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Paul Thomas Anderson nunca fez um filme igual ao antecessor. Começou com a indústria pornográfica dos anos 70 com Boogie Nights: Prazer sem Limites, explorou as conexões entre múltiplas vidas com Magnólia, descobriu o potencial dramático de Adam Sandler em uma comédia romântica existencialista com Embriagado de Amor, forneceu um poderoso estudo sobre a cobiça e a indústria do petróleo com Sangue Negro, uma sátira sobre a formação da igreja da Cientologia com O Mestre e um film noir stoner com Vício Inerente. Basicamente, isso nos mostra apenas como é impossível prever o que PTA fará em seguida, visto que seu olhar parece abordar algo completamente diferente em suas incursões cinematográficas. Eis que Trama Fantasma, seu novo filme, nos surpreende novamente pela escolha do tema, e assim como nos casos citados anteriormente, oferece um resultado fantástico e original.

A trama nos leva para os anos 50, e gira em torno do conceituado estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis), cuja vocação pela arte da costura o transforma em um sujeito reservado e até solitário, dividindo a casa com sua irmã Cyril (Lesley Manville). Tudo muda quando Woodcock conhece Alma (Vicky Krieps), uma garçonete na qual ele enfim enxerga sua musa definitiva, passando a usá-la como modelo de suas novas confecções. Mas, enquanto Alma vai se apaixonando perdidamente por Reynolds, sua postura fria e visionária parece não ceder espaço para um relacionamento amoroso.

A dobra no tecido

Confesso que não estava tão ansioso para conferir o novo filme de PTA. O tema definitivamente não ajudou, e nenhum dos trailers da campanha da Universal conseguiu torná-lo instigante. Mas é compreensível, pois Trama Fantasma é uma obra difícil de se vender, com os meros nomes de PTA e Daniel Day-Lewis sendo o suficiente para atrair os cinéfilos. Felizmente, o diretor e roteirista consegue captar nosso interesse logo de primeira, concentrando boa parte do ato inicial na confecção e introdução de Woodcock, com PTA oferecendo diversas cenas e planos que servem puramente para apresentar o personagem e suas manias, comportamentos e habilidades. Através de uma prosa absolutamente impecável, que preserva a sofisticação e eloquência do inglês londrino da alta sociedade, Anderson oferece diálogos fabulosos entre os personagens, e rapidamente estes se tornam reais; Woodcock se referir à sua irmã como “minha cara fulana de tal” em todos os seus encontros é um artifício que ajuda a estabelecer um elo entre os dois, tornando-os tridimensionais.

De início, parece ser apenas a história do apreço de um homem por sua obra, do tipo que já vimos inúmeras vezes no subgênero do artista obssesivo, mas acaba se revelando algo muito mais estranho e fascinante ao se concentrar na relação de Woodcock e Alma. É uma construção que trilha caminhos esperados, mas os subverte completamente ao mergulhar na psique do protagonista; a “linha” fantasma que o título sugere; não por acaso, o nome da moça que enfim sacode o mundo de Woodcock é justamente “alma”. É algo difícil de se analisar sem mergulhar em spoilers, mas basta dizer que PTA opta por explorar algo original e que subverte nossas expectativas, especialmente por nos fazer acreditar que uma ação que determinado personagem toma – ainda mais por sua natureza – seria danosa, mas acaba sendo a chave para que tudo faça sentido nesse bizarro estudo de personagem. Se você ouviu comparações com Cinquenta Tons de Cinza por aí, saiba que não estão totalmente equivocadas. Mas não temam, porque PTA está no comando da situação, e mesmo que a história se alongue e quebre a convenção de atos, todos os nós são bem amarrados no poderoso desfecho, que só deve amadurecer melhor com o tempo.

Faces do direito, sem avesso

Anunciado como o longa final de Daniel Day-Lewis, digamos que se esta realmente for a aposentadoria do lendário ator, ele pendura as chuteiras em grande estilo. Adepto do método, esse estilo de preparação de elenco geralmente serve apenas para garantir aquelas manchetes sensacionalistas (estou olhando para você, Jared Leto), mas há pequenas nuances na composição de Day-Lewis que nos permite enxergar um nível realmente válido do processo: sempre que temos closes dos dedos do ator costurando, vemos diversos ferimentos que definitivamente foram provocados por agulhas, visto que o ator passou um tempo realmente costurando e confeccionando vestidos. Esse tipo de detalhe contribui para sua construção, baseada em uma voz suave e eloquente, com uma fala sempre marcada por sua educação, que não se extingue mesmo quando Woodcock precisa ser mais severo; perdendo a paciência com suas assistentes, mas desculpando-se logo após a bronca. Alma e Cyril são as únicas capazes de desarmá-lo, a irmão servindo mais como uma sombra projetada que provoca intimidação, e a musa por não se curvar a seus modos e constantemente desafiá-lo, e a agressividade de Woodcock surge como um mecanismo de defesa de um sujeito que muito provavelmente se feriu no passado, e que ainda sente o buraco deixado pelo falecimento de sua mãe. Uma performance admirável, como a maioria de seus trabalhos.

Day-Lewis é o centro das atenções aqui, mas as duas atrizes que compõe o núcleo ao seu redor são tão boas quanto. A começar pela nova Vicky Krieps, atriz de Luxemburgo que tem a hercúlea tarefa de dividir a maioria das cenas com Day-Lewis: é Rocky Balboa contra Apollo Creed, literalmente, e assim como o boxeador de Stallone, Krieps se sai maravilhosamente bem. Seu sotaque único confere uma sonoridade exótica e misteriosa para Alma, e essa talvez seja uma das personagens mais bem escritas por PTA. Quando começa a notar sua inevitável jogada para escanteio por Woodcock, Alma demonstra uma variedade de emoções, com reações partindo do esperado (a melancolia) até algo completamente radical, e que simplesmente não posso revelar aqui.

