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A comédia em sua essência é uma Arte dependente de uma técnica requintada. Basta lembrar de Buster Keaton sentado na alavanca de uma locomotiva em movimento ou Charles Chaplin andando de patins com apenas um pé sobre uma cratera, sendo dois exemplos formidáveis no talento de artistas no auge de seu trabalho. Em tempos mais contemporâneos, a comédia continua viva através de performances e piadas memoráveis, em um gênero que, mesmo nos tempos de Keaton e Chaplin, sempre dependeu – ao menos 70% – do talento do comediante.

Dito isso, é raro encontrarmos uma comédia que, não só é engraçada, mas que também apresente uma técnica e direção tão sofisticada quanto um “filme de prestígio”, ou até mesmo produções de grande orçamento. A atual Era de Ouro da Televisão americana acaba de cruzar essa barreira. Não só com a excepcional Atlanta, que flerta constantemente com o surrealismo, mas agora também com The Marvelous Mrs. Maisel, irretocável acerto da Amazon Prime. 

A trama da primeira temporada nos leva à década de 60, apresentando-nos ao casal Midge (Rachel Brosnahan) e Joel Maisel (Michael Zegen), dois nova-iorquinos bem de vida que exploram diferentes possibilidades. Ela, uma dona de casa organizada e esforçada, enquanto o marido balanceia o emprego na firma de seu pai com noites mal sucedidas de comédia stand up, sempre contando com o apoio de Midge. Ao descobrir da infelidade de seu marido, o casamento dos dois entra em crise, levando Midge a impulsivamente entrar em um clube de stand up e desabafar ironicamente sobre seus problemas – garantindo o riso descontrolado da plateia e a atenção da proprietária Susie (Alex Bernstein), que logo enxerga em Midge a oportunidade de transformá-la em uma estrela do stand up. 

Sitcom de Época

Quando analisamos apenas a história, Mrs. Maisel parece não ser muito diferente dos Seinfelds, Masters of None e outros seriados que abordam a carreira da comédia stand up, encontrando em sua abordagem de época algo verdadeiramente original. As piadas e estilo de apresentação em palco são realizadas de forma contemporânea, quase anacrônicas ao período bem demarcado dos anos 60, e s showrunner Amy Sherman-Palladino (criadora também de Gilmore Girls) merece aplausos por conseguir executar tão bem essa mistura incomum, com nítida influência do humor mais sarcástico dos irmãos Coen – com referências perceptíveis a obras como Barton Fink, Um Homem Sério e, claro, Inside Llewyn Davis; especialmente por trazer o Gaslight Cafe como cenário integral da história. É quase como se estivessemos assistindo a Mad Men, dado o prestígio da época, mas com uma leveza e humor muito mais fortes do que a série protagonizada por Jon Hamm.

Desde o princípio, Palladino nos conquista com suas personagens maravilhosas. A própria Midge é um perfil bem distinto de protagonista nesse gênero, sendo uma mulher privilegiada e com muito dinheiro, contra o estereótipo do “zé ninguém” que atinge a fama, mas sim abraçando a ideia de uma mulher que tem tudo, mas que só agora começa a descobrir sua real afinidade – visto que Midge sempre sugeriu piadas e trabalhou como “editora” para Joel.

O Humor da Direção

E quando disse no começo do texto sobre a “técnica” da comédia, era aqui que queria chegar. Falando de forma bem direta, The Marvelous Mrs. Maisel apresenta um trabalho de direção excepcional, não só raro no gênero da comédia, mas até mesmo se destaca dentro das produções mais “prestigiadas” da TV, não devendo nada ao estilo de um Better Call Saul ou o orçamento notável de um Game of Thrones – mas sem dragões, claro -, algo transparente no design de produção imersivo e envolvente da produção, que definitivamente coloca o dinheiro na tela.

Responsável por muitos dos episódios dessa primeira temporada, Palladino é segura ao executar longuíssimos planos sequência que passeiam pelos ambientes, em um tipo de execução que parece uma mistura do dinamismo de Alejandro G. Iñarritu em Birdman com a câmera movendo-se livremente a todo instante) com o fator “discreto” de Steven Spielberg, que constamente muda o enquadramento de uma cena sem fazer o espectador notar que ainda está no mesmo plano de câmera. Essas características imprimem velocidade aos personagens de Maisel, com a mise en scene ajudando até mesmo na comédia, já que os pais de Midge sempre acabam fazendo algo divertido no meio desse verdadeiro balé de câmeras. Um trabalho estupendo, e digno de suas vitórias na última edição do Emmy. 

Por fim, mas de forma alguma menos importante, Mrs. Maisel tem um elenco invejável. Rachel Brosnahan traz aquele tipo de performance que é magnética do início ao fim, com a atriz apostando em um sotaque discreto (similar ao de moradores de Boston) que mostra-se certeiro, tanto pela época quanto pelo tom mais humorístico na qual a atriz consegue entregar suas falas; sempre que Midge está no palco, é garantia de diversão e um tour de force de atuação. De maneira similar, Alex Borstein também rouba a cena como Susie, fazendo a persona mais durona e ranzinza, o que promove um ótimo contraponto ao comportamento mais “dondoca” de Midge. 

O elenco coadjuvante também é excelente, com os pais da protagonista sendo um atrativo à parte. Abalados pelo divórcio da filha, os personagens de Tony Shalhoub e Marin Hinkle tentam fazer de tudo para reparar a situação, sendo particularmente hilário ver como o ex-astro de Monk lida com seus histéricos ataques de fúria, enquanto Hinkle apresenta um lado mais pé no chão e acolhedor para Midge. O jovem Michael Zegen também é eficiente em criar uma figura mesquinha na forma de Joel, mas complexo o bastante para que o espectador consiga compreender seu ponto de vista, por mais repreensível que seja.

Maravilha

A primeira temporada de The Marvelous Mrs. Maisel é um acerto como poucos. Com uma produção afinadíssima, um elenco de peso e uma direção que realmente eleva a comédia a um nível de prestígio, a série da Amazon mostra que não deve em nada a outros serviços de streaming por aí, e Amy Sherman-Palladino se confirma como uma artista completa. Uma série maravilhosa, de fato. 

The Marvelous Mrs. Maisel (EUA, 2017)

Criado por: Amy Sherman-Palladino
Direção: Amy Sherman-Palladino, Daniel Palladino, Scott Ellis

Roteiro: Amy Sherman-Palladino, Daniel Palladino, Kate Fodor, Sheila R. Lawrence
Elenco: Rachel Brosnahan, Alex Borstein, Michael Zegen, Tony Shalhoub, Marin Hinkle, Bailey De Young, Holly Curran, Jane Lynch, Kevin Pollak, Luke Kirby, Caroline Aaron
Emissora: Amazon
Gênero: Comédia
Duração: 50 min aprox.

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