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Uma vez me disseram que a cena de abertura de um bom filme era uma de suas partes mais importantes. Ela deve ter o poder de atrair quem começa a assistir e incentivar-nos a ficar até o fim. Toy Story 3, seguindo essa linha, começa com tudo ao mexer com nossa nostalgia em uma setpiece de faroeste estrelada por Woody Pride, nosso xerife favorito. Ele e o Sr. Cabeça de Batata combatem um ao outro, o segundo um vilão digno de um western de respeito – quer personagem melhor para se prestar à esse papel, se não o mesmo cara que sempre é o primeiro a questionar as decisões tomadas pelo cowboy?

Quando pensamos que a luta está perdida para o lado do bem, aparecem Jessie montada no fiel Bala no Alvo e então um imponente Buzz Lightyear. A cena introduz nossos personagens favoritos um à um e, aos poucos, as coisas vão ficando bizarras, com direito à uma nave espacial em formato de porco e elementos de sci-fi. Este é quase um pequeno curta Pixar dentro do filme principal, se revelando então ser uma brincadeira de criança vista pela mente ativa do pequeno Andy, que a transforma em realidade.

Porém o filme não conta a história do pequeno Andy e seus brinquedos, como foi o caso de seus dois predecessores. Muito pelo contrário: o foco agora é um futuro distante do que foi apresentado antes, onde as crianças já estão crescidas. Uma coleção de clipes caseiros delimita a passagem do tempo, um recurso fofo que, novamente, remete à nostalgia que esse capítulo da trilogia procura enfatizar. Essas cenas são regidas pela icônica Amigo Estou Aqui – em inglês, a frase “as years go by our friendship never die” (conforme os anos passam, nossa amizade nunca morrerá, em tradução livre) é cantada no momento em que as brincadeiras dão lugar à Woody e seus amigos encolhidos em um baú antigo, após o passar dos anos… esquecidos.

15 anos depois

A realidade é que, assim como os espectadores, Andy cresceu. De 1995, ano da estreia de Toy Story, para 2010, quando o terceiro filme foi lançado, se passaram 15 anos. Agora o menino que conhecíamos está prestes a ir para a faculdade. Essa é uma jogada de mestre da equipe da Pixar, igualando a idade do personagem àqueles que assistiram ao primeiro filme nos cinemas. A identificação, afinal, é uma arma poderosa para envolver o espectador. Assim, Toy Story 3 já fisga a segunda fatia de seu público – a nova geração já havia sido conquistada na cena lúdica da abertura -, que irá passar o filme todo refletindo sobre o fim da infância e o destino dos nossos brinquedos quando crescemos.

Não importa o quão comprometidos estejamos com a vida adulta, todos sentimos saudades da infância e a ruptura entre as duas fases não é simples ou indolor. Mesmo já tendo até terminado a faculdade, meus ursinhos de pelúcia continuam em uma caixa na última prateleira do meu armário, sem que eu tenha coragem de me desfazer deles. Andy tinha uma opção parecida: jogar seus antigos companheiros fora, ou guardá-los no sótão. A escolha difícil termina no rapaz colocando Woody na mala que levará consigo, um sinal de que ainda não está preparado para deixar sua infância completamente de lado, e os outros brinquedos vão para um saco preto que será colocado no sótão.

Se fosse simples assim, esse seria o fim do filme. Porém, é só o menino se distrair por alguns momentos para o saco ser confundido pela mãe do rapaz e os brinquedos, desesperados, serem deixados juntos às latas de lixo – crentes, também, de que esse era o destino que Andy pretendia dar à eles. Escapando por um triz de serem pegos pelos lixeiros – cortando o saco usando o rabo pontudo de Rex! – eles entram em uma caixa de doações para uma creche. Desesperado para fazer seus amigos entenderem que não foram descartados por seu dono, Woody foge da caixa destinada à faculdade para encontrá-los.

Se funciona…

O roteiro parece familiar? Oras, é porque é mesmo: assim como as outras edições da franquia, Toy Story 3 segue uma narrativa bem linear focada em uma grande confusão. Erros cometidos, há uma missão de resgate quase impossível e uma grande fuga, como acontece no primeiro filme na casa de Sid, no segundo com o colecionador Al e agora, da creche Sunnyside. A Pixar escolhe não mexer em time que está ganhando, e consegue fazê-lo bem, na verdade. O que poderia ser monótono acaba mantendo a identidade Toy Story e forçando o roteiro à transformar-se em engenhosidades que nos causam diferentes emoções o tempo todo, das lágrimas aos risos – e então lágrimas novamente.

O time todo chega à Sunnyside: Woody, Buzz, Slinky, Rex, Porquinho, Jessie, Bala no Alvo, Barbie, Sr. e Sra. Cabeça de Batata e os três extraterrestres. De primeira eles acreditam que encontraram um verdadeiro paraíso, principalmente quando o urso de pelúcia Lotso conta que ali eles sempre terão novas crianças com quem brincar. O cowboy, acreditando na felicidade dos amigos, tenta voltar para casa e é encontrado por uma garotinha – uma oportunidade de trazer ainda mais desenvolvimento ao personagem, que repensará um pouco seu destino enquanto se divide entre voltar para casa ou reencontrar os outros brinquedos ao descobrir que Sunnyside é um pouco diferente do que parece inicialmente.

