dizer que um aperfeiçoamento notável, já que Spacey torna seu Lex mais calculista e humano, além de mais sinistro do que nunca. Ver como o ator varia de uma reação quase entediada ao ser surpreendido por Lois Lane enquanto escova os dentes, até seu discurso quase esquizofrênico quando explica seu plano de dominação mundial (com mapinha e tudo, como todo bom vilão de matinê), finalizando com um escandaloso grito de “Wrong!” ao negar a interferência de Superman. Mas, claro, este Lex não é um lunático qualquer, e Spacey acerta ao retratar a inteligência e o bom gosto cultural do vilão, que está sempre ouvindo alguma música clássica linda ou buscando um livro para oferecer referências.

O elenco de apoio também merece um destaque. Sam Huntington, em especial, faz um ótimo Jimmy Olsen e acerta ao trazer todo o entusiasmo e fala rápida do jovem fotógrafo do Planeta Diário; e adoro como a figurinista Louise Mingenbach tenha lhe designado uma gravata borboleta muito característica. Na pele da namorada de Lex (ainda que essa relação nunca fique explícita), Parker Posey agrada pelas tiradas humorísticas pontuais, e também por seu arco surpreendentemente relevante para a resolução da trama, e que é bem sucedido justamente pelas reações de Kitty a toda a violência e atos de Luthor, que fazem a personagem questionar se realmente está do lado certo. Já James Marsden está esforçado como de costume, mas pessoalmente não consigo ter nenhum apego ao bem intencionado Richard White, que não passa muito além do papel de “o outro cara”. E não que o ator tenha uma grande presença, mas nunca imaginei que fosse ver Kal Penn dando uma surra no Superman.

Um filme mais romântico e sem muita preocupação com universos cinematográficos ou pancadaria, Superman: O Retorno é uma bela carta de amor ao herói clássico de Richard Donner, e também um dos filmes de super-heróis mais elegantes e incompreendidos dos últimos anos. Mesmo que tenha uma escolha equivocada de protagonista, a visão apaixonada de Bryan Singer faz valer toda a experiência, capturando o espírito inspirador e heróico do maior super-herói de todos os tempos.

Superman: O Retorno (Superman Returns, EUA – 2006)

Direção: Bryan Singer
Roteiro: Michael Dougherty e Dan Harris
Elenco: Brandon Routh, Kevin Spacey, Kate Bosworth, James Marsden, Parker Posey, Sam Huntington, Kal Penn, Eva Marie Sant, Frank Langella, Tristan Lake Leabu
Gênero: Aventura
Duração: 154 min

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