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Gianni Versace foi um dos estilistas mais famosos de todos os tempos. Sua estética transgressora prezava pela silhueta e pela demarcação do corpo, indo de encontro ao classicismo da moda e aos padrões instituídos há décadas por nomes como Dior e Chanel. Não é nenhuma surpresa, pois, que seu assassinato em abril de 1997 chocou o mundo: afinal, ele possuía uma das Casas mais proeminentes dentro do mundo fashion, estendendo seu império desde as humildes fazendas da Calábria até a ostentação dourada de Miami, cidade na qual foi morto pelas mãos do serial killer Andrew Cunanan. O mistério acerca dos motivos que levaram Cunanan a realizar tais atrocidades sempre permeou o imaginário das pessoas, até cair nas mãos de Ryan Murphy – uma das mentes mais distorcidas da televisão contemporânea.

Criador da antologia de horror e suspense American Horror Story, o showrunner decidiu investir seus esforços em obras um tanto quanto mais palpáveis, baseando-se em histórias reais para trazer uma perspectiva única e muito mais subjetiva. Intitulada American Crime Story, essa narrativa visava a humanização de nomes endossados na cultura pop mundial, iniciando-se com a polêmica ao redor do ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson. E agora, voltamos para os últimos anos do século XX para mergulhar mais uma vez nos caóticos meses que se seguiram após o homicídio de Versace em uma temporada que tem tudo para emergir como uma das melhores do novo panteão.

No primeiro episódio do segundo ano, Edgar Ramírez encarna com uma sutileza quase onírica o protagonista da trama. A primeira construção já nos coloca dentro de sua mansão, arquitetada sobre a fluidez de um plano-sequência que desliza pelos imponentes corredores e permitindo que o público já tenha certa noção do que o aguarda nos próximos capítulos. Em contrapartida à grandiloquência de sua marca, temos a humildade bucólica e irreverente de Cunanan (Darren Criss, em uma rendição espetacular), o qual permanece desde os momentos iniciais dentro de uma crítica bolha existencial que o leva a pensar em cada passo de suas “missões”, por assim dizer. Esse paradoxo entre as duas figuras é um dos principais motivos que leva o incidente incitante dessa temporada a outro patamar, preferindo muito mais lançar-se a explicações anteriores do que manter-se preso à caça do assassino e aos convencionalismos desse tipo de história.

Diferentemente de The People v. O.J. Simpson, o público não está confinado à claustrofobia de um tribunal, mas sim a um cosmos que preza pelo brilho, pela riqueza e pelo esplendor. Dessa forma, o roteiro assinado por Tom Rob Smith afasta-se de uma cronologia conhecida para criar uma amálgama de pequenos fragmentos que retornam ao início da década de 1990, mais precisamente para o primeiro encontro entre Versace e Cunanan em uma boate gay, a partir do qual seu relacionamento desconhecido foi forjado e pautado em uma rede de mentiras e de intrigas. Precisamos entender que a marcante personalidade entre esses dois nomes é a força-motriz do arco maior: o estilista nunca se preocupou em esconder quem realmente era – um gênio, um artista, um transgressor -, e sempre falou abertamente sobre inúmeros temas considerados, à época, um tabu para a sociedade; por outro lado, o complicado jovem aspirante à celebridade preferiu muito mais vestir suas inúmeras máscaras conforme requisitado, como forma de mesclar-se aos diversos círculos sociais que frequentava e buscar aceitação, por mais que ela nunca tenha vindo de fato.

Há um breve momento, logo após a apresentação de ópera à qual Cunanan foi convidado a assistir, em que ele está no palco e emerge das sombras para ser vestido por uma forte luz branca. Através da construção imagética e dos elementos cênicos, é possível entender que, nesse momento, o personagem entende que está destinado a grandes coisas – ainda que isso culmine em uma série de assassinatos para forjar seu nome em uma crescente sociedade emergente e estrelata. Nos momentos finais do segundo ato, ele realiza a mesma coreografia, mas agora embebido pela tensão de uma luz vermelha e difusa que dialoga com o “nobre sangue” que derramou às calçadas de Miami Beach.

