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A Inteligência Artificial – e os riscos que ela apresenta – não é novidade em Hollywood. De O Exterminador do Futuro a Matrix, o tema já foi abordado das mais variadas formas e quase sempre culmina na rebelião da I.A. Dito isso, são raras as vezes que a liberdade e até o aprendizado dessas ‘máquinas’ são retratadas em tela. Tau, novo filme original da Netflix, faz exatamente isso, através de uma roupagem de terror/ thriller psicológico, ainda que não explore plenamente o terreno no qual decidiu se passar.

Essa primeira empreitada de Federico D’Alessandro, conhecido pelos seus trabalhos como storyboarder e supervisor de animação em filmes da Marvel, na direção começa em um lugar bastante comum, chegando a parecer com a introdução de um filme da franquia Jogos Mortais.

Julia (Maika Monroe), que sobrevive da venda de objetos furtados e vive em um pequeno apartamento em uma área nada convidativa de sua cidade, é sequestrada e acorda, amordaçada, em uma instalação científica, junto de mais duas pessoas. Não demora muito para ela descobrir que a fuga dali é impossível, já que o local, na verdade a mansão de seu sequestrador, Alex (Ed Skrein), é vigiada por uma Inteligência Artificial avançada, que controla cada aspecto da casa, além de um robô ameaçador, que certamente é capaz de matar qualquer um ali. A partir daí, Julia deve arranjar uma forma de escapar, enquanto que Alex a obriga a fazer testes de lógica (não são jogos mortais, e sim como aqueles de entrevistas de emprego) para colher dados a fim de aperfeiçoar sua mais nova I.A., que deve ficar pronta antes do deadline em poucos dias.

É perceptível a súbita mudança de tom pela qual Tau passa logo em seu terço inicial. O terror se transforma em um thriller mais focado na tensão do que efetivamente no medo do espectador. O foco na situação miserável da protagonista, que, aos poucos, vai reconquistando alguns direitos básicos (tomar banho, roupas novas, etc), vai embora, substituído pela crescente relação entre ela e Tau (com voz de Gary Oldman), a I.A. responsável pela casa.

Obviamente inspirada em HAL 9000 de 2001: Uma Odisseia no Espaço, a figura de Tau é desconstruída ao longo da projeção. Inicialmente temos uma espécie de Big Brother, minando qualquer chance de Julia escapar de seu confinamento. Com o passar do tempo, no entanto, passamos a perceber o personagem quase como uma criança curiosa, sedenta pelo conhecimento que dela foi escondido pelo seu criador. A I.A. e Julia basicamente se tornam amigos em uma relação que chega a ser palpável, tanto pelo bom trabalho de dublagem de Oldman, quanto pela própria atuação de Monroe, sempre convincente.

Infelizmente, todo o desenvolvimento da Inteligência Artificial acaba sendo prejudicado pela irritante necessidade do roteiro de sempre nos lembrar o perigo no qual a protagonista se encontra. Caso essa tensão fosse trazida à tona mais pontualmente, teríamos um filme consideravelmente mais engajante, que permitiria um real aprofundamento na questão do aprendizado de Tau, algo que vemos tão pouco em filmes por aí (geralmente esse aprendizado ocorre instantaneamente, visto que a I.A. costuma estar conectada à Internet, o que não é o caso aqui).

Seguindo na mesma linha, o vilão, vivido por Ed Skrein, permanece raso do início ao fim. Suas motivações são expostas ao longo da narrativa, mas nenhuma delas consegue nos convencer de que ele sequestraria alguém e mataria inúmeras pessoas para conseguir finalizar sua I.A. Além disso, o personagem comete alguns erros estúpidos ao longo da trama, o que certamente não se encaixa com o que foi informado sobre ele. A própria necessidade de fazer esses experimentos não soa plausível, mesmo sabendo que tal experimentação sempre gera a morte das cobaias. Faltou uma simples informação dizendo que ele já tentou outras formas, legais, antes, mas que não deram certo. Isso tudo acaba fragilizando a narrativa consideravelmente, comprometendo nossa imersão.

Felizmente, em termos visuais, Tau não deixa a desejar. Ainda que o CGI empregado no robô assassino seja perceptível, ele não chega a incomodar, visto que aparece pouco ao longo do filme. A Inteligência Artificial que cuida da casa é  representada de maneira simples, porém eficaz, como dito antes, com nítida inspiração tirada de HAL 9000. Seus movimentos na tela e a parte circular dentro do triângulo (que garante o título da forma de vida e do filme, claro) fazem, de fato, parecer como se esse fosse o seu olho, humanizando essa I.A., mas não de forma ameaçadora como em 2001 – muito pelo contrário, o esquema de cores utilizado tira esse tom de ameaça e não por acaso o vermelho é usado no visor do já citado “robô assassino”, que é percebido como um elemento externo ao Tau de Gary Oldman.

Chega a ser triste, portanto, que isso seja sabotado pelo desfecho nada inspirado do filme, que basicamente descarta a progressão da I.A. até aqui, simplesmente para gerar uma atmosfera de tensão barata, com direito a botões de auto-destruição. É um banho de água fria para todos que esperavam, como eu, que a Inteligência Artificial se tornasse livre de verdade, ou algo assim. No fim, o roteiro de Noga Landau morreu na praia e não soube dosar o thriller com a ficção científica, chegando a incluir um grau maior de violência que certamente não combina com o restante do filme (o mesmo pode ser dito para algumas cenas no início).

Dito isso, Tau contava com uma ótima premissa e soube executá-la muito bem em boa parte de sua curta duração. Ainda assim, o desenvolvimento do vilão e a falta de foco do roteiro, que não sabe se irá abraçar a ficção científica por completo ou não, mina as chances desse filme realmente ser um diferencial dentro de seu gênero. No fim, temos só mais um thriller que diverte, mas que, certamente, poderia ter sido muito mais que isso.

Tau (idem – EUA, 2018)

Direção: Federico D’Alessandro
Roteiro: Noga Landau
Elenco: Maika Monroe, Ed Skrein, Gary Oldman, Fiston Barek, Ivana Zivkovic
Duração: 97 min.

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