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Chega um momento, em toda grande série, em que é necessário segurar um pouco a narrativa e dar espaço para que haja um certo respiro, tanto por parte dos personagens quanto por parte do público. Em The Handmaid’s Tale, tal fórmula não deixaria de ser seguida – e enquanto alguns podem achar que um show tão transgressor quanto este não deveria, a priori, se basear em saídas convencionais, é compreensível enxergar essa pausa dramática do sétimo episódio como uma necessidade para colocar as coisas em ordem, ainda mais levando em conta os acontecimentos do capítulo anterior que nos entregou a um majestoso cliffhanger e algumas mudanças que outrora pareciam intocáveis pelo próprio paradigma criado neste pérola do audiovisual.

Antes de mais nada, devemos lembrar que na iteração anterior, uma das aias cometeu o sacrifício máximo ao representar literalmente uma das primeiras ameaças concretas que se autoalimentavam dentro do governo Gilead. Fred Waterford (Joseph Fiennes) negligenciou a capacidade de união das escravas sexuais de seu império teocrático e reacionário e, assim como seus colegas governamentais, sofreu as consequências do que podemos inferir como um breve levante dos subjugados. Afinal, já presenciamos uma faísca momentânea de esperança provinda das aias e que ocasionou uma comoção generalizada dentro deste microcosmos – e que seria retomada como uma homenagem ao final deste último episódio, intitulado After.

O conceito de after (depois, em inglês) também funciona como um prefixo para o vocábulo aftermath (consequência). Caso alguém notasse essa sutil jogada de palavras, provavelmente esperaria que os fatos a se desenrolarem viessem como um presságio de autoritarismo puro – entretanto, não é isso que acaba acontecendo. Muito pelo contrário, o ato de suicídio terrorista, apesar de ter trazido consequências sérias (incluindo a morte de 26 comandantes e 31 aias), serviu mais como respaldo psicológico e narrativo para reintroduzir uma personagem que há muito não ouvíamos falar em vez de ser mais aprofundado, principalmente no tocante ao destino de cada um dos protagonistas. De qualquer modo, não podemos tirar as tentativas da roteirista Lynn Renee Maxcy em brincar com essas pontas soltas e arquitetar uma vertente mais intimista – e também aproveito aqui para dizer que seus deslizes são ofuscados pela brilhante direção de Kari Skogland.

Samira Wiley, tendo dado às caras no começo da temporada, retorna de modo triunfal para a série como Moira juntamente com seu sentimento de esperança imbatível. Através de uma aplaudível montagem paralela que faz bom uso da paleta de cores para respaldar duas cronologias diferentes, ela se recorda de seus dias de glória ao lado de June (Elisabeth Moss), e como a dupla sempre esteve uma ao lado da outra até nos momentos mais complicados. Mais uma vez, o roteiro vale-se do tema da gravidez e da maternidade compulsória, bem como da adoção, para trazer camadas diversas de profundidade que ganham cada qual seu momento para ser explorada. Moira também faz descobertas trágicas sobre o paradeiro de sua ex-noiva, levada brutalmente pelos policiais de Waterford para servir como aia – e são essas descobertas que também permite uma performance emocionante de Wiley, mostrando mais uma vez ser perfeita para o papel que lhe foi entregue.

É aqui que todos esses rostos encontram um meio de se reencontrar, e isso também é válido tanto para Janine (Madeline Brewer) quanto para Emily (Alexis Bledel). As duas exiladas retornam de sua prisão para “suprir” o número faltante de aias, visto que mais de três dezenas acabaram morrendo no atentado. O retorno dessas duas personalidades, bem como inúmeras outras, recria uma atmosfera quase onírica para June – que prevê uma importância muito maior que a apresentada na superfície – e coloca em xeque a legitimidade de Gilead. Em outras palavras, a perda da individualidade e do livre-arbítrio, temas também bastante explorados pela série em si, começam a desvanecer e concretizam uma nova forma de enxergar essa clausura na qual as aias vivem. Não é nenhuma surpresa que a cena fina seja envolvente ao ponto de nos fazer torcer mais uma vez para que as coisas mudem.

Apesar dos momentos de glória, After não tem o mesmo ritmo dos episódios anteriores, nem mesmo pelo roteiro bem trabalhado. Os diálogos mostram-se mais cansados, como se precisassem de um tempo para reamadurecerem e voltarem à forma que tinham antes; nem mesmo a continuidade da bizarra relação entre Serena (Yvonne Strahovski) e June parece seguir de forma natural, ainda que premedite uma mudança brusca de cenário para ambas as personagens. A não ser que eu esteja bem enganado, posso até dizer que uma centelha de amizade começou a surgir entre as duas, substituindo a crescente tensão que vimos na temporada anterior.

Entre erros de lógica e deslizes estruturais, a série consegue ainda realizar o impossível: investir ainda mais em sua estética cênica e buscar algo que não deixe esses equívocos transparecem por completo. Logo, a direção de arte e de fotografia mais uma vez trabalham em conjunto para permanecer na atmosfera opressora e angustiante, ainda que a paleta de cores sofra uma mudança de tons mais brutos para mais pastéis, talvez conversando com a crescente quebra de perspectiva que logo mais aparecerá.

The Handmaid’s Tale teve uma diminuição considerável de seu ritmo e resvaleu-se demais do que representa no mercado audiovisual contemporâneo ao invés de ousar no que poderia ousar. Mesmo assim, não podemos tirar mérito do que o time criativo tentou fazer neste episódio – e ainda que não nos sintamos satisfeitos o bastante, o espaço para buscar no âmago da habilidade do elenco performances memoráveis é inegável e, eventualmente, funcionou muito bem.

 The Handmaid’s Tale – 02×07: After (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Bruce Miller
Direção: Kari Skogland
Roteiro: Lynn Renee Maxcy, baseado no romance homônimo de Margaret Atwood
Elenco: Elisabeth Moss, Jordana Blake, Alexis Bledel, Madeline Brewer, Amanda Brugel, Daniel Chaudhry, Ann Dowd, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, Samira Wiley
Emissora: Hulu
Gênero: Drama, Ficção Científica
Duração: 55 minutos aprox.