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Após o fiasco episódico da semana passada, não podemos negar que American Crime Story perdeu um pouco de sua credibilidade. Afinal, se levarmos o título dessa segunda iteração a sério, teríamos que ter como foco o assassinato de um dos estilistas mais famosas e mais controversos da História da moda, o excêntrico Gianni Versace, morto pelas mãos do serial killer Andrew Cunanan. Entretanto, conforme a narrativa se desenrola, através de saltos temporais que orquestram uma amálgama mais concisa acerca dos eventos principais, parece que Ryan Murphy está se esquecendo do real protagonista dessa epopeia e focando apenas na mente conturbada do jovem homicida – e como se não bastasse, enfrentamos aqui o terceiro filler para a temporada.

Porém, diferente dos outros dois capítulos, esse aqui ainda se preocupa em traçar algumas relações ainda que caia em uma monotonia já aguardada, principalmente por trazer personagens já conhecidos e explorando suas storylines ao invés de nos aproximar do personagem-título. Don’t Ask, Don’t Tell talvez seja a composição mais crítica de toda a temporada, e esperamos que essa acidez perdure até o season finale; afinal, conforme Murphy declarou nas pré-produções de Versace, as tramas não se restringiriam apenas às relações pessoais entre os protagonistas, mas teria como base a indústria criativa e o preconceito e a homofobia existente nas últimas décadas do século XX. E é justamente isso que Tom Robb Smith, assinando mais uma vez o roteiro, decide explorar.

A trama paralela, ainda que não dosada de modo equilibrado, é um dos principais avanços para o escopo da série, principalmente ao unir essas linhas narrativas por um tema único e que, ao mesmo tempo, não convirja em sua completude. De um lado, temos o constante embate entre Gianni (Edgar Ramírez) e sua irmã Donatella (Penélope Cruz) acerca da divulgação da vida pessoal do estilista em detrimento de uma possível ruína para a Casa Versace. Ainda que esse cru diálogo tenha pouco tempo de cena, já temos o suficiente para nos relembrar das incríveis performances desse duo e mergulharmos em um cosmos mais complicado do que parece: até que ponto a realização pessoal começa a se tornar um motivo para usar máscaras e mais máscaras como forma de preservar uma reputação? É nisso que as sequências focam, demonstrando que Gianni deve sim se abrir para ser verdadeiro com seu público, enquanto Donatella repudia tal decisão como forma de proteger a companhia que a família ergueu – e como se não bastasse, Robb Smith também aproveita para colocar algumas metáforas estilizadas e bem-vindas.

Por outro lado, retornamos ao escopo de Cunanan e sua crescente e patológica mentira compulsória, porém como respaldo de alguém que já apareceu na trama – o ex-oficial da Marinha Jeffrey Trail (Finn Wittrock em uma de suas melhores performances), que talvez seja a representação mais visceral do preconceito sofrido por homossexuais à época em questão. Seu arco se inicia em um passado próximo aos acontecimentos de House by the Lake, mas agora focando nesse personagem em questão. Não é surpresa que, para desenvolver tal narrativa, Daniel Minahan retorne como diretor do episódio e entregue-se mais uma vez a uma arquitetura intimista e que preza por uma claustrofobia proposital, apesar de se afastar de uma estética poética.

Minahan constrói uma crescente investida acerca desses problemas sociais envolvendo homofobia, focando em uma autoaceitação por parte de Trail perante sua vida como espectador dentro do grupo de soldados. Todos ali usam e abusam de um jovem marinheiro que é gay e que é rechaçado pelos colegas dos jeitos mais constrangedores possíveis, incluindo tortura física e psicológica. Em determinado momento, através de um foreshadowing bem delineado, entendemos que esse personagem foi coagido a listar os outros homossexuais enrustidos com os quais manteve relações sexuais para manter sua posição dentro da Marinha e ter seu “histórico sujo” descartado.

Ao mesmo tempo, não podemos deixar de levar em consideração uma sequência pontual que emerge como ápice dessa iteração. Trail acaba defendendo seu colega gay de ser espancado até a morte por um grupo de marinheiros durante a noite, levando-o até um pavilhão mais externo para tentar convencê-lo a ir a um médico, ainda que tivesse que se expor e perder o trabalho dos sonhos. E é através de um jogo de campo-contracampo que não leva mais que alguns segundos que o jovem soldado entende que seu “salvador” também sofre por não poder ser quem é, sem quaisquer falas autoexplicativas e que culmina em um frame perigoso e tocante, no qual os dois se abraçam em um triste momento empático.

Ambos os pontos de vista se unem em um mesmo momento cronológico, no qual Gianni se entrega às tentações de se abrir quanto a sua sexualidade para a revista LGBT da época e aproveitar para deixar bem claro sua relação afetiva com Antonio D’Amico (Ricky Martin), a qual permaneceu às escondidas por treze anos. Em contrapartida, Trail ainda realiza uma entrevista em vídeo que marcou história e expôs a dura verdade do exército norte-americano e como Bill Clinton foi um dos responsáveis pela política do Não Pergunte, Não Fale (que empresta o nome original ao título do episódio), cujas medidas impediam “práticas homossexuais” dentro das divisões bélicas do país.

O quinto capítulo de The Assassination of Gianni Versace felizmente emerge como um suspiro de alívio ao reintroduzir os reais protagonistas dessa trágica história, apesar de continuar caindo nos equívocos da falta de dosagem cênica para personagens que são igualmente importantes, porém são elevados para um patamar desnecessariamente endeusado. Só podemos esperar que a série retorne para os seus trilhos o mais rápido possível – afinal, queremos mais do brilho performático de Ramírez e Cruz, mesmo que Darren Criss esteja se entregando ao melhor papel de sua carreira como Cunanan.

The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story – 02×05: Don’t Ask, Don’t Tell (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy
Direção: Daniel Minahan
Roteiro: Tom Robb Smith, baseado no livro ‘Vulgar Favors’, de Maureen Orth
Elenco: Edgar Ramírez, Darren Criss, Ricky Martin, Penélope Cruz, Annaleigh Ashford, Jeremiah Birkett, Giovanni Cirfiera, Dascha Polanco, Jon Briddell, Cody Fern, Finn Wittrock
Emissora: FX
Gênero: Drama
Duração: 55 minutos

 

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