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Depois da tempestade vem a calmaria. Quem diria que um ditado tão inocente quanto este serviria de premissa para uma série incrivelmente ácida e dura em suas críticas como The Handmaid’s Tale? Antes de mais nada, sabemos que o show baseado no romance homônimo de Margaret Atwood é considerado e com razão um dos melhores da atualidade; desde um roteiro minuciosamente construído até uma concisa e hipnotizante direção, Bruce Miller fez o que muitas mentes de Hollywood tentavam fazer há tempos: construir uma adaptação/remake que fosse digno do clássico que o inspirou. E é numa linha crescente que a série mantém-se em um nível inalcançável de irreverência pura, aliada a um assustadora perspectiva do que pode nos aguardar em um futuro mais próximo do que imaginamos.

A segunda temporada poderia até ter nos deixado com um pé atrás, considerando a balbúrida que o ano de estreia causou – mas a cada novo episódio, percebemos que o time criativo por trás do show sabe exatamente o que fazer e, mais importante, quando fazer. Se nos primeiros novos capítulos a história de Offred (Elisabeth Moss) restringiu-se a uma linha mais intimista para explodir em sequência de ação e epifania, chegamos à metade dessa iteração com revelações que são de extrema importância para um provável desfecho desastroso – que inclusive começa a dar às caras com o final do sexto episódio, intitulado First Blood.

Entretanto, vamos por partes: no quinto capítulo, chamado de Seeds, a nossa protagonista parece ter se tornado alvo de uma letargia compulsória, um sentimento de vazio que a destituiu de toda a força de vontade que carregava para lutar contra o opressor governo de Gilead, resguardado pela imagem tirânica e teocêntrica de Fred Waterford (Joseph Fiennes). Após ver o que seus atos poderiam trazer não para si mesma, mas sim aos outros à sua volta, ela se transformou em uma marionete sem desejos ou sentimentos cuja única missão é servir aos seus patrões – e as coisas parecem entrar numa ironia sem fim à medida que sua ama, Serena (Yvonne Strahovski) percebe uma mudança de comportamento imprevisível para a aia. É até mesmo engraçado que, mesmo abandonando o poder que tinha por carregar o filho dos Waterford, ela exerce influência na estabilidade psicológica da matriarca da família por uma simples necessidade de manter tudo nos eixos.

É quase triste observar como Offred se esquece de sua real personalidade, June, para submeter-se ao governo ao qual sempre repudiou. Mas as coisas não permanecem em uma linearidade constante; a protagonista não consegue em nenhum momento prever o casamento arranjado entre seu par romântico, Nick (Max Minghella), e uma jovem menina de apenas quinze anos também fruto de uma comunidade pautada em dogmas extremamente conservadores e sexistas. A partir daí, ela entra em um looping de desespero silencioso e quase chega a tirar sua própria vida apenas para um redespertar mais que bem-vindo.

Ainda que tenho falado apenas sobre um episódio, Moss continua roubando os holofotes de quase todas as cenas, mas o restante dos personagens parece ter encontrado brechas para brilhar tão forte quanto. Se a atriz principal consegue cativar o público em seus momentos mais quietos, Strahovski faz o mesmo com relances de olhar e um mergulho inesperado na backstory de sua personagem, cujo semblante consegue traduzir um discurso neofascista em um apelo pela misericórdia e pela liberdade de expressão que ironicamente nos torna mais próximos de sua construção. E não poderia deixar de citar o incrível trabalho de Ann Dowd como Tia Lydia, uma representação tão insuportável dos “bons costumes” que chega a ser angustiante o cinismo com o qual trata cada uma das aias.

Serena e Offred passam a ter uma relação muito mais afável e próxima, justificado pelo infante não nascido; mesmo assim, é reconfortante encontrar uma centelha de humanidade e compreensão empática da Sra. Waterford frente a aia, a qual chega a receber alguns “mimos” – como a visita de suas amigas. Entretanto, ela enfrenta mais um empecilho ao perceber que Fred não apenas guarda alguns ressentimentos quanto à sua pessoa, mas também tem uma paixonite perigosa que poderia significar o fim de um governo movido pelo tradicionalismo familiar e secular – e a cena de “consumação carnal” entre os dois reflete em uma perspectiva muito mais ampla, estendendo-se para a obrigatória relação de submissão e dominação entre o chefe e a serva, por exemplo.

A série também não se preocupa em investir em perspectivas ainda mais ideológicas para dar continuidade à história. Uma das subtramas presentes no sexto episódio refere-se à construção de um novo centro de processamento de aias – sim, o diálogo entre os personagens refere-se às mulheres férteis propositalmente como animais – reafirmando a potência de Gilead e a capacidade de tal modo de governo ser adotado até mesmo através dos oceanos. Ao final disso, vários outros chefes de governo de Estados vizinhos acabam por acompanhar Fred em uma grande assembleia, assistida pelas aias. E, de forma surpreendente, Ofglen (Tattiawna Jones) sai de seu silêncio compulsório, encarnando os ideais anárquicos há muito perdidos para explodir-se junto a uma granada e aos totalitários representantes que ali estão, criando um cliffhanger de tirar o fôlego.

Mas é claro que, numa obra como esta, nada seria pensado ao acaso; além da grandiloquência da história, faz-se necessário citar o incrível trabalho harmônico entre a direção de arte e a de fotografia, cuja colaboração cria um microcosmos distópico único, endossado a cada novo capítulo. Em diversos momentos, podemos ver o contraste de realidade e uma proposital perda anacrônica em meio ao espaço-tempo da série pela presença concomitante de cenários legitimamente futuristas – o novo centro de processamento ou o hospital – e dos lares arcaicos que remontam ao pitoresco e ao rústico – como a própria casa dos Waterford. Tais escolhas, reforçadas também pelo dramático e expressionista jogo de luz e sombra, serve para nos deixar ainda mais próximos e angustiados com a probabilidade desse temeroso futuro chegar.

The Handmaid’s Tale beira a perfeição a cada nova investida – e aproveita todas as chances que têm para inovar uma narrativa que poderia muito bem cair na mesmice e na monotonia. E, como se não bastasse, a série também abre margem para quebrar paradigmas engessados, provando que depois da tempestade, uma outra pode estar logo à espreita para nos pegar de surpresa.

The Handmaid’s Tale – 02×05: Seeds / 02×06: First Blood (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Bruce Miller
Direção: Mike Barker
Roteiro: Kira Snyder, Eric Tuchman, baseado no romance homônimo de Margaret Atwood
Elenco: Elisabeth Moss, Jordana Blake, Alexis Bledel, Madeline Brewer, Amanda Brugel, Daniel Chaudhry, Ann Dowd, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski
Emissora: Hulu
Gênero: Drama, Ficção Científica
Duração: 55 minutos aprox.