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Em uma de suas obras-primas, Hamlet, o dramaturgo inglês William Shakespeare discorreu sobre a seguinte frase, proferida pelo personagem-título: “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”. O desconhecido, o espiritual e até o sobrenatural são temas cujo estudo ainda não está completamente livre de preconceitos, estereótipos – ou tabus -, restringindo-se a relatos míticos e passíveis de descrença pelos mais céticos ou os que se consideram “virtuosamente superiores”. Mas o que acontece quando um evento beirando a catarse plena abre nossos olhos para uma realidade ofuscada por valores dúbios e hipócritas?

O terceiro capítulo da série da BBC One, em parceria com a FX, escolhe justamente essa ferida para analisar entre cenas verborrágicas e de ação bem coreografadas o relacionamento de seus personagens com o que podemos chamar de inteligível ou enevoado. Continuando exatamente de onde terminou na semana passada, o episódio se inicia com uma cena contemplativa à beira-mar no qual crianças encontram o corpo do Dente de Prata, um dos sicários contratados para assassinar James Delaney (Tom Hardy), devaneando sobre o que possivelmente aconteceu ao cadáver – e, mais importante, quem ficará com o pedaço de prata incrustado em sua mandíbula.

Já estou em minha terceira resenha sobre o show, e ainda não parei para analisar a fabulosa abertura, adornada intensamente com uma trilha sonora composta por violinos, violoncelos e um sutil piano de Max Richter. Seu trabalho ganhou os créditos em textos anteriores, mas devo admitir que, caso não fossem os trinta e tantos segundos de main theme, a atmosfera de Taboo não conseguiria atingir seu ápice. Nas cenas montadas de forma dinâmica, vemos os personagens principais afundando, provavelmente já mortos, num imenso mar, sendo arrastados para o fundo gradativamente enquanto suas imagens se fundem à bandeira dos Estados Unidos. O único a conseguir emergir à superfície é James, indicando que, em algum momento, todos os que ousaram denegrir o nome de sua família serão trazidos à justiça e ele estará completo. Um tanto quanto metafórico, mas com eficácia total.

Hardy encarna um personagem complexo, cujo encontro com forças além da compreensão humana e com seus próprios demônios ocorreu em diversos momentos de sua vida. Ele, deste modo, tornou-se resiliente a ameaças externas; seus momentos de fragilidade estão enterrados num subconsciente povoado por pesadelos, e parece que o único modo de atingi-lo é através da dor física: e é justamente a isso a que somos apresentados.

“Você lida com a dor como uma rocha”, profere o personagem de Michael Kelly, um médico americano chamado Edgar Dumbarton, responsável por retirá-lo das ruas após o ataque do episódio anterior e remendar o profundo corte. Estamos familiarizados com a relação nada amigável entre os dois, e agora parece que os papéis se inverteram: Dumbarton pode realmente acabar com a vida de James, caso ele não entregue as informações que precisa sobre a propriedade de terra que possui nos Estados Unidos e sua traição para com a Coroa Britânica. A cena é relativamente longa, mas necessária: afinal, ainda que debilitado, Delaney consegue manipular o doutor, fazendo-o revelar sem querer a quem ele deve recorrer para falar com o presidente estadunidense Thomas Jefferson.

Além disso, outras revelações e ações muito bem arquitetadas culminam neste capítulo: primeiro, o protagonista deseja o controle da rota do chá que liga a cidade de Vancouver à China, retirando o monopólio inglês para fins ainda não divulgados. Segundo, para manter os asseclas de Stuart Strange (Jonathan Pryce), presidente da Companhia das Índias Orientais, longe de lhe causar algum mal, James recorre ao cúmulo da traição nacionalista ao redigir um testamento em que, em caso de morte, todos os seus bens – incluindo a propriedade na região de Nootka Sound – serão herdados pelo governo americano. Obviamente Strange fica de mãos atadas, pois não pode mais mandar seus mercenários cometem homicídio. Creio que a vitória ainda está sendo cantada muito cedo por James – mas só os próximos capítulos darão qualquer certeza.

A narrativa de Taboo encontrou sua identidade após um início consideravelmente monótono e uma continuação explosiva: temos três atos divididos de forma igualitária pelos episódios. O primeiro discorre sobre as relações entre James e seus aliados e inimigos, dando ênfase à interpretação visceral de Pryce e sua contraposição encarnada por Jessie Buckley, Lorna Bow, cujas nuances de exaltação ficam ofuscadas por uma brusca calmaria que a fazem flutuar em cena, ao mesmo tempo que escondem seus reais motivos. O segundo se refere aos fantasmas do passado de James, que podemos encarar como sua consciência imaterial: vemos diversas vezes o rosto pálido, pincelado com nervuras escuras, de uma mulher trajando vestes bufantes. Sabemos de seu passado no continente africano, mas suas relações com entidades religiosas e sobrenaturais ainda não nos foi apresentado, cultivando uma sensação de angústia dentro do público e nos mantendo presos à tela.

Tais fantasmas não se restringem apenas à sua vida além-mar, mas também à própria família: em determinada sequência, o protagonista encontra um símbolo pagão incrustado na lareira do que outrora foi o quarto de sua falecida mãe, a qual descobrimos ter sido rechaçada pela sociedade londrina pela cor da pele e pelas escolhas religiosas. E, bom, nem ele era familiar com essa história – e talvez seus inimigos consigam utilizar esses segredos para manipulá-lo.

A última subtrama é uma narrativa epistolar que vem se desenvolvendo desde o primeiro episódio. Neste terceiro capítulo, ela sofre um aprofundamento considerável, no tocante à relação conturbada entre Delaney e sua meia-irmã, Zilpha (Oona Chaplin). Apesar de interessante – e de conseguirmos sentir a química entre ambos os atores até quando eles não estão na mesma cena -, confesso que a personagem de Chaplin foi deixada de lado. Talvez em futuros capítulos, ela alcance uma desenvoltura epifânica que agrave ou ameniza a condição daqueles com os quais mantêm uma estrita relação.

Taboo segue como uma série extremamente promissora, cuja atmosfera envolvente permite seus cinquenta e cinco minutos por capítulo passar num piscar de olhos. É interessante declarar as ramificações narrativas que partem do protagonista, e como sentimentos conflituosos são o ponto-chave para decisões precipitadas e viradas de tirar o fôlego – principalmente aqui.

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