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Chega um momento em que, não importa qual seja a jornada em questão, o herói ou a heroína deve enfrentar os valores com os quais sempre conviveu. Em outras palavras, alcançar uma transformação irreversível obrigatoriamente vem acompanhado de questionamentos psicológicos e emocionais que colocam em cheque tudo que sempre fez parte de seu cotidiano, desde as coisas mais banais até as mais profundas, por assim dizer. E é partindo de uma premissa como essa que The Handmaid’s Tale começa a distribuir as novas cartas de um perigoso jogo político-ideológico que já nos deu suas graças na temporada anterior e nos episódios predecessores de seu novo ano.

Em Baggage, como foi intitulado o novo episódio, retornamos para o claustrofóbico abrigo em que June (Elisabeth Moss), recuperando sua identidade e sua presença dentro de uma sociedade opressora, passa a esconder, matutando em uma mente flagelada por inúmeros ataques a ela mesma e às suas companheiras aias um plano para tentar resgatar ou quem sabe destituir o autoritário governo comandado por Fred Waterford (Joseph Fiennes). Obviamente o mais certo a se fazer seria fugir para algum território que não pertencesse ao domínio conhecido como Gilead, porém ela não consegue abandonar as duras raízes do passado que voltam para assombrá-la em momentos inoportunos – e aqui a série faz uma jogada muito interessante para relacionar o resiliente exterior da nossa protagonista com seu psicológico deturpado nos relembrando da pequena Hannah, filha de June arrancada brutalmente de seus braços.

Dorothy Fortenberry faz um incrível trabalho encabeçando o roteiro da adaptação, permitindo que mergulhemos ainda mais na história da heroína enquanto expande o universo criado por Margaret Atwood. Em colaboração com a diretor Kari Skogland, temos novamente o retorno para os flashbacks, dessa vez nos apresentando a uma June que, desde quando criança, participava dos comícios feminista organizados por sua mãe e colegas. É quase irônico analisar o quanto estes grupos lutavam pela visibilidade feminina em um passado não muito distante e como estes esforços foram apagados por investidas religiosas e extremistas que invalidaram quaisquer tentativas de buscar pela igualdade – e ainda que a personagem de Moss não tenha se rendido às vertentes militantes da figura materna, ela compreende a importância mesmo que tarde demais.

June tenta sobreviver dia após dia, ainda que as coisas se tornem um pouco mais difíceis quando a guarda da família Waterford aumenta seus esforços para encontrar desertores e fugitivos. Isso a obriga a afastar-se de seu par romântico, abolir suas tentativas de resgatar a filha e mudar para um local extremamente mortal que vai de encontro àquilo do que tentava fugir. Enquanto em sua epopeia, a backstory torna-se mais intensa, e o sentimento de raiva e de indiferença que se manifestava sobre a ausência e a não aceitação da mãe com sua “vida acomodada” dá lugar a uma compreensão mútua, visto que ela também teve que abdicar alguns conceitos e oportunidades de resgatar Hannah como forma de protegê-la de um possível mal.

Narrativamente, estamos agora lidando com um escopo bem mais intimista e que pouco dá seguimento ao pano de fundo geral. É claro, temos a progressão do arco de Moira (Samira Wiley) e sua mandatória evolução após sofrer nas mãos do governo Waterford – ela inclusive protagoniza cenas bastante fortes e que a colocam em um arco de autoquestionamento intenso; mas, fora isso, o foco é bem mais fechado, abrindo margem para outros aspectos que certamente falam bem mais alto nesse terceiro episódio.

Temos, por exemplo, a preocupação estética em transformar a cidade que outrora June chamava de lar em uma massa desbotada e amorfa. Ela faz o possível para se misturar aos alienados cidadãos que até mesmo se vestem da mesma maneira, mas suas feições e suas atitudes acabam por entregá-la – senão às autoridades, aos espectadores. Enquanto todo o panorama mergulha em um espectro acinzentado e amarelado, cujas cores se amalgamam em uma perspectiva quase doentia, conversando com a completa falta de esperança de uma mudança, a trilha sonora resolve inclinar-se para algo animalesco, primitivo, uma construção tonal sem qualquer regra acadêmica a ser seguida e que, sem dúvida, fornece grande respaldo para compreendermos as aflições de nossa protagonista.

É quase impossível não se perder cronologicamente dentro da série. Por mais de uma vez, temos a impressão de sermos transportados para meados do século XVIII, no qual as mulheres submetiam-se às suas bíblicas condições de perpetuar a espécie humana, sem vontade ou desejo próprios. De modo bem sutil, tangenciando um espetáculo silencioso, a equipe artística faz questão de nos relembrar desse futuro distópico com alguns elementos, seja com meios de transporte ou com aparatos tecnológicos. Há uma cena em que essas escolhas casam de forma harmônica: dentro de um mesmo quadro, vemos um apartamento bem decorado e suprido das necessidades básicas de uma família entrando em discordância com seus trajes tão arcaicos que poderíamos confundi-los com um núcleo amish que magicamente foi parar na época errada.

The Handmaid’s Tale pode ter freado em seu ritmo narrativo, porém conseguiu compensar em outros quesitos tão importantes quanto. E se a série permitiu uma conexão ainda mais complexa entre público e personagens, só podemos ter a esperar muito mais da competente equipe por trás do show – e considerando o aplaudível cliffhanger deste capítulo, não posso nem imaginar por onde eles pensariam em começar.

The Handmaid’s Tale – 02×03: Baggage (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Bruce Miller
Direção: Kari Skogland
Roteiro: Dorothy Fortenberry, baseado no romance homônimo de Margaret Atwood
Elenco: Elisabeth Moss, Jordana Blake, Alexis Bledel, Madeline Brewer, Amanda Brugel, Daniel Chaudhry, Ann Dowd, Joseph Fiennes
Emissora: Hulu
Gênero: Drama, Ficção Científica
Duração: 55 minutos aprox.

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