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Dias atrás, estudando para um trabalho acadêmico, me deparei com a questão dos tipos de liderança. Ver o rei Ezekiel junto aos seus homens é ver um exemplo claro de líder carismático. O personagem, através de seu “teatro”, com um grande sorriso no rosto e dizeres pomposos, os quais não chegam a ser estranhos de se ouvir por combinar perfeitamente com o mesmo, conquistou uma confiança quase cega de seu povo. Porém, a imersão do personagem “no personagem”, em meio a um ataque direto a base inimiga, acabou trazendo um duro baque ao ser confrontado com a realidade da guerra em Some Guy, episódio dirigido pelo “estreante” Dan Liu.

O episódio tem início em um flashback, o qual mostra o rei se preparando, momentos antes de ir para o confronto. Aqui, vemos todo o poder que Ezekiel tem sobre aquele povo. Não um poder imposto através do medo, mas sim através da confiança, da esperança de um amanhã melhor. Esse poder, esse poder é reforçado através de um plano onde Ezekiel, após mais uma performance onde fala sobre como sorri mesmo perante a tarefa que está por vir e dizer que “eles são um”, é rodeado por todo seu povo, em imagem, semelhante ao que ocorre com o Superman em Batman vs Superman, após salvar uma pessoa no dia em que é comemorado o dia dos mortos, no México. A câmera vai subindo gradualmente, de baixo para cima, até conseguir englobar todas as pessoas no plano. Uma imagem bonita, que apenas reforça o contraste a situação que o personagem enfrentava no presente.

A sequência é cortada para uma imagem semelhante de Ezekiel envolto por alguns de seus soldados, inclusive mantendo o mesmo ponto de vista do final da sequência anterior. Porém, a situação é bem diferente. O que vemos é a continuação direta do final de Monsters, onde o grupo do rei é surpreendido por um ataque surpresa, levando a morte de praticamente todos os membros, com alguns deles tendo se atirado em cima do personagem para protegê-lo. Ezekiel consegue sair, e então tem pela frente uma imagem desoladora, onde a realidade da guerra finalmente é revelada aos seus olhos, onde o grito do personagem, em ótima atuação de Khary Payton, apenas exala todo o seu sofrimento ao ver seus soldados caídos, mortos.

Após uma tentativa de fuga, em muito atrapalhada por um ferimento na sua perna esquerda, de seus antigos companheiros agora transformados em zumbis, Ezekiel é encontrado por um sobrevivente do seu grupo, o qual surge apenas para, momentos depois, morrer, alvejado por um dos personagens que, particularmente, mais me incomodou em toda a série, principalmente pelos seus trejeitos extremamente forçados e caricatos ao tentar passar a imagem de soldado durão. Porém, ao menos, de um jeito bem detestável, o personagem serviu para ajudar a trazer ainda mais pra fora o sentimento que, ao final do episódio, Ezekiel transpõe em alto e bom som. Ele não é um rei.

Recebendo alguns pequenos momentos de atenção enquanto tudo isso ocorre vemos Carol, invadindo a base anteriormente atacada para tentar conseguir pegar as armas dos Salvadores. Alguns bons momentos de ação, com Carol inclusive reeditando o papel de “mulher indefesa” por breves momentos, um flashback onde Ezekiel conta sobre o momento em que decidiu “fazer alguma coisa”, exatamente quando Shiva entra em sua história, e sobre ser herói, recebendo apenas um “eu também mudei”, e logo vemos a personagem se reunindo a Ezekiel e seu salvador, surgido momentos antes para salvá-lo do soldado de Negan quando este estava prestes a matá-lo.

Os segundos que antecedem a junção dos personagens traz o momento em que Daryl, com o som de sua motocicleta surgindo ao fundo, e Rick dão as caras no episódio, perseguindo o carro com as armas da base que Carol e Ezekiel estavam atacando, o qual havia escapado momentos antes. A inserção dos personagens dá sequência ao ponto em que foram deixados no episódio anterior, com eles conseguindo capturar as armas que tanto almejaram conseguir no ataque.

Voltando a Ezekiel, seu salvador e Carol, encontramos os mesmos tentando fugir dos zumbis pelo meio da mata. Porém, ao deparar-se com vários zumbis a sua frente, os personagens acabam enfrentando as dificuldades do rei para se locomover, o qual, após descerem por uma pequena inclinação, não consegue subir rápido o suficiente, desejando ficar para atrasar os zumbis enquanto seus amigos fogem. Quando o homem que o salvou declara que não pode deixá-lo para trás porque ele é o rei dele, vemos o momento final da “quebra” do personagem “Rei Ezekiel”. Ezekiel, em alto e bom som, brada, com um tom de derrota em sua voz, que ele não é o rei, que os zumbis ali próximos são reais, que ele não é nada, apenas um cara qualquer, que encontrou um tigre.

É nesse momento que Shiva, desaparecida desde o início do episódio, tendo aparições somente nos flashbacks, surge para salvar seu dono. Porém, o tigre acaba por não conseguir escapar dos zumbis, causando assim tristeza e sendo mais um baque para Ezekiel, completando a transformação apresentada desde o início do episódio. A chegada do personagem em Kingdom apenas reflete os resultados da jornada enfrentada pelo seu rei. Se o personagem, aos quatro ventos, bradava que acreditava na vitória, antes de partir, agora vimos simplesmente um rei derrotado, que chegou calado e foi em silêncio para seus aposentos.

Some guy foi uma grata surpresa. Com uma trama bem delineada, tendo começo, meio e fim, vimos a transformação que Maggie e Rick já enfrentaram ocorrendo também com Ezekiel. De um homem confiante e sorridente, crente na possibilidade de voltar para casa sem ter soldados abatidos, vimos um homem derrotado, castigado, que parou inclusive de acreditar no próprio personagem que representava tão bem. O sabor da derrota é amargo, porém, é a oportunidade que Ezekiel tem como evoluir de um cara com discursos pomposos e que otimismo contagiante, quase cego, para um verdadeiro líder, calejado pela batalha, com capacidade para guiar Kindgdom a glória. Enfim, tivemos um bom episódio.

The Walking Dead – 8X04: Some Guy — EUA, 12 de novembro de 2017
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Dan Liu
Roteiro: David Leslie Johnson
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Lennie James, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley, R. Keith Harris, Khary Payton, Karl Makinen, Logan Miller, Austin Amelio, Christine Evangelista, Steven Ogg, Jeffrey Dean Morgan, Juan Gabriel Pareja.
Duração: 41 min

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