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Spoilers!

Duas temporadas e meia após o início do conflito com Negan – ele ainda não havia aparecido até o finale da sexta, mas o grupo de Rick já enfrentava os Salvadores antes disso – chegamos ao muito esperado desfecho da guerra e, como qualquer conclusão, nem sempre as expectativas são cumpridas. Wrath, porém, é mais que o fim de um arco, é o término de toda uma fase para The Walking Dead, marcando a saída de Scott M. Gimple como showrunner (será substituído pela já veterana na série, Angela Kang) e o início de algo novo para a série em termos de história.

Dito isso, vamos relembrar um pouco da trajetória de Gimple frente ao seriado. Substituindo Glen Mazzara (que, por sua vez, entrou no lugar de Frank Darabont no comando), o showrunner revitalizou a série, praticamente fazendo um retcon com a figura do Governador, aproximando, mesmo que minimamente, a adaptação aos quadrinhos originais. Perdida na mais pura enrolação, The Walking Dead voltou a ganhar a atenção dos espectadores e a mudança estrutural da narrativa, que passou a contemplar episódios focados singularmente em um ou poucos personagens. Isso permitiu que a série avançasse consideravelmente, enquanto garantia a profundidade de todos os personagens centrais.

Gimple, no entanto, começou a demonstrar cansaço já na sexta temporada e começou a regredir ao que o seriado era durante a segunda e terceira temporadas. O mega-arco de Negan se tornou a nova fazenda de Hershel, impedindo que a história realmente caminhasse – Rick tentava acabar com Negan e levava a pior, alguém morria e retornamos ao status quo. Isso precisava acabar e esperanças de que isso aconteceria surgiram logo no première da oitava temporada, quando prenderam os Salvadores no Santuário. Começava a guerra de fato, mas, novamente, a ‘enrolação’ reinou e tivemos de acompanhar a mesmice por quase todo esse oitavo ano.

No meio do processo, no entanto, algo começou a acontecer – Negan, antes pintado como um monstro sádico, que se divertia através do sofrimento dos outros, começou a ganhar mais camadas, simplesmente como se o showrunner tivesse mudado de ideia no meio do processo. Vimos isso com a sua reação à morte de Carl, que poderia ser considerada o ponto de virada para esse personagem, mas sabemos que, na realidade, o que aconteceu com Negan não foi muito diferente do que vimos com o Governador – trata-se quase de um retcon novamente, dessa vez mais discreto, mas, ironicamente, não condizente com o que vimos até aqui.

crítica the walking dead 8x16 wrath

Não que eu seja contra a maior humanização do vilão – de fato, acredito que ele foi amplamente desperdiçado por duas temporadas inteiras, a favor de um espetáculo de sanguinolência, que transformou sua curta, porém emblemática, primeira aparição nos quadrinhos em quase duas horas de “olha, eu sou o novo vilão”. O problema está na falta de coesão, na mudança da água para o vinho, que tirou Negan da pura e simples psicopatia, para colocá-lo como um homem (insano) com boas intenções (salvar as pessoas). Houve a tentativa de fazer com que ele acreditasse no que vendia através de seus discursos, mas isso jamais soou certo e toda essa mudança poderia ter ocorrido após os eventos de Wrath.

Essa metamorfose do personagem, no entanto, apenas evidencia um dos maiores problemas dessa temporada: a volatilidade dos personagens. Claro que alguns, como Rick, já estavam, há tempos, em um caminho mais sombrio, mas, por vezes, certas ações mais drásticas (como a palavra rompida ao lado de Morgan) soaram como algo excessivamente forçado. Rick sempre teve o seu lado mais cruel, fazendo o que era necessário, quando necessário, mas isso correspondia, geralmente, ao calor do momento e certamente não se encaixa com o arco de redenção iniciado com a morte de Carl.

Claro que a tentativa foi de criar um maior suspense em relação à sobrevivência de Negan, mas mesmo esse preciso momento, possivelmente um dos mais emotivos da série, é estragado pela demonstração desnecessária de violência. Negan poderia ter se rendido, mas suas lágrimas (muito mais impactantes que as de Rick, diga-se de passagem), são interrompidas pelo sangue saindo de sua garganta quando o ex-xerife o ataca de surpresa, tornando todo o seu posterior discurso algo extremamente artificial, considerando que ele acabou de atacar alguém disposto a conversar. No início do episódio ouvimos sobre o risco que Carl tomou para si a fim de fazer a coisa certa e Rick simplesmente se desfaz do risco ao neutralizar seu inimigo através da violência, ao invés das palavras, que representaria não apenas um novo começo para o seu grupo, como uma manobra extremamente ousada para a série, que complementaria toda a almejada metamorfose do antagonista.

