The Most Powerful Man In The World (And His Identical Twin Brother) trouxe de volta aquilo que todos os fãs de The Leftovers estavam esperando: a viagem de Kevin Garvey (Justin Theroux) até o mundo espiritual. É difícil negar a constatação de que “International Assassin” foi o melhor episódio da temporada anterior. E é em razão disso que, desde a sua exibição no ano passado e a consequente revelação acerca da capacidade de morrer e ressuscitar do protagonista, a ansiedade em cima do retorno do personagem a essa espécie de plano existencial era grande. No entanto, foram precisos seis episódios até que isso acontecesse, enfim.

Assistindo a The Most Powerful Man In The World (And His Identical Twin Brother), torna-se evidente como, nesta temporada, Damon Lindelof errou ao ter investido nos dias que antecedem o sétimo aniversário da “Partida Repentina” em detrimento da exploração das características desse mundo alternativo. A série irá acabar, e as pessoas que a acompanham lamentarão o fato de saberem tão pouco sobre o destino das viagens interdimensionais de Kevin. Pois, ao mesmo tempo que mantém um certo charme e mistério (como todas as coisas inexploradas), também fica a sensação de que muito potencial foi desperdiçado.

Sendo assim, temos de nos dar por satisfeitos com este penúltimo episódio da terceira temporada, afinal de contas, além de pouco ser sempre melhor do que nada, The Most Powerful Man In The World (And His Identical Twin Brother) é bom o suficiente para justificar a espera. E as escolhas de Damon Lindelof já se mostram corretas logo no começo, quando, durante os créditos iniciais, a canção de abertura da primeira temporada retorna com toda a sua força e o nome de Craig Zobel, o sujeito que comandou International Assassin, surge como o responsável pela direção do episódio.

No caso de Zobel, foi essencial que este penúltimo capítulo estivesse sob a sua batuta. Ele não só domina as idiossincrasias e a imagética das histórias de espionagem, como também é hábil na conversão da direção de arte e do figurino em poderosas ferramentas narrativas. Na cena que se desenrola no bunker, é interessante perceber que alguns elementos cênicos, como, por exemplo, um quadro de Kevin, auxiliam na comicidade exagerada do momento. Essa mesma funcionalidade se aplica no design gráfico das longas paredes que cercam as escadarias desse mesmo local. As sensações de estranhamento e solidão ocasionadas pelo episódio não seriam as mesmas se o ambiente fosse normal. Até mesmo na seleção de roupas, onde o Kevin presidente veste um branco translúcido e o Kevin assassino, um terno preto sobre uma camisa branca, o diretor e a sua equipe se destacam.

Aliás, no que diz respeito ao protagonista e o seu irmão gêmeo (que, na verdade, são os mesmos), dos pontos de vista narrativo e simbólico, é preciso elogiar a maneira rica com que Lindelof e Nick Cuse (o co roteirista do episódio) abordam o sacrifício/homicídio de Kevin. Em vez de ir pelo caminho normal, a dupla preferiu criar um irmão idêntico ao personagem. Além de fazer referência ao episódio It’s a Matt, Matt, Matt, Matt World, no qual há um diálogo entre Matt (Christopher Eccleston) e o auto intitulado Deus (Bill Camp) em que este afirma que Jesus tinha um irmão gêmeo, visualmente, não há uma forma mais rica de narrar o conflito interno de alguém do que desta maneira: através de um duplo que, no fundo, é a própria pessoa. Como um reflexo no espelho, os personagens, um branco e outro preto, veem os dois lados que compõem a sua personalidade. Pois, se, por um lado, Kevin é o homem que abandonou Nora (Carrie Coon) no momento em que esta mais necessitava de uma pessoa ao seu lado, por outro, ele é o sujeito que, assim como Cristo, está se sacrificando pelo bem da humanidade.

Agora, sobre o caráter religioso do episódio – que é comum à série -, poucos capítulos recorreram tanto a elementos da doutrina cristã como “The Most Powerful Man In The World (And His Identical Twin Brother)”. Desde a cena em que Kevin e Kevin Garvey Sr. (Scott Glenn) dialogam na banheira, remetendo ao Pai que envia o seu Filho à Terra para seja sacrificado, até a retirada da chave que se encontrava abaixo do coração do Kevin assassino, que vai de encontro à imagem do Sagrado Coração, passando pelo sacrifício propriamente dito do protagonista, o roteiro de Lindelof e Cuse é extremamente ciente da aplicabilidade de conceitos cristãos.

Ainda sobre o trabalho dos dois roteiristas, por fim, chama atenção o controle que exibem ter sobre os personagens. É curioso ver como Patti Levin (Ann Dowd) e Meg Abbott (Liv Tyler), inimigas em boa parte da vida, continuam se antagonizando no mundo espiritual. Inclusive, em relação a história de Meg, como ela sempre teve, cristalinamente, um lado bom e outro ruim, é inteligente que ela mostre ter essa mesma dubiedade de ações em outra dimensão. O único ponto negativo do trabalho de Lindelof e Cuse fica por conta do excesso de humor. Como este foi um dos principais responsáveis pelo sucesso da segunda temporada,  ele vem sendo rotineiramente exagerado nos últimos episódios.

Terminando com uma fala crucial para a compreensão de toda a série – afinal, uma vez encerrado o ciclo da “Partida Repentina”, muitos personagens perderão o sentido de suas existências -, The Leftovers começa a atar as suas pontas. Coisas como a veracidade do personagem interpretado por Bill Camp – ele mesmo admite que afirma ser Deus para conquistar garotas (sic) – começam a ser solucionadas, e a história caminha para o seu fim. A temporada atual vem sendo muito irregular, mas não dá para negar que dizer adeus aos personagens é uma tarefa árdua. Talvez, o consolo decorrerá da possibilidade de que todos eles encontrem a paz de espírito que tanto buscaram nos últimos anos. Pessoas tão sofredoras merecem uma redenção.

The Leftovers – 03×07: The Most Powerful Man In The World (And His Identical Twin Brother)  (Idem, 2017, EUA)

Criado por: Damon Lindelof e Tom Perrotta
Direção: Craig Zobel
Roteiro:
Damon Lindelof e Nick Cuse

Elenco: Justin Theroux, Scott Glenn, Kevin Carroll, Liv Tyler, Ann Dowd, Jovan Adepo, Jasmin Savoy Brown
Gênero: Drama
Duração: 60 min.

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