Enquanto Woody vive sua própria jornada, fiel ao objetivo de mostrar aos companheiros que Andy não os abandonou, os outros brinquedos conhecem melhor os residentes de Sunnyside.  

Entre os novos personagens, Lotso e Ken são os mais marcantes, por motivos completamente opostos. Ken causa risos com facilidade, apaixonado por Barbie e obsecado em provar que não é feito apenas para meninas. Já Lotso é o primeiro vilão importante da franquia sobre brinquedos que é, pasmem, um brinquedo. Enquanto os heróis sempre foram os personagens de plástico e tecido, os vilões dos outros dois filmes eram humanos. A mudança traz também uma nova maneira de se enxergar esse personagem. Antes, havia certo distanciamento do lado anti-heroico, salvo o arco de redenção de Woody no primeiro filme e Pete no segundo (que mal contam, pois nenhum chegou a ser um vilão real). Dessa vez mergulhamos fundo na história do ursinho de pelúcia em uma sequência amarelada de flashbacks, descobrindo inclusive a raiz de toda a sua amargura, à ponto de sentirmos pena dele. A pena logo desaparece.

Nem tudo que reluz é ouro

Entre os três filmes da franquia, esse é o mais cheio de detalhes – obviamente um resultado do avanço tecnológico, já que Toy Story foi o percursor dos longas de animação 3D e em 15 anos muito pode ser feito para melhorá-la. Além da expressividade dos personagens, tanto brinquedos quanto humanos – Toy Story 3 seria assustador se todas as crianças da creche tivessem a mesma carinha da irmã de Andy no primeiro filme – os cenários se tornaram mais cheios e reais.

Continuamos a acompanhar as mudanças na personalidade de Andy pela decoração de seu quarto, por exemplo. Conhecemos a creche durante o dia como um local colorido e lúdico, e durante a abundância de cenas noturnas somos apresentados aos seus lados mais sombrios, com ares de presídio. O jogo de luz é bem aproveitado, dando dramaticidade à certas cenas. Quando os brinquedos de Andy descobrem a verdadeira face de Lotso, o urso é iluminado por trás, de forma que sua silhueta é delineada por um anel de luz que o destaca. Enquanto isso, Jessie e seus companheiros estão ou tomados pela sombra, ou suavemente iluminados. Isso demonstra as relações de poder entre os personagens – com Lotso claramente em vantagem, os outros brinquedos sujeitos à sua vontade.

Em seguida, Buzzlightyear surge das sombras para luz, revelando uma nova personalidade. Capturado por Lotso ao tentar descobrir o que realmente acontecia em Sunnyside, o patrulheiro espacial foi restaurado à sua versão de fábrica, sem nenhuma de suas memórias na casa de Andy. Dessa forma, o vilão consegue transformar um de nossos heróis favoritos em um de seus capangas, colocando-o contra seus amigos. Sorte dele que os brinquedos de bobos não tem nada. Ao tentar recuperá-lo, eles transformam Buzz em uma versão galante com sotaque espanhol de patrulheiro espacial, e assim ele permanece fazendo graça até as cenas finais.

O único defeito – que não é realmente um defeito, mas deixa uma sensação “agridoce” quanto ao filme – é que Toy Story 3 não deixa o espectador descansar. Ele é frenético, sem parar desde o momento em que somos apresentados à creche. A partir daí, da fuga de Woody, para sua volta em resgate aos amigos e os desafios do final do filme, não há momentos desacelerados como dos dois primeiros, à exemplo da cena em que Buzz percebe que não pode voar.

A cena tensa do incinerador, continuando nessa linha de pensamento, nos faz chorar – mas é acompanhada de uma música pulsante que acompanha as batidas do coração e nos deixa nervosos na ponta da cadeira esperando o desfecho – que é ótimo, por sinal, dando sentido aos três personagens mais fofinhos e ao mesmo tempo inúteis de Toy Story.

Até que chega o fim – depois do encontro de Woody com os amigos, da revelação do passado de Lotso e então da efetivação de uma escapada. Aí nosso desafio se torna superar os soluços. Não haveria maneira melhor de fazer jus à uma franquia que marcou gerações que uma passagem da tocha, um ato simbólico de como nós não só entregamos Toy Story à geração seguinte, como também o fim da trilogia dá lugar à novos longas animados destinados à novas crianças.  

Toy Story 3 (Idem, EUA – 2010)

Direção: Lee Unkrich
Roteiro: John LasseterAndrew Stanton, Lee Unkrich e Michael Arndt
Elenco: Tom Hanks, Tim Allen, Ned Beatty, Michael Keaton, Joan Cusack, Kelsey Grammer, Don Rickles, Jim Varney, Wallace Shawn, John Ratzenberger, Annie Potts, John Morris
Gênero: Animação
Duração: 103 min.

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