Entretanto, a história não tem apenas esse enfoque, mas traz também relatos de nomes que normalmente são colocados em segundo plano. Um deles parte do namorado e professor de tênis de Versace, Antonio D’Amico (Ricky Martin) que inclusive foi um dos primeiros a encontrá-lo morto nas escadarias da mansão. A performance de Martin é, por falta de outro adjetivo, surpreendentemente envolvente, principalmente por não voltar-se a um melodrama completo, mas fincando-se a uma expressão mais naturalista e contida – com certos momentos de horror que contrastam com suas vestimentas pinceladas pelo sangue do estilista. Outro relato essencial para a compreensão da magnitude dos acontecimentos é da irmã de Gianni, Donatella Versace. Apesar do pouco tempo de cena, sua primeira aparição é memorável, principalmente pelos aspectos técnicos e artísticos: ela está com elegantes trajes pretos e desce com uma calmaria angustiante do jatinho privado, até finalmente entrar na limusine e chegar à cena do crime.

Penélope Cruz não apenas consegue capturar a essência da irrefreável personalidade de Donatella, mas transpassa uma segurança aplaudível, utilizando de seu sotaque ibérico para adornar cada um dos viscerais diálogos com os trejeitos da magnata da moda – tanto que se torna um trabalho fácil traçar paralelos entre a personagem da série e a real inspiração. De qualquer modo, seu reconhecimento é instantâneo e, como se não bastasse, ela e D’Amico sempre tiveram seus conflitos internos, ainda que silenciados, que ganham voz após a morte do único laço que os unia como “família”, querendo ou não.

Se na iteração anterior da antologia Murphy não conseguiu abrir mão de seus maneirismos e causou certo estranhamento – visto que se tratava de um ambiente mais fechado -, o diretor aflora consideravelmente dentro de The Assassination of Gianni Versace com sua identidade própria. Os ângulos tortos, os enquadramentos em plongée e contra-plongée e até mesmo o zoom aliado à simetria excessiva casam com o tom da temporada; afinal, estamos imersos dentro de um mundo marcado pela efemeridade, pela constante evolução e troca de idealismos iconográficos. Logo, prezar pela simplicidade e pela fluidez é definitivamente a escolha certa para a caracterização da atmosfera que permeia figuras tão icônicas quanto essas. E como se não bastasse, a fotografia opta por um filtro mais rosáceo, entrando em concordância com a paleta de cores essencialmente quente (como o salmão, o vermelho, o amarelo e o laranja) para exprimir uma necessidade de individualismo exacerbado.

Essa saturação também abre margem para que o criador da série crie um dos momentos mais impactantes do episódio – e por que não da série: logo após o isolamento da área pela polícia de Miami, uma das fãs da Versace arranca a página de uma revista de moda, passa pelas faixas de contenção e a molha com o sangue ainda fresco do estilista que está nas escadas. Aliado a uma música essencialmente tétrica e modal, é o frame que mostra a superficialidade de tal personagem em mergulhar a folha no líquido avermelhado que ao mesmo tempo choca o espectador – pela crueza de detalhes e pelo acontecimento em si – e reafirma mais uma vez a importância de Gianni para uma geração inteira.

American Crime Story retornou com tudo: mesmo com o ritmo mais lento em seu pontapé inicial, a saga Versace/Cunana apenas começou, mas já entregou um gostinho interessante do que pode vir a se tornar uma das melhores investidas de Murphy e de seu time para o panteão televisivo contemporâneo.

The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story – 02×01: The Man Who Would Vogue (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy
Direção: Ryan Murphy
Roteiro: Tom Robb Smith, baseado no livro ‘Vulgar Favors’, de Maureen Orth
Elenco: Edgar Ramírez, Darren Criss, Ricky Martin, Penélope Cruz, Sebestien Soliz, Giovanni Cirfiera, Dascha Polanco, José Zúñiga
Emissora: FX
Gênero: Drama
Duração: 52 minutos

Confira AQUI o guia de episódios da temporada.

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