Aliás, o episódio inteiro seguiu por um caminho mais previsível, incluindo a sabotagem das balas por parte de Eugene, que, ainda que sua mudança tenha sido artificial, tendo em vista seu comportamento nos capítulos anteriores, funcionou em termos de narrativa – não foi a grande batalha que todos esperavam, mas já tivemos o suficiente dessas ao longo dessas três temporadas de Rick vs Salvadores. Outra mudança que cai no mesmo espectro de artificialidade é a de Morgan, que, com um ‘papo motivacional’ de Jesus repentinamente deixa de matar, mudando da água para o vinho ao deixar de ser a figura ensandecida que encontramos ainda no início desse episódio.

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Mesmo Maggie, que poderia ter aprendido algo com os Salvadores presos em Hilltop regride ao ver Negan sendo poupado. Claro que o peso da morte de Glenn ainda a abala, mas toda a extensão desse conflito nos afastou mais do que devia da morte do personagem, a tal ponto que praticamente nos esquecemos de Glenn, acabando com qualquer chance de empatia por parte do espectador em relação à Maggie, que, no fim, ainda dá indícios de uma guerra civil entre ela e Rick, que, inexplicavelmente, é apoiada por Jesus, justamente quem sempre viu uma forma de resolver tudo pacificamente. Dito isso, podemos afirmar que artificial é a palavra que melhor define esse finale da oitava temporada.

Não podemos, contudo, esquecer de outra palavra mágica que resume tudo muito bem: desperdício. Primeiro temos a já falada interrupção do diálogo entre Rick e Negan, a favor da violência descerebrada. Segundo, o esquecimento de Enid, que poderia desempenhar um papel maior, considerando sua proximidade com Carl. Por fim, o banimento de Dwight, que poderia ser usado para mostrar que Daryl, enfim, aprendeu a perdoar, mas que apenas é ejetado da série, até segundo aviso, soando como uma tentativa de amarrar todas as pontas soltas às pressas, possivelmente jogando fora episódios e mais episódios de construção de personagem, tanto em relação a Dwight, quanto a Daryl.

Aliás, é impressionante como a direção de Greg Nicotero falha em aproveitar os momentos mais emocionais do episódio, sempre ocultando o rosto dos personagens quando não deveria, além de quebrar qualquer chance de um maior suspense. Isso, aliado de uma montagem que corta sequências muito antes da hora (vide os momentos finais do episódio, com Rick e Carl andando lado a lado), tira grande parte do impacto de inúmeras cenas, prejudicando nosso aproveitamento e, em última análise, fazendo do capítulo algo pobre visualmente, mesmo com a metáfora óbvia dos dois caminhos possíveis simbolizados pelas placas (uma quebrada e outra inteira) na árvore na qual Rick se apoia.

Com isso, The Walking Dead encerra essa sua terceira fase (considerando a de Frank Darabont como a primeira e a de Mazzara como segunda) com altos e baixos em igual medida. Por um lado temos a redenção de inúmeros personagens, por outro, tais redenções são realizadas de maneira artificial, ainda que dentro da previsibilidade. Um término bastante às pressas que segue duas temporadas da mais pura enrolação – uma grande ironia que reflete a necessidade da troca de showrunner, que possivelmente, pode injetar nova vida ao seriado, da mesma forma que Scott M. Gimple fez há anos atrás. Resta torcer para que esse novo começo não seja o início do fim.

The Walking Dead – 8X16: Wrath — EUA, 15 de abril de 2018

Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Greg Nicotero
Roteiro: Scott M. Gimple, Angela Kang, Matthew Negrete
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Lauren Cohan, Danai Gurira, Melissa McBride, Lennie James, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Ross Marquand, Jordan Woods-Robinson, Katelyn Nacon, Jason Douglas, Tom Payne, Xander Berkeley, R. Keith Harris, Khary Payton, Karl Makinen, Logan Miller, Austin Amelio, Christine Evangelista, Steven Ogg, Jeffrey Dean Morgan, Seth Gilliam
Duração: 48 min

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