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Toda ação tem a sua consequência.

Essa premissa tão clichê e tão utilizada em diversas narrativas dos mais variados gêneros pode parecer vazia a priori, mas dentro de um cosmos apropriadamente criado, pode dar margens originais e com perspectivas nunca antes tratadas dentro de uma indústria conhecida pela reciclagem de fórmulas. E levando em consideração o estrondoso sucesso da primeira temporada de The Handmaid’s Tale no ano passado – o qual realmente representou um marco nas séries contemporâneas ao traduzir um clássico da literatura anglo-saxônica para os dias atuais -, é interessante perceber a maestria com a qual o time criativo se dispôs para engolfar vários desses temas-base em uma roupagem satisfatória e mórbida ao mesmo tempo.

É claro que o público e a crítica, postando-se como mediadores entre a possibilidade de uma continuação e o feedback artístico-financeiro, teve as expectativas elevadas a níveis inenarráveis. A ideia era manter, senão ultrapassar, os limites das ótimas construções cênicas e narrativas apresentadas pelo ano anterior, transformado essa minissérie em algo marcante para gerações a virem. Mesmo assim, manter-se com um pé atrás foi uma alternativa considerável para não mergulhar em uma decepção – e felizmente estávamos todos enganados quando pensamos que o showrunner Bruce Miller poderia nos decepcionar: a adaptação da fabulosa obra distópica de Margaret Atwood retornou com toda a força com uma nova gama de episódios que, já acostumados a uma ambientação opressora, podem explorar subvertentes a seu bel-prazer.

Se a multidão de aias conseguiu se rebelar perante o governo totalitário de Gilead, administrado pelo tirânico Fred Waterford (Joseph Fiennes) e sua intragável esposa, Serena Joy (Yvonne Strahovski), aqui elas sofrem com os corolários da rebeldia – rebeldia aqui que é justificada por qualquer pessoa que resolva assistir à série; afinal, é só pensarmos em tudo a que as pobres mulheres foram submetidas, incluindo perder a sua individualidade, sua expressão e até mesmo o controle sobre o próprio corpo, para responderem a uma ideologia religiosa barbárica. Em June, a season première, temos o grandioso retorno de Elisabeth Moss como Offred/June – entretanto, ao invés de mergulhar em seu alter-ego compulsório e cumprir com suas obrigações de perpetuar a espécie humana em uma decadência apocalíptica, ela se afasta gradativamente de uma condição torturante e reencontra sua voz, mesmo que essa tentativa se mostre fracassada conforme a narrativa se estende.

Ainda que perceba que não conseguiria ir muito longe e nem mobilizar as outras aias para seguirem-na em uma revolta interna e que se alastraria por toda a província, é possível notar a mudança em sua personalidade passiva até mesmo pelo título emprestado ao episódio: enquanto na temporada predecessora o piloto se intitulava Offred, aqui a escolha por trocar o nome indica um novo patamar para a protagonista, a qual provavelmente seguirá dentro dos parâmetros da jornada do herói para encontrar seu arco de redenção e salvação. Mas considerando a atmosfera em que todos se encontram, os obstáculos serão muito piores e certamente mais mortais, como forma de impedir o levante do movimento de oposição – e aqui está o primeiro twist: June está completamente sozinha. Ao menos por enquanto.

A primeira cena é ao mesmo tempo empolgante e dolorosa: todas as escravas são levadas para um estádio abandonado, dentro do qual finalmente serão entregues ao destino dos desertores. Em uma composição onírica e que faz um uso incrível dos planos abertos para reafirmar a enorme egolatria humana em contraposição à sua ínfima pequenez, temos um gramado malcuidado com tons esverdeados indo de encontro às vestimentas propositalmente vermelho-sangue das mulheres e à pseudoneutralidade dos comandantes e dos capangas da família Waterford. Aqui, o diretor Mike Barker e Miller conseguem chegar em um acordo cênico que não precisa de diálogos ou de falas excessivas: o angustiante silêncio, acompanhado a uma trilha sonora paradoxal, se expressa de modo muito mais claro, incluindo com opções de construções imagéticas que variam dos planos-sequências, perpassando pelos obrigatórios plongées e jazendo nos enquadramentos mais fechados que ressaltam a performance de cada uma das atrizes.

Esse jogo dicotômico e narrativo é resgatado da temporada anterior e é levado a um extremismo soberbo, o qual se reafirma quando entramos na iteração seguinte, intitulada Unwomen. Aqui, somos apresentados à sutil centelha de esperança que acomete a vida de June, resgatada por seu novo par romântico e pai do tão aguardado infante do Governo, Nick (Max Minghella). O duo, ao que tudo indica, será a força-motriz para a futura e esperada destituição de Gilead, mas logo se vê frente a frente com a crueldade a que a resistência foi submetida – a nossa heroína estrela uma das cenas mais impactantes de toda a cena ao estender-se ajoelhada dentro de uma piscina vazia, encarando as manchas de sangue de pessoas que conhecia. O sentimento de impotência logo a deixa cega por vingança e, quando é quase tarde demais, retorna à racionalidade que tanto prezou para sobreviver.

Em contrapartida, somos bruscamente transportados para as Colônias, na qual temos o aguardado retorno de Alexis Bledel como Ofglen/Emily/Ofsteven. Bledel mais uma vez se mostra fantástica ao manter-se dentro dessa encarnação através de sutilezas carregada pelo olhar e que são ratificadas pela mudança proposital da paleta de cores. Enquanto June era embebida pela tonalidade destoante do vermelho e do branco excessivos, Emily está em um território doentio, marcado pelo trabalho braçal escravocrata destinado àqueles que ousaram se postar contra o governo dos Waterford. Como quase todos pensavam até os momentos finais da season anterior, ela havia sido declarada morta, mas na verdade fora transportada até os campos de concentração para cumprir pena em meio a tantos outros nomes. Sua caracterização atual destoa da anterior, visto que a constante poeira e torna homóloga a todas as outras, criando uma massa amorfa e domesticada – e o uso de um filtro enjoativo e amarelado contribui para entendermos tudo isso.

June e Emily traçam caminhos paralelos – pelo menos por enquanto. A construção e a montagem contribuem para separá-las em dois microcosmos totalmente diferentes e que, se tudo der certo, irão se fundir em uma só subtrama. Não é nenhuma surpresa, pois, que as paletas de cor tão diferenciadas se mesclem conforme o segundo episódio chega a um desfecho temporário e que, surpreendentemente, fecha algumas pontas para uma nova gênese.

The Handmaid’s Tale retornou com força total. Permanecendo no ofuscante ritmo narrativo, cênico e até ideológico, a segunda temporada indica que ainda vimos muito pouco de todo o potencial da série – e felizmente, as coisas irão caminhar para uma atmosfera cada vez mais envolvente e sombria.

The Handmaid’s Tale – 02×01: June / 02×02: Unwomen (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Bruce Miller
Direção: Mike Baker
Roteiro: Bruce Miller, baseado no romance homônimo de Margaret Atwood
Elenco: Elisabeth Moss, Jordana Blake, Alexis Bledel, Madeline Brewer, Amanda Brugel, Daniel Chaudhry, Ann Dowd, Joseph Fiennes
Emissora: Hulu
Gênero: Drama, Ficção Científica
Duração: 55 minutos aprox.

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