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A guerra está declarada.

Se Taboo já estava nos deixando à flor da pele com os episódios anteriores, este retorno às raízes do próprio expressionismo alemão conseguiu atingir um nível próximo ao nirvana espiritual. O sexto e antepenúltimo episódio da série pode ser compreendido como um grande avanço narrativo e o ápice-mor das desavenças entre protagonistas e antagonistas.

Para tanto, é necessário relembrar que James Delaney (Tom Hardy), o personagem principal, perdeu certa força depois de uma onda de eventos políticos e sociais o transformarem no principal pária da sociedade londrina. Suas investidas tornaram-se cada vez mais impetuosas, definhando completamente quaisquer laços de pacificidade tanto com a Coroa britânica e a Companhia das Índias Orientais quanto com pessoas próximas – incluindo a sempre bem-vinda presença de Jessie Buckley como Lorna Bow, que apesar de ter perdido grande parte do protagonismo, ainda encanta o público com cenas pontuais.

Mas agora, tudo se mostra mais perigoso – e com um desfecho extremamente trágico e inesperado. Ao lado de George Cholmondeley (Tom Hollander), James consegue aumentar potencialmente seu estoque de pólvora, cujo uso ainda não se mostra muito claro, mas já começa a dar indícios revolucionários. Entretanto, aliados e inimigos existem em vários lugares – e é óbvio que ninguém possui uma relação essencialmente afetiva com um dos mais bem construídos anti-heróis da televisão contemporânea. Nem mesmo Zilpha Geary (Oona Chaplin), sua meia-irmã, vê-se dentro de um círculo de livre-arbítrio para escolher como se sentir perante a ele, estando submissa na maior parte do tempo. Seu leal servo, Brace (David Hayman), também entra em atrito com ele, em uma sequência muito bem coreografada e adornada com feixes de luz retirados diretamente da estética de Fritz Lang e Guillermo del Toro.

Era de se esperar que alguém próximo a James passasse informações a seus inimigos. Mas, como deixa bem claro a identidade criada por Steven Knight e Ben Hervey neste capítulo, as reviravoltas são inúmeras; descobrimos, pois, que o velho caseiro responsável pela tutela de seu filho perdido é o real informante. Ibbotson (Christopher Fairbank), em uma epifania religiosa e extremamente moralista, entra num denso arco de culpa ao perceber que deixou “servos de Satã” pisarem em sua morada, confessando-se ao padre da igreja mais próxima. Entretanto, uma das principais vertentes narrativas de Taboo é justamente a exploração da corrupção de valores e crenças. Desse modo, o clérigo vai diretamente a seu superior – representado aqui pela presença irônica de Jonathan Pryce como o intragável e odioso Stuart Strange.

Este episódio talvez seja um dos únicos a trazer sequência de puro caos para a vida de James. Não que seu passado esteja purgado de acontecimentos sombrios e suas ações não reflitam traumas envolvendo uma família desestabilizada, mas sua personalidade inexpressiva e embebida por uma espiritualidade intrínseca costuma esconder o real semblante e permitir-lhe que analise os fatos e os acontecimentos friamente. Strange, entretanto, ao mandar um séquito faminto pela cega justiça ao “quartel-general” do protagonista, consegue por fim tocas nas feridas mais profundas, acendendo o pavio do barril de pólvora – que não podemos deixar de querer que exploda.

Apesar da narrativa arrastada ter perscrutado os primeiros episódios, é inegável discorrer sobre sua evolução. Enquanto os capítulos iniciais buscavam pela identidade – que volta e meia ia ao encontro das linhas criativas de Penny Dreadful -, a história principal movia-se a passos curtos, talvez como uma alternativa para permitir ao público mergulhar de cabeça numa fatia social não tão bem conhecida por todos. Agora, é ainda mais perceptível que Taboo tem noção de sua finitude, mas sem deixar que os arcos se resolvam pelo acaso – “a pressa é inimiga da perfeição” nunca se encaixou tão bem a um produto audiovisual quanto aqui.

O grande diferencial de Episode #1.06 é, sem sombra dúvida, sua pontualidade. Além dos três atos principais serem bem divididos, a história passa por nuances que alcançam ápices bem estruturados e colocados. O primeiro deles abrange uma coerência espacial generalizada, que perscruta seus quase sessenta minutos: mais do que nunca, a cidade de Londres transforma-se em um cenário metamórfico cuja plasticidade invejável se desenvolve com a presença onírica de uma névoa esbranquiçada. A visão leitosa é transportada para além da tela e tem uma função sinestésica incomensurável para a compreensão do que está por vir.

O segundo ápice pode ser entendido como a profundeza da loucura humana. Em Penny Dreadful, como já citado em outros textos, as sequências de possessão de Vanessa Ives (Eva Green) são essencialmente sobrenaturais e cruas, e a transformação da personagem em um corpo movido pelo impulso é gradativo e visceral. Em Taboo, o principal arco de insanidade é de Zilpha. É notável as referências à série de John Logan, mas sua diferença vem com as estruturas da narrativa: aqui, o exorcismo forçado pelo qual a personagem de Chaplin passa ativa um gatilho subconsciente que a torna totalmente submissa aos instintos primitivos de sobrevivência – ou seja, uma força incontrolável que a leva a assassinar o próprio marido, Thorne (Jefferson Hall).

O último momento de puro êxtase construtivista é a repetição da seguinte sequência durante os momentos de confronto psicológico entre James e seus demônios internos: sua mãe, representada pela figura mística e endeusada que habita o lado, tentando afogá-lo. À medida em que a narrativa prossegue, revelações sobre seu passado são feitas – incluindo a tentativa de homicídio pela qual ele passou quando criança – e traços de seu comportamento são endossados ou refutados.

É triste saber que uma série tão complexa quanto Taboo esteja chegando ao fim. Mas é compreensível que uma história como esta tenha que ter um fim conciso, para não cair nos “irresistíveis” clichês. O que podemos fazer é aguardar os últimos dois capítulos – e tentar prever como a odisseia de James Delaney irá acabar.

Taboo – 1×06: Chapter #1.06 (Idem, 2017, Reino Unido)

Criado por: Tom Hardy, Edward Hardy, Steven Knight
Direção: Anders Engström
Roteiro: Steven Knight, Ben Hervey

Elenco: Tom Hardy, Oona Chaplin, Michal Kelly, Jessie Buckley, Franka Potente, Mark Gatiss, Stephen Graham, Jefferson Hall, David Hayman, Jonathan Pryce
Gênero: Drama, Suspense, Fantasia
Duração: 60 min.

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