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Constantemente, The Handmaid’s Tale vem nos surpreendendo; além de ter causado um tumulto considerável no ano passado com a estreia de sua primeira temporada, a narrativa recheada de inúmeras críticas sociopolíticas permitiu o retorno do gênero distópico para sua glória após tentativas fracassadas e formulaicas e também se respalda em regradas investidas para melhorar o seu contéudo, sempre tendo como respaldo o cosmos arquitetado pela romancista Margaret Atwood. Em outras palavras, é quase impossível saber o que esperar com a chegada de um novo episódio – e felizmente o quarto capítulo permitiu que nos chocássemos ainda mais com uma imprevisível ineficácia que mantém a estrutura do show em um patamar inquebrantável.

E como estamos falando de uma série que, apesar de resvalar o gênero da ficção científica, sempre teve um lado extremamente humanista e antropológico, tais questões não poderiam ser deixadas de fora. É claro, um pouco de ação nunca fez mal a ninguém – e Bruce Miller mostra um exímio trabalho em equilibrar as várias vertentes estéticas em uma amálgama coerente e coesa -, mas parece que a trama principal segue por um lado mais intimista, mais psicológico e que transforma o pano de fundo em uma representação externa do que se passa na mente dos nossos protagonistas e antagonistas, sejam eles indivíduos ou instituições. É partindo dessa premissa que retornamos bruscamente para o ponto zero: June (Elisabeth Moss) sendo capturada e levada e volta para Gilead, submetendo-se compulsoriamente ao tiranismo de Fred Waterford (Joseph Fiennes) e voltando ao status de uma mera aia.

Com base no incrível cliffhanger que nos foi bombardeado no episódio anterior, é óbvio pensar que June sofreria uma quantidade significativa de punições, desde físicas até psicológicas. Entretanto, devemos nos recordar de que ela carrega uma criança em seu ventre, acreditada ser do casal Waterford, e, por isso, não pode ser tocada nem mesmo pelas cruéis mãos da “matriarca” Serena Joy (Yvonne Strahovski), cuja antipatia pela criada apenas aumentou com o suposto sequestro. Logo na primeira cena, regressamos ao amarelo doentio que constrasta com o rude vermelho-sangue em um ginásio abandonado, no qual June permanece acorrentada a uma cama, aguardando um julgamento final e o que será de si – e essa angústia, além de ser refletida pelas expressões de Moss, também é reafirmada pela presença de Tia Lydia (Ann Dowd mais uma vez se entregando a uma performance memorável), cuja personalidade tangencia a loucura e a sanidade.

Other Women, como intitulado esse mais novo episódio, traz como premissa a identidade e o individualismo. É claro, desde o início da série vemos esse embate entre a abdição de uma personalidade única perante o totalitarismo homogeneizante de uma ditadura teocrátiva, mas é especificamente em uma iteração desse tipo em que há um espaço mais abrangente e inexplorável para crises existenciais, autosacrifícios e rendição. Porém, não pense que observamos o “lado bom” finalmente ganhar e o “lado ruim” perder – ainda mais porque cada uma das ações dentro da série segue um padrão de puro instinto de sobrevivência; June recebe uma proposta de abandonar a vida pecadora dos três meses em que passou longe dos “cuidados” da família Waterford e encarnar novamente Offred, um alter-ego submissivo e subjugado que lhe torna mais uma vez propriedade do Estado.

É claro que as coisas não acontecem da noite para o dia. June se vê obrigada a criar artifícios para não enlouquecer em meio à cruel vida à qual foi jogada, e inclusive passa a pedir perdão por não ter forças de resgatar Hannah, sua filha – uma das sequências mais fortes traz a nossa heroína deitada sobre o soalho em posição fetal, rezando para que a criança em questão consiga esquecê-la. Mesmo assim, ela conserva dentro de si uma força inexplicável para confrontar de modo indireta Serena, e o ápice ocorre durante um chá-de-bebê organizado pelas mães-placebo e observado quietamente pelas aias. Uma das ideias impulsivas que June tem é de mostrar que a gravidez na verdade pertence a ela, e não à sua senhora, e que todos os compulsórios “benefícios e milagrosos momentos” da gestação estarão com ela. Tais alfinetadas mostram um esparso poder por parte de alguém que perdeu a chance de fugir para um lugar melhor e coloca em xeque a soberania atual.

Todavia, tudo o que é bom dura pouco e June eventualmente abraça o seu consumado estado como Offred. Após confrontar a morte de um antigo amigo que conseguiu mantê-la a salvo durante o tempo e ficar a par de corolários tão cruéis quanto a própria abdicação do livre-arbítrio, ela entrega toda a humanidade para tornar-se um objeto de perpetuação de espécie – e Moss mais uma vez se vale de suas habilidades performáticas para se transformar gradativamente em um ser letárgico. O coma cênico que passa a encarnar é reafirmado pelas expressões lineares e unidimensionais e até mesmo pelo vazio dos olhos que também sofre um profundo aumento através do jogo de luz e de sombra.

Aproveito aqui para fazer uma menção necessária ao trabalho estético e técnico do episódio, os quais dialogam diretamente com a narrativa em questão; à medida em que June (agora Offred) abandona sua persona para tornar-se apenas mais um ponto em uma massa amorfa, os planos em que se rosto é mostrado se tornam mais escassos. O ápice é atingido com o final do último ato, em um plano-sequência que se recusa a mostrar suas feições e a transforma em um não-humano, preferindo capturar frames de costas ou então que escondam a face.

O mais novo episódio de The Handmaid’s Tale talvez tenha sido o melhor até agora, principalmente por fazer um uso tão bom de questões de livre-arbítrio e aceitação dentro de uma atmosfera intolerante e opressora. Mais uma vez, o trabalho feito pelo time criativo mostra que essa série não apenas é uma obra-prima, mas também é carregada de uma importância atemporal para a sociedade em que vivemos.

The Handmaid’s Tale – 02×04: Other Women (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Bruce Miller
Direção: Kari Skogland
Roteiro: Yahlin Chang, baseado no romance homônimo de Margaret Atwood
Elenco: Elisabeth Moss, Jordana Blake, Alexis Bledel, Madeline Brewer, Amanda Brugel, Daniel Chaudhry, Ann Dowd, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski
Emissora: Hulu
Gênero: Drama, Ficção Científica
Duração: 55 minutos aprox.

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