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Andrew Cunanan tornou-se um dos nomes mais conhecidos do final do século passado por ter sido responsável pela morte do estilista Gianni Versace, cujos império e contribuição para o mundo da moda são inegáveis e mantidos como alta-costura até os dias de hoje, principalmente pela manutenção de sua visão transgressora pela irmã Donatella Versace. Examinar os eventos que antecederam e sucederam sua prematura morte é uma tarefa difícil, mas não impossível quando temos por trás do grande time criativo a complexa mente de Ryan Murphy trabalhando 24 horas por dia para se entregar ao melhor do storytelling – mas o que acontece quando o rumo da narrativa se perde e atinge outro lugar?

É justamente isso o que vem acontecendo com a nova temporada de American Crime Story nas últimas duas semanas. Em A Random Killing, terceira iteração deste ano, o episódio filler já havia sido premeditado até mesmo com o título e funcionado de forma perfeita para compreendermos mais uma investida subjetiva acerca do serial killer, cujo conhecimento nunca foi endossado visto que ele se matou poucos dias depois de sua “obra-prima” sanguinária. Nesta semana, nos confrontamos com o mesmo ritmo de trama, com mais um preenchimento de lacunas intitulado House by the Lake.

Seguindo os mesmos passos do capítulo anterior, o foco aqui afasta-se de Gianni e reside sobre Andrew (Darren Criss) mais uma vez. Agora, brincando novamente com a ideia de cronologia – que nunca foi respeitada pelos artifícios antológicos de Murphy e sua macabra trupe -, retornamos para uma semana antes do assassinato de Lee Miglin (Mike Farrell), no qual o anti-herói visita um antigo amigo em seu luxuoso apartamento, o arquiteto David Madson (Cody Fern). Através de uma trama que nos relembra vagamente de Fragmentado (2017), levando em conta sua estética mais intimista e claustrofóbica, Cunanan decide mostrar mais uma vez o seu poder de convencimento e sua total anarquia perante as concepções do bem e do mal para conseguir o que deseja: amor. É claro que essa necessidade por atenção e por alguém que acredite em seu potencial é fruto de psicopatias carregadas consigo desde sua quase aceitação, mas a ideia de tentar explicá-las é um movimento perigoso e ousado e que, até agora, funcionou muito bem.

Andrew mantém David preso em seu próprio lar após matar o “amor de sua vida”, Jeff (Finn Wittrock) com inúmeras marteladas, deixando seu rosto desfigurado. Aqui, o diretor Daniel Minahan sabe muito bem como manejar a câmera ao optar mostrar a reações de David, negando a explicitação extrema e utilizando-se apenas de um foreshadowing muito bem colocado para garantir a tensão e a morbidez da sequência. Minahan nem mesmo se preocupa ao mostrar o rosto completamente destruído da vítima, escolhendo, ao invés disso, um plano detalhe para mostrar a arma do crime – e assim como todos as obras audiovisuais do gênero, essa escolha funciona e muito bem.

Obviamente nada disso seria possível sem a química entre os dois personagens protagonistas, que perpassa por todas as delineações da personalidade humana até que, mais uma vez, o ciclo se feche. Fern especificamente faz um ótimo trabalho ao desvencilhar-se do melodrama dos thrillers de assassinato, permitindo que sua encarnação preze pelo choque e pela inexpressão catatônica perante os eventos que se sucederam, preparando terreno com sutis gestos de repulsa até se deixar levar completamente pela catarse, de forma fluida. Criss mantém um incrível trabalho como o antagonista ao brincar com o paradoxo de sentimentos dentro de cada uma das cenas – por exemplo, ao dizer que tudo vai ficar bem quando acabou de assassinar uma pessoa inocente.

Entretanto, nada mais acontece após a chegada do segundo ato, ou seja, caímos na monotonia dramática dos mesmos filmes que tentam buscar algum ponto de luminosidade em meio a tanta pretensão narrativa. Os dois permanecem trancafiados dentro do apartamento, com David tentando realizar algumas tentativas falhas de chamar a polícia ou fugir do apartamento, mas sendo impedido pela mente calculista de Andrew. Não há nem mesmo uma sequência sequer em que o telespectador se sinta angustiado ou mortificado, seja por possíveis jogos psicológicos ou até mesmo por tortura física.

Nem mesmo a estética permanece a mesma: em diversos momentos, Minahan retorna para seu trabalho com Murphy em American Horror Story, buscando referências construtivas que se afastam de um estilo documental-ficcional e que prezem pelos maneirismos excessivos vistos em Murder House, por exemplo, ou até mesmo na configuração found footage de Roanokeas quais funcionaram em suas devidas perspectivas por se tratarem de narrativas sobrenaturais e fantasiosas. Aqui, estamos tratando de eventos reais, recriados sim de forma irreverente para humanizar os seus personagens e que, como forma até verossímil, deveriam se manter em uma zona não tão ousada e mais sólida para a conexão entre trama e público.

Apenas o ato final retorna para alguns momentos de glória, através de diálogos bem estruturados e um arco de redenção distorcida para os personagens. David encontra sua ruína de uma forma ambígua e inesperada, cujo escopo permite tanto ao roteirista Tom Robb Smith quanto a Minahan ousarem mais uma vez com a subjetividade, primeiramente nos colocando dentro de uma visualização otimista em que o arquiteto consegue se salvar, e depois nos arrastando para a bruta realidade com cenas em slow-motion que retratam sua resolução passiva e previsível.

A continuação de American Crime Story não funciona em sua totalidade. Talvez Murphy tenha se esquecido quem também é o foco dessa narrativa cheia de potencial – Gianni Versace, que inclusive empresta seu nome ao título – e tenha caído em algo inesperado e que não faz sentido, por assim dizer. Confesso que essa brusca queda tenha assustado, e só podemos esperar que a temporada saia de seu limbo.

The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story – 02×04: House by the Lake (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy
Direção: Daniel Minahan
Roteiro: Tom Robb Smith, baseado no livro ‘Vulgar Favors’, de Maureen Orth
Elenco: Edgar Ramírez, Darren Criss, Ricky Martin, Penélope Cruz, Annaleigh Ashford, Jeremiah Birkett, Giovanni Cirfiera, Dascha Polanco, Jon Briddell, Cody Fern, Finn Wittrock
Emissora: FX
Gênero: Drama
Duração: 55 minutos

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