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Ainda à mesma casa que o “revelou” para o Brasil, retorna Paul Vecchiali, pelo quinto ano consecutivo, depois de Noites Brancas no Píer, com seu novo filme Trem das Vidas ou As Viagens de Angélique.

A cada longa, o diretor francês experimenta uma nova economia cênica e dramática que impacta pela precisão e pela qualidade de suas escolhas. Em Os 7 Desertores – seu filme anterior e complementar a este – o cenário era de um refúgio campestre em um mundo assolado pela guerra, no qual um “slasher” metalinguístico tomava corpo por meio da troca das experiências de vida entre as personagens. Se a economia cênica já era forte neste, aqui, em Trem das Vidas, seu rigor é ainda maior. Duas poltronas de diferentes trens, nem sempre ambas ocupadas, chocam-se contra um único contracampo, de paisagens vistas por uma janela.

A cada um dos doze movimentos desse filme “composto” por Vecchiali – à maneira de Godard em Salve-se Quem Puder (A Vida) –, acompanhamos episódios isolados da vida de Angélique (Astrid Adverbe), sempre em movimento, como os vagões. Partimos de uma aparente viagem banal da personagem, a princípio sozinha, conversando com uma amiga pelo celular. Não tarda para ela conhecer Henri Lemoine (o próprio Paul Vecchiali saindo de trás da câmera para abrilhantar a trama com seu humor sutil), que se senta ao seu lado, e liga para o filho, Olivier (Pascal Cervo), anunciando que acabou de encontrar no trem a renomada bailarina Angélique, sua paixão maior.

A partir de então, a protagonista, sempre sem casa e sem rumo, contará com a companhia de sua amiga Clarisse, do pai e da mãe (Brigitte Roüan) de Olivier, e de outras personagens que surgem ao acaso. Seja para contar uma anedota, um conto erótico ou para performar uma conversa casual sem rumo, Vecchiali (ator-autor) e seu elenco (a graça de Adverbe, sobretudo) constróem uma locomotiva movida pelo poder da palavra, sempre a serviço dos afetos mais espirituosos e passionais.

Em um fluxo suspenso, prisioneira do eterno movimento, Angélique sai de uma desconhecida, para tornar-se estrela, mulher de plenas aventuras sentimentais e sexuais, até descer a um luto demorado e retornar a si mesma. Apesar de trazer sempre os mesmo atores ao longo do filme, as elipses sugerem uma história que se estende por dezenas de anos.

Como já é costume em suas narrativas, Vecchiali segue um percurso linear clássico, sem deixar de ser absolutamente moderno e radical, e recusar qualquer tipo de intelectualidade. Não se engane, Vecchiali é o mesmo de É o Amor, O Ignorante, Rosa la Rose, Garota de Programa e tantos outros. Não saiu de um cineasta independente, preocupado a liberdade, principalmente a sexual, para um defensor dos costumes e da objetificação da mulher. Percebe-se a mesma violência de É o Amor nos momentos mais crus, em que Angélique parece não reagir mais ao mundo e aos abusos dos homens. Resta, senão, indiferença a esse corpo em conflito, incapaz de lidar com a morte do marido.

Seu cinema encanta pela simplicidade em que conduz um drama tão antigo a quatro paredes, fazendo a rigor muito pouco para interferir no olhar do espectador, senão na própria construção de um palco, a ser atravessado por sonhos e desejos, por palavras e coisas.

Ao apostar na fidelidade e na frontalidade que por vezes só o verbo pode conferir (só mesmo uma conversa franca entre duas mulheres experientes para revelar a libido, a sexualidade sem amarras e ainda problematizar isso de forma crua sem cair em moralismos interditos), Vecchiali apresenta “mais uma obra” ácida, com disposição e fôlego para relembrar da sensibilidade que, por ora, parece nos faltar.

Trem das Vidas ou A Viagem de Angélique (Train de vies ou les voyages d’Angélique, França – 2017)

Direção: Paul Vecchiali
Roteiro: Paul Vecchiali
Elenco: Astrid Adverbe, Paul Vecchiali, Marianne Basler, Ugo Broussot, Brigitte Roüan, Pascal Cervo, 
Bruno Davézé, Jean-Philippe Puymartin e Simone Tassimot
Gênero: Drama
Duração: 76 min.

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