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Após uma morna entrega de The Handmaid’s Tale com seu sétimo episódio, o time criativo por trás da série provavelmente deve ter percebido que os arcos e as subtramas mais intimistas já começavam a perder o angustiante brilho e mais se valiam como fillers para manter o ritmo de sua narrativa principal. Logo, manter-se com um pé atrás era quase óbvio, como forma de prevenir quaisquer decepções e expectativas frustradas para a epopeia da nossa heroína Offred/June (Elisabeth Moss). Felizmente, as coisas parecem ter se acertado, e esta nova dupla de episódios não apenas nos deixa chocados com algumas resoluções e clímaces, mas também insurge como algumas das melhores iterações de toda a série pelo tratamento que recebe, seja no roteiro, seja em sua estética.

Partindo exatamente de onde paramos em After, June e Serena (Yvonne Strahovski) uniram suas forças outrora muito potentes – num tempo em que Gilead ainda era um inocente projeto teórico – enquanto o Comandante Fred Waterford (Joseph Fiennes) mantinha-se encarcerado no hospital para se recuperar do atentado terrorista arquitetado por uma das aias. Enquanto impossibilitado de continuar com suas atividades, as duas começaram a rever os discursos, as agendas, os adendos e os artigos, construindo e fortificando uma relação que nos relembra muito da premissa principal da ideologia feminista – ainda que respaldado por um cosmos essencialmente opressor e sexista. De qualquer forma, ver esses laços se erguerem representa quase uma esperança pacífica para o que virá a acontecer em um futuro próximo – ainda mais se considerarmos o levante de contra-ataque à monarquia teocrática.

Entretanto, nem tudo são flores, e as mudanças estão apenas começando. June descobre através de sua senhora que a filha do casal Putnam, concebida pela flagelada Janine (Madeline Brewer), está internada e nenhum dos especializados médicos da facilidade hospitalar consegue diagnosticá-la com precisão. E, como tempos difíceis clamam por “medidas drásticas”, a aia consegue convencer Serena de recontratar temporariamente uma das Marthas que, em sua outra vida, trabalhava como cirurgiã neonatal e era considerada uma das melhores em sua área. Contra as vontades do marido, ela falsifica uma autorização de transferência e mais uma vez coloca em xeque toda a ideologia de superioridade masculina e hereditariedade divina defendida pelos Comandantes.

A grande ideia desse capítulo é mostrar que nem mesmo algo endossado está totalmente livre de influências externas. Ainda que caindo em paradoxos propositais – Fred constantemente reafirma a ideia de que a voz das mulheres lhe é concedida através de outro modo, mas na verdade elas permanecem enclausuradas em um ciclo de opressão e subjugação sem fim. Creio que a partir daqui, as explícitas críticas presentes na primeira temporada retornarão com mais força, como forma de respaldar os escritos de Margaret Atwood e a sua imortalização seriada. E ainda que, diferente do livro, a presença do verborrágico dê lugar ao silêncio absoluto, todas as mensagens concentram-se nas expressões e nos olhares das personagens.

Se Women’s Work representa uma ruptura entre a bruta divisão de classes de mulheres dentro de Gilead, o capítulo seguinte pode ser compreendido como o que a transgressão traz como consequências. Ao final da iteração, a diretora canadense Kari Skogland constrói uma atmosfera tensa e nos presenteia com um dos melhores clímaces da série ao colocar Serena definitivamente subjugada às ações divinas de seu marido, que a puni na frente de June, mostrando que traições não serão toleradas em hipótese alguma. E é claro que esses acontecimentos irão interferir na relação de amizade que viria a ser construída entre as duas mulheres, colocando-as novamente em dois extremos.

Em Smart Power, a narrativa brilhantemente migra para o Canadá, lar dos refugiados do antigo Estados Unidos que agora lutam para libertar as aias e depor o autoritário governo de Gilead. Dentre os líderes do grupo, estão Moira (Samira Wiley) e o ex-marido de June, Luke (O-T Fagbenle), que passaram a morar juntos e a arquitetar planos um tanto quanto utópicos para resgatar cada uma das mulheres em cárcere. As tensões e as investidas políticas aumentam coma chegada do casal Waterford àquele lugar, cuja principal ideia era criar relações diplomáticas após o atentado e, preferivelmente, apaziguar os conflitos ideológicos. Serena sente na pele uma crescente repulsa por sua pessoa e por tudo que ela representa, materializado durante uma breve e chocante sequência na qual uma mãe e uma filha a tratam com puro descaso – e tal ciência começa a fazê-la duvidar se permanecer ao lado do marido é a coisa mais certa a se fazer.

Jeremy Podeswa, encabeçando o episódio em questão, alcança grande sucesso ao mostrar a diferença até mesmo atmosférica entre Canadá e Gilead. Enquanto o cosmos opressor e extremamente religioso dos Waterford é manchado por cores pastéis e doentias, principalmente pautado por cores pastéis e quentes que contrastam com o monocromático das aias e dos soldados, o país mais ao norte mergulha-se em um luto constante e essencialmente neutro, perscrutado pelo marrom, pelo preto e pelo branco, marcando uma imparcialidade político-social que insurge como principal força-motriz para uma possível mudança estrutural.

 The Handmaid’s Tale voltou à sua inestimável força original, e considerando o crescendo do qual se vale, podemos esperar grandes coisas de um futuro próximo que pode se estender para um possível levante libertário por parte das aias e de alguns infiltrados dentro do governo Gilead. As tensões, ainda que separadas por um território considerável, crescem a cada nova investida do time criativo – e não podemos esperar para ver no que isso vai dar.

The Handmaid’s Tale – 02×07: Women’s Work / 02×08: Smart Power (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Bruce Miller
Direção: Kari Skogland, Jeremy Podeswa
Roteiro: Nina Fiore, John Herrera, Dorothy Fortenberry, baseado no romance homônimo de Margaret Atwood
Elenco: Elisabeth Moss, Jordana Blake, Alexis Bledel, Madeline Brewer, Amanda Brugel, Daniel Chaudhry, Ann Dowd, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, Samira Wiley
Emissora: Hulu
Gênero: Drama, Ficção Científica
Duração: 55 minutos aprox.

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