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Há alguns textos, expliquei aqui sobre a contradição existente dentro do extenso mundo da moda e sobre como tal vertente artística é muitas vezes diminuída dentro do escopo geral do entretenimento. Afinal, considera-se que essa indústria é responsável por reafirmar um “excesso desnecessário” de superficialidade e efemeridade dentro de uma sociedade já fragmentada pelo individualismo exacerbado. Entretanto, essa concepção é apenas uma análise crua e fria de uma das esferas que mais gera trabalho e renda no mundo e que é responsável por traduzir não resquícios de egolatria, mas sim o próprio contexto socioeconômico de determinada época, reafirmando até mesmo as importantes lutas sociais que ocorrem dia após dia dentro e fora das minorias – ora, se há uma coisa que não podemos negar é que a arte e, dentro dela, a moda, é uma forma de expressar descontentamento, otimismo, revolução e transgressão, e não é nenhuma surpresa que inúmeros nomes tenham entrado para a História como quebradores de paradigmas, como as casas Dior, Chanel e até mesmo a Versace.

E é exatamente sobre isso que o novo capítulo de American Crime Story fala: sobre até que ponto essa transgressão pode existir e como ela impacta em outros aspectos para a manutenção de um nome e de uma marca – e felizmente Ryan Murphy conseguiu se desvencilhar das amarras criativas das iterações anteriores para retornar a um estrelato que já estava mais que na hora de dar às caras. Logo, espere o retorno dos nossos protagonistas, cujo sobrenome é emprestado para o título da temporada, e até mesmo um aprofundamento acerca de suas conturbadas relações em um arco emocionante e digno de aplauso.

Aqui, a trama volta a se dividir em duas, mostrando de que forma as duas linhas narrativas principais dialogam entre si, ainda que em cosmos diferenciados: de um lado, temos a crescente tensão ideológica acerca de Gianni (Édgar Ramirez) e Donatella (Penélope Cruz), que após ficarem de molho durante vários episódios, retornam graciosamente para as telinhas e roubam basicamente todo o foco. É claro que ainda não vimos o suficiente para ficarmos satisfeitos, mas talvez reintroduzi-los de forma tão escancarada tenha sido um ótimo passo para recuperar o ritmo perdido da temporada. Ambos os protagonistas são postos em um tabuleiro de xadrez e lutam por uma supremacia que não deveria existir, mas que definitivamente aumenta as expectativa quanto ao futuro da Casa Versace e em que linha a produção seguirá.

Em outras palavras, enquanto Gianni rende-se a uma perspectiva mais utópica e que preza pela tradução de sua visão artística, delineando vestimentas que vão para além da compreensão materialística e mundana dos indivíduos acerca da moda, Donatella finca-se muito à realidade econômica e percebe a falta de praticidade nas roupas construídas pelo irmão. Em outras palavras, enquanto um é dotado de um senso crítico e estético inegáveis, a outra carrega consigo um apego intrínseco ao que move o mundo – o dinheiro – e como aplicá-lo de forma produtiva dentro de um ramo que, querendo ou não, é complicado e perigoso.

Gwyneth Horder-Payton retorna mais uma vez na cadeira de direção, agora em sua zona de conforto; diferente de seus trabalhos anteriores dentro dessa antologia, ela resgata os maneirismos técnicos de American Horror Story – incluindo os planos-sequências fechados, as elipses cênicas e até mesmo os plongées e contra-plongées para reafirmar a atmosfera tensa, aproveita a reencenação para brincar com a paleta de cores. O filtro róseo felizmente retorna para, ao mesmo, abrandar e expandir o conceito de haute-couture, aliado aos jogos de luz e sombra que acentuam a inexistente neutralidade de tons como o preto e o branco; além disso, essa opção semi-saturada também contribui para elevar uma das principais iconografias presentes na temporada: o brasão da família Versace.

Todo o luxo e o apreço pela constante magnificência também são transferidos para o bloco narrativo que nos traz, mais uma vez, Darren Criss no papel do serial killer Andrew Cunanan. Aqui, o roteirista Tom Robb Smith resolve voltar ainda mais no tempo, abrindo a cronologia acerca do jovem sociopata para o momento em que decidiu participar da high society a qualquer custa: isso já conversa com os diversos personagens que acompanharam seu arco, incluindo seu sugar daddy Norman Blachford (Michael Nouri) e como os dois acabaram se conhecendo. Essencialmente, a vida de Cunanan é marcado por tragédia atrás de tragédia que, sem sombra de dúvida, impactou em sua personalidade da temporalidade atual, incluindo suas tendências psicóticas e suas mentiras compulsórias, bem como um total bloqueio emocional que o torna incapaz de discernir o certo do errado.

Essa contenção é de extrema importância para a fluidez estrutural do episódio e, consequentemente, da temporada – e tais escolhas também abrem margem para Cruz insurgir como a real e versátil atriz que é. Mais uma vez, ela não precisa forçar um sotaque italiano ou valer-se de floreios excessivos para encarnar a icônica Donatella; ela faz isso apenas com um analítico e expressivo olhar que, ao mesmo tempo que discorda das medidas surreais do irmão, encontra nele uma figura na qual se espelhar (um ídolo). Todas essas construções também dão espaço para um dos momentos mais comoventes da temporada, em que Gianni percebe as consequências físicas e gradativas de sua doença e o apoio que recebe de uma irmã em prantos.

Em uma iteração tão irregular quanto esta, é emocionante ver American Crime Story reencontrar-se em meio a tantos e repetitivos erros. O sétimo capítulo é, sem dúvida, um dos melhores até agora por saber equilibrar cada uma de suas subtramas e manter um ritmo interessante e que envolva o público – coisa que não acontecia há bastante tempo. Só podemos esperar que esse retorno continue até o último episódio – e, se tudo der certo, Murphy saberá como manejar as coisas até o grand finale.

The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story – 02×07: Ascent (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy
Direção: Gwyneth Horder-Payton
Roteiro: Tom Robb Smith, baseado no livro ‘Vulgar Favors’, de Maureen Orth
Elenco: Edgar Ramírez, Darren Criss, Ricky Martin, Penélope Cruz, Annaleigh Ashford, Jeremiah Birkett, Giovanni Cirfiera, Dascha Polanco, Jon Briddell, Cody Fern, Finn Wittrock
Emissora: FX
Gênero: Drama
Duração: 55 minutos

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