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Quando Peter Weir se aventura em gêneros já muito bem estabelecidos, geralmente existem certas peculiaridades que tornam a experiência dos seus filmes realmente única e de difícil replicação.

Mesmo tão enraizado na indústria, Weir se mostrava um cineasta que pensa fora dos padrões procurando histórias que trouxessem retratos profundamente humanos, além de aliar a algum exotismo para capturar o interesse do espectador imediatamente.

A Testemunha se trata de mais uma obra sobre crime urbano, mas que consegue se livrar de quase todas as amarras do gênero. Trazendo a primeira ótima colaboração com Harrison Ford, Weir finalizou um clássico que tirou um pouco do marasmo dos filmes de estúdio dos anos 1980.

Olhar Indiscreto

É sempre muito curioso como nos seus filmes, Weir opta por uma abordagem inicial um tanto misteriosamente para seus roteiros. O começo de A Testemunha é falado em alemão, com diversas pessoas esquisitas vestindo vestes antiquadas, reunidas para um velório em uma casa antiga. Basicamente, é fácil e errôneo deduzir que Weir pretende trazer uma história de época. Logo, uma mãe e um pequeno filho viajam de carroça para logo adentrarem na contemporaneidade com todo o ruído, sujeira, tecnologia e poluição.

Em uma breve pausa em uma estação de trem, o garoto Samuel vai ao banheiro. O que era para ser uma atividade banal acaba transformando a vida do garoto quando ele testemunha o assassinato de um policial a paisana. Conseguindo fugir dos assassinos, Samuel se torna uma peça chave para a investigação de John Book, um obstinado detetive que fará de tudo para resolver o caso. O único problema é que suas descobertas revelarão um esquema endêmico de corrupção no departamento que trabalha, o forçando a buscar retiro com os Amish em seu pequeno paraíso escondido.

Apesar dessa aura de mistério, há uma magia nas interpretações dos personagens principais que fisgam nosso interesse logo de cara. Mesmo funcionando como um clássico arquétipo de detetive durão, vemos Book como um personagem muito carismático e inteligente, apesar de cometer erros que jogam sua segurança e a das testemunhas em completo risco.

Esse amadorismo consegue destruir bastante a pose de macho alfa tão bem construída por Ford. Logo temos uma ótima desconstrução da figura do herói. Tudo cresce ainda mais quando a jornada finalmente retorna para a comunidade Amish revelando mais detalhes sobre Rachel, uma personagem surpreendentemente bem construída que se revela muito mais do que um objeto de funções predeterminadas em uma comunidade claramente patriarcal e cruel contra quem foge das regras dogmáticas.

Apesar de não se tratar de uma jornada sobre autodescobrimento para Book, o choque cultural na comunidade Amish é muito bem aproveitado, explorando o que há de bom na vida no campo quanto as mazelas escondidas de uma comunidade retrógrada no tratamento humano em diversos sentidos. Ou seja, Weir é bastante esperto em não pender para lado nenhum, evitando romantizar a sociedade, mas também trazendo um nível de corrupção intolerável para os ambientes urbanos que exploram a excentricidade dos Amish, além da impregnação da violência que destrói diversas vidas.

Obviamente que em pouco tempo, muito através do não dito, mas o sugerido, temos a aproximação romântica entre Rachel e Book. Um clássico caso de amor proibido, mas poderoso que nunca poderá ser consumador diante das consequências opressivas dos Amish.

Porém, ainda que traga uma história tão cativante e divertida, os roteiristas falham em momentos muito notórios. Samuel, o garoto testemunha, é basicamente esquecido depois de exibir claro potencial sobre seu modo ver a violência urbana tentando provar a seu avô que o pacifismo sempre estará rendido a maldade de outros homens.

O comparsa de Book também sofre uma morte fora da tela, além dos vilões, depois de explicado o motivo da motivação, sofrerem desfechos decepcionantes. A decepção claramente se refere na reviravolta final, na qual o mandante do crime simplesmente desiste de tudo, sendo que estava claramente com a vantagem sobre Book. Já os duelos de Book contra os outros dois assassinos são bastante criativos em oferecer soluções centradas na realidade rural e na situação despreparada de Book.

