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O pai dos blockbusters, hoje tido como um dos maiores exemplares do gênero do suspense no Cinema, Tubarão, poderia ter sido um filme completamente diferente, não fossem os extensos problemas na produção enfrentados por Steven Spielberg e sua equipe. O ainda jovem diretor, nesse seu segundo longa-metragem a ser lançado nos cinemas, tinha ambiciosas intenções em relação a essa adaptação do romance de Peter Benchley, incluindo filmar diversas sequências no mar e trabalhar com tubarões mecânicos a fim de realmente poder mostrar a criatura em tela.

Felizmente, alguns males vêm para o bem e as dificuldades da produção, especialmente no que diz respeito às criaturas mecânicas que apresentaram mal-funcionamento em repetidas ocasiões, transformaram o que poderia vir a ser um filme B no atemporal suspense que conhecemos hoje. Tirando páginas do livro de Hitchcock, Spielberg construiu mais com menos, apoiando-se no som, no silêncio e no não-visto para criar essa que se tornaria uma das mais importantes produções do Cinema, que revolucionaria a indústria, dando origem à Hollywood que conhecemos hoje.

crítica tubarão

Simplicidade acima de tudo

O roteiro de Peter Benchley e Carl Gottlieb reflete a intenção do diretor em simplificar a trama o máximo possível. Spielberg queria tirar as subtramas do livro original e focar quase que exclusivamente nos ataques do tubarão e na caçada à criatura e é justamente isso o que vemos na obra. Tubarão não abre espaço para devaneios ou até mesmo construção de personagens que não sejam aqueles estritamente imprescindíveis para a trama geral. Trata-se de uma obra extremamente linear cujo óbvio e principal objetivo é criar a tensão no espectador – o que há de revolucionário aqui não é a trama e sim a maneira como ela é apresentada na trama.

Dito isso, podemos resumir o longa-metragem de maneira bastante simples: quando um tubarão ataca uma mulher em Amity, uma ilha cuja principal fonte de renda é o turismo no verão, o chefe de polícia, Martin Brody (Roy Scheider) logo anseia por fechar as praias. Contrariado pelo prefeito (e outras figuras políticas), que se preocupa com a renda do local nesse período do feriado de 4 de Julho, Brody só consegue o que quer quando mais pessoas são atacadas por