Kriepes é fantástica, e Lesley Manville faz por merecer sua indicação ao Oscar, tornando Cyril uma mulher silenciosa, mas rígida, e a única capaz de bater diretamente com Woodcock e vencer. A forma como ela diz “não tente começar um confronto comigo, vou te deixar estirado no chão” ao protagonista é simplesmente sublime, e é fascinante reparar nas sutis mudanças em seu rosto que vão refletindo sua mudança de atitude em relação à Alma: quando percebe que a moça simplesmente não vai desistir de Woodcock, sua expressão severa sutilmente revela uma compreensão, e até mesmo um olhar de admiração, como se Alma a tivesse vencido pelo cansaço.

Acabamento de alto nível

Na direção, Paul Thomas Anderson novamente demonstra seu domínio de mise en scene, e como seus quadros sozinhos contam a história. Em um dos pontos de virada mais importantes da história, Woodcock senta-se com Alma em um sofá; o enquadramento bem aberto revela os dois na mobília, com um impecável vestido de noiva da linha do protagonista ocupando grande parte da tela, levemente em primeiro plano a fim de este parecer “maior” do que os personagens. À medida em que o diálogo progrede, o costureiro vai enfim revelando um lado mais afetivo e aberto a algo próximo de uma relação, e a câmera de PTA lentamente vai se aproximando dos dois, fazendo com que o belo vestido vá sumindo do quadro aos poucos. Através desta bela mise en scéne, a mensagem é clara: Woodcock encontrou outro amor, além de sua arte.  O enquadramento fecharia perfeitamente a história, mas PTA nos engana e continua as engrenagens girando por mais uns bons 30 minutos, e mesmo com o ritmo alongado, nos leva pela mão para uma progressão da história que remete até mesmo a trechos de Cidadão Kane.

PTA até usa truques simples, mas que acabam sendo esquecidos pela maioria dos realizadores, que são a total base do cinema. Por exemplo, quando Alma senta-se com Woodcock e Cyril para tomar café da manhã, logo após a primeira noite de amor dos dois, sua autoconfiança é bem refletida pelo design sonoro. O simples ato de uma faca passando manteiga em uma torrada é traduzido com um efeito sonoro altíssimo e desconfortável, que quebra a concentração de Woodcock, fixado em seu novo rascunho. Os sons de talheres batendo e da jovem mastigando também ecoam de forma desnatural, ajudando a criar o clima indelicado da refeição, e PTA ainda se diverte quando Woodcock morde um bagel e não ouvimos um pio qualquer da mordida, já estabelecendo a diferença dos dois através de foley inspirado.

Parte do time da película em Hollywood, PTA mais uma vez abraça o 70mm a fim de garantir o grão mais forte e uma estética próxima ao cinema da década de 70. Curiosamente, Anderson não contou com um diretor de fotografia para o projeto, trabalhando a luz pessoalmente com o auxílio da equipe, e não creditando ninguém – nem ele mesmo – para essa função nos créditos. É um trabalho competente e que garante uma paleta de cores predominantemente fria e desbotada, com belos feixes de luz para ilustrar os processos criativos de Woodcock; em especial o ensaio de fotos com Alma trajando os novos vestidos. A luz comporta-se de forma mais marcante com Alma, como no belo momento em que ela recupera o vestido de Barbara Rose (Harriet Sansom Harris, em uma performance deliciosamente odiosa), clamando que ela não era “digna da casa de Woodcock” por não se comportar apropriadamente enquanto traja o vestido, e uma luz fortíssima incide sobre sua cabeça, quase cegando a lente. É um momento de paixão de Woodcock por sua musa, que defende sua Arte como se fosse dela própria, tanto que o costureiro lhe planta um beijo caloroso na cena seguinte.

Outro aspecto fortíssimo do longa é a trilha sonora de Jonny Greenwood. Colaborador leal de PTA desde Sangue Negro, o guitarrista do Radiohead oferece seu trabalho mais “convencional” para a saga dos Woodcock. Se antes Greenwood apostava no abstrato e minimalismo, servindo à proposta daquelas obras, aqui ele adota um lado bem mais clássico e erudita, com uso predominante de piano e violino. Mais do que belas melodias pontuais, o trabalho de Greenwood acompanha praticamente todas as cenas da projeção, sendo um filme inteiramente movido a música, e que acentua com perfeição os pontos de virada e momentos chave da narrativa, no melhor estilo do cinemão clássico. Se não funciona isoladamente, fornece o ritmo apropriado para a história, além de corroborar a delicadeza de seu protagonista.

Definitivamente um dos trabalhos mais sofisticados e maduros do diretor, Trama Fantasma é um filmaço que explora temas conhecidos de uma forma original e incapaz de ser prevista. Com um elenco afiado, um roteiro acertado e a condução sempre magistral de PTA, esta é uma obra tão bem refinada e costurada que até mesmo Renyolds Woodcock ficaria impressionado – e conhecendo-o, certamente correria para tirá-la de da presença de outros filmes Hollywoodianos, por temer não merecê-la.

Trama Fantasma (Phantom Thread, EUA – 2017)

Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville, Sue Clark, Joan Brown, Harriet Leitch, Harriet Sansom Harris, Brian Gleeson
Gênero: Drama
Duração: 130 min

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