Mesmo com esses tropeços, é muito interessante essa abordagem que subverte as estruturas convencionais de filmes policiais, rendendo um drama muito interessante e de conclusão bastante corajosa.

A Vivacidade de um Olhar

Assistindo a tantos filmes de Peter Weir, é bastante nítida sua íntima relação com a importância do olhar. Não digo sobre a questão banal que tantos filmes apresentam para dar continuidade à qualquer história, mas sim o impacto que os acontecimentos observados trazem aos personagens. Não à toa que esse fascínio de Weir pela relação do observador com o observado renderia uma de suas obras-primas: O Show de Truman.

A Testemunha é o maior exercício autoral sobre essa relação tão especial do olhar, tanto que só temos uma história por conta de Samuel ter observado o assassinato do policial no começo do filme. É algo bastante explícito até pela altura da câmera que Weir utiliza em quase todo o primeiro ato, a mantendo no nível dos olhos do pequeno personagem, apresentando um ponto de vista pouco convencional para narrativas adultas.

Momentos-chave da obra são resolvidos apenas no silêncio, apostando ferrenhamente na força do olhar dos personagens. Toda a tensão sexual que floresce entre Rachel e Book é baseada através do magnetismo da dança de olhares tímidos ou de outros vorazes repletos de paixão e felicidade. Em uma das cenas mais belas da obra, Book espia Rachel enquanto ela se banha. Notando que é observada, Rachel se revela inteiramente para o protagonista, esperando que essa ardente paixão finalmente seja consumada. Porém, sabendo das consequências para a bela mulher, Book abandona o olhar mesmerizado para dar origem ao um covarde, se afastando na escuridão.

Também é bastante interessante que a jornada seja iniciada pela morte e depois motivada por outra morte. Desse modo, Rachel é afetada por uma morte que tira – no caso, o marido, mas que também traz a chegada de um amor possivelmente muito mais forte e verdadeiro.

Weir consegue criar boas atmosferas sem forçar demais a encenação, apostando sempre em uma abordagem realista e íntima para o pseudo casal em cenas românticas. Weir confere boa dose visual para as os campos verdes e tranquilos do território Amish, em contraste completo aos tons mortos, escuros e acinzentados da cidade. Há muita paixão nessa concepção visual poderosa e bastante marcante, também trazida com mais uma colaboração com o mestre fotógrafo John Seale.

Mesmo já com bastante idade, A Testemunha carrega uma boa dose de ritmo e de visual elegante, sem apostar nas firulas da época. Talvez, o único elemento que realmente mostre a idade, seja a trilha musical original. Mesmo que funcione em diversas cenas, a abordagem com sintetizadores para as mais agitadas é um tanto exagerada, tirando um pouco o brilho da experiência de assistir ao filme.

O Segredo dos seus Olhos

Trazendo uma das performances mais interessantes de Harrison Ford, além de uma história divertida que apresenta o básico de uma cultura tão peculiar quanto a dos Amish, Peter Weir realiza mais uma obra memorável em seu vasto currículo de filmes interessantes. A Testemunha é um belíssimo pacote completo esperando para ser devorado com os olhos aguardando para surpreender a cada boa oportunidade de trair os piores vícios de gênero.

Com essa abordagem original se valendo de um conflito clichê, o filme ganhou uma identidade tão preciosa que certamente já o lança como um dos melhores thrillers policiais dos anos 1980. Com tantos atrativos, é uma obrigação testemunhar esse pequeno clássico.

A Testemunha (Witness, EUA – 1985)

Direção: Peter Weir
Roteiro: William Kelley, Pamela Wallace, Earl W. Wallace
Elenco: Harrison Ford, Kelly McGillis, Josef Sommer, Lukas Haas, Jan Rubes, Danny Glover, Brent Jennings
Gênero: Crime, Drama, Romance, Policial
Duração: 112 minutos.

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