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Entre as séries que compuseram a segunda era de ouro da televisão norte-americana, The Wire possuía algo que a fazia se destacar das de mais: o realismo. Antes de escrever as cinco temporadas do programa, David Simon trabalhou por 13 anos como repórter policial em um jornal, e isso acabou lhe dando não apenas um conhecimento profundo do que acontecia nas regiões mais pobres de Baltimore como também ofereceu o material necessário para que compusesse um retrato social da cidade. Percebendo que essa abordagem realista era o grande trunfo do seu trabalho, ele a retomou nos próximos projetos, inclusive na nova e promissora The Deuce.

Se passando nos anos 1970, a história gira em torno de vários personagens heterogêneos. Porém, há um aspecto compartilhado por eles: morando em uma Nova York corrompida pelo crime e pela devassidão, todos buscam se aproveitar da situação para sobreviver e enriquecer. Entre cafetões, traficante de drogas, alunos universitários, apostadores e a máfia, se destacam positivamente o barman interpretado por James Franco (ele possui um irmão gêmeo que funciona como um duplo interessante) e a prostituta encarnada por Maggie Gyllenhaal.  Embora mergulhados no ambiente ao redor, os dois tentam manter os seus respectivos corações limpos e encontrar uma maneira de evitar as perdições do meio.

Com uma recriação de época competente, The Deuce propõe ao espectador uma viagem completa ao período retratado. Aproveitando a exuberante recriação digital, o figurino e design de produção apresentam um universo que é opulento mas também degradante. Da mesma forma que é possível ver o glamour responsável por transformar a década de 1970 em um dos períodos visualmente mais fascinantes da história estadunidense, não há como fechar os olhos para a sujeira das ruas ocupadas por aqueles que estavam à margem da sociedade. Diante dos inúmeros retratos cinematográficos que temos do charme e podridão desses anos, os responsáveis se saem incrivelmente bem na tarefa.

Aliás, a noção que os departamentos técnicos e a diretora Michelle McLaren têm do papel essencial exercido pelo cinema nessa época é um dos grandes destaques deste primeiro episódio. Sempre que os personagens caminham pelas avenidas nova iorquinas há letreiros informando nomes de filmes. Além disso, existem referências claras à estética da Nova Hollywood e ao estilo de Martin Scorsese. Em relação a este último, há uma breve caracterização de um mafioso que traz à mente às composições vocais de Joe Pesci e um longo plano em que a steadicam por trás do protagonista (Franco) invoca o plano-sequência de Os Bons Companheiros.

No entanto, mais do que esteticamente, essa reconstrução visual é vital para o desenvolvimento temático da série. No imaginário atual, os anos 1970 se tornaram uma caricatura histórica e os tipos que habitavam essa época foram transformados em estereótipos – aliás, o próprio cinema contribuiu com essa impressão. Dessa maneira, a tentação de recorrer a essas facilidades criativas era forte. Inicialmente, até parece que Simon e o George Pelecanos, o co-criador, cairão nessa armadilha e entregarão os mesmos clichés aos quais estamos acostumados. Felizmente, a intenção deles é outra e isso fica claro no desenrolar do episódio.

Em um movimento ainda tímido, porém, evidente, alguns dos rótulos limitadores já começaram a ser destruídos: o protagonista é um cara bem adaptado à vida circundante (ele não se choca com as coisas que testemunha), mas tenta ser bem-sucedido com um negócio próprio; Eileen (Gyllenhaal) está trabalhando como prostituta para sustentar o filho e juntar dinheiro (a cena em que ela tira a maquiagem e peruca sintetiza perfeitamente esse jogo de ambiguidades comportamentais); e Abigail (Margarita Levieva), a típica aluna universitária da década de 1970, mostra que o seu intelectualismo talvez seja uma fachada para um jeito de agir mais sexual e atrevido.

Deste modo, The Deuce parece interessada em criar uma interessante lógica de descaracterização. Em outras palavras, dá a impressão de querer mergulhar na imagética da época para encontrar a essência de uma geração. Isso é válido tanto como análise histórica quanto como um reconhecimento das forças que se movimentaram décadas atras e geram consequências nos dias de hoje. O momento em que Eileen visita a casa na qual cresceu e vê os pôsteres de Elvis Presley Marilyn Monroe deixa isso muito claro: a lascividade dos anos 1970 – e do qual ela é uma parte integrante – só foi possível graças à forte sexualidade presente na imagem dessas figuras.

Terminando com uma cena que estabelece várias ramificações e alguns pontos de encontro entre os personagens, The Deuce é um retrato vívido, forte e melancólico sobre a perdição de uma cidade e dos seus moradores. Sobre a recepção que terá, é possível que a série enfrente um futuro similar ao de Vinyl, uma vez que são temática e esteticamente muito parecidas. No entanto, há algo separando o programa atual daquele criado por Martin Scorsese, Mick Jagger Terence Winter: a atenção de Simon está voltada aos personagens e não ao tempo-espaço no qual eles estão inseridos. Para ele, o ambiente é a máscara que vai caindo aos poucos, revelando o caráter das pessoas. Afinal de contas, é importante lembrar que obsessão do co-criador sempre foi a realidade, a mesma que rompe constantemente o véu do estereótipo e revela a verdade crua e dura.

The Deuce – 01×01: Pilot (EUA, 2017)

Criado por: David Simon e George Pelecanos
Direção: Michelle McLaren
Roteiro: David Simon e George Pelecanos
Elenco: James Franco, Maggie Gyllenhaal, Gary Carr, Margarita Levieva, Dominique Fishback, Emily Meade
Emissora: HBO
Gênero: Drama
Duração: 85 min