» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Para entender a grandiloquência da segunda temporada de American Crime Story, é preciso entender que, diferente da iteração anterior, não temos muitos documentos ou relatos de figuras reais que tenham participado dos eventos em questão – afinal, ao contrário de O.J. Simpson e Marcia Clark, Gianni Versace foi assassinado e Andrew Cunanan cometeu suicídio poucos dias depois de sua “obra-prima”. O único relato que podemos realmente levar em consideração são os escritos feitos por Maureen Orth em sua obra semibiográfica intitulada Vulgar Favors, cujas páginas dissertam acerca do homicídio do século através de visões secundárias, como a família do famoso estilista, da polícia (que se mostrou inapta a pegar o responsável pelo crime) e até mesmo de jornalistas e afins. E é justamente esse afastamento de algo mais documental e sua transição para uma perspectiva lógica e aterrorizante que transforma essa iteração em algo extremamente aplaudível.

The Assassination of Gianni Versace vem seguindo uma gradativa evolução em termos técnicos, narrativos e estéticos. Se o primeiro capítulo permitiu utilizar-se dos maneirismos clássicos de Ryan Murphy – até mesmo seus enquadramentos distorcidos -, esse novo episódio, encabeçado por uma de suas colaboradoras, Gwyneth Horder-Payton, faz inúmeras referências para clássicos do cinema e que conversam perfeitamente com o tom desse novo núcleo que nos é apresentado. A sequência inicial, típica das produções do showrunner, é arquitetada sob uma atmosfera de tensão que é reafirmada a cada corte e a cada plano muito bem executados; a necessidade de diálogos excessivos é descartada, para que todo o potencial catártico resida nas expressões das personagens e na ação e consequência de fatos. Até mesmo a afeição pela explicitação imagética é deixada de lado pela sutileza e pelo foreshadowing, reafirmada também pela incrível interpretação de Judith Light como Marilyn Miglin, empreendedora com aguçado senso para negócios que se torna o foco da história – ao menos aqui.

Isso também nos leva a pensar em outra coisa: se você esperava que o novo de ACS focaria apenas na história e no legado da Casa Versace, se enganou profundamente; afinal, Andrew Cunanan (encarnado pelo envolvente Darren Criss) não teve apenas uma vítimas, mas cinco, configurando-se como uma das mentes mais perigosas procuradas pelo FBI no final dos anos 1990. O serial killer, além de um mentiroso compulsório – fator que contribuiu muito para a encenação de certas sequências dramáticas -, emergia como um sociopata completo, incapacitado de diferenciar o bem do mal e utilizando-se do sexo como arma de dominação. Não é à toa que A Random Killing premedite até mesmo pelo título (Um Assassinato Qualquer, em tradução livre) a entrada de uma das diversas vítimas de seu constante comportamento predatório – nesse caso, do ex-magnata Lee Miglin (Mike Farrell).

Apesar de uma fachada um tanto quanto amorosa entre ele e sua esposa, Lee nunca se sentiu vivo o suficiente ao lado de Marilyn, visto que suas tendências submissas também conversavam com sua orientação sexual, ainda motivo de tabu dentro da sociedade estadunidense. Entretanto, essa luta pelo empoderamento não é o foco principal, mas sim de que modo suas frustrações o levaram primeiro a convidar Cunanan para sua casa – visando saciar seus “prazeres proibidos” – e insurgir como uma das investidas mais cruéis do assassino em série. Tom Robb Smith mais uma vez prova suas habilidades como roteirista da minissérie ao transferir uma mágoa distorcida para os monólogos travados entre esses dois personagens, sem cair na monotonia da presunção exacerbada. Até mesmo no momento em que Andrew resolve finalmente concluir a sua ideia inicial e deixá-lo à total mercê de seus desejos enfadonhos.

Ao que tudo indica, a mente do protagonista-antagonista é mais complexa do que imaginávamos. Além de querer ser reconhecido pelo mundo, de querer deixar sua marca na História, ele também possuía uma afeição pelo desmascaramento; ainda que vestisse diversas personas conforme a ocasião lhe obrigava – adotando assim uma multi-personalidade que nunca encontrava descanso ou verdade -, ele não aceitava que as pessoas mentissem para si mesmas e para as pessoas ao seu redor. Em determinado momento, poucos segundos antes de concretizar o grand finale de seu ato, ele fala como quer expor para todo o mundo “o maricas que Lee Miglin” realmente é. Não encaro essa passagem como uma repulsa, por assim dizer, mas sim para ratificar sua posição.

Horder-Payton transita de sua posição como roteirista para a cadeira de diretora e mostra que seus anos ao lado de Murphy realmente valeram a pena e foram absorvidos com a maior profundidade possível. Sabemos que as antologias criadas por sua mente controversa e assustadora sempre trouxeram referências da indústria do entretenimento – e esse feitio se repete aqui. Desde a primeira sequência, explicitada alguns parágrafos acima, até a conclusão desse mais novo arco, boa parte dos enquadramentos segue o mesmo padrão das cenas mais viscerais de Laranja Mecânica, obra-prima de Stanley Kubrick conhecida pela crueza dos eventos e por tratar de forma quase poética a violência. A composição em pintura e que preza por uma simetria angustiante, bem como a transparência entre dois cenários diferentes e até mesmo o uso do slow-motion são opções adotadas para este novo episódio, que ajudam a traduzir em imagens toda a ambiência em questão, sem o uso de falas ambíguas e saturadas.

Em comparação aos capítulos anteriores, A Random Killing funciona como um filler – mas diferente de outros episódios que funcionem da mesma forma, este é muito bem-vindo por diversas razões, tanto para aumentar a complexidade de Cunanan quanto para mostrar que Versace é apenas a ponta de um iceberg de represálias, controvérsias e atos repudiáveis que tomaram conta da comunidade americana costeira no final do século passado. Esse pode ser a melhor iteração da série por enquanto; porém o caminho começou a ser trilhado efetivamente agora – e Murphy deve saber como jogar contra ou a favor dele.

The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story – 02×03: A Random Killing (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy
Direção: Gwyneth Horder-Payton
Roteiro: Tom Robb Smith, baseado no livro ‘Vulgar Favors’, de Maureen Orth
Elenco: Edgar Ramírez, Darren Criss, Ricky Martin, Penélope Cruz, Annaleigh Ashford, Jeremiah Birkett, Giovanni Cirfiera, Dascha Polanco, Jon Briddell
Emissora: FX
Gênero: Drama
Duração: 42 minutos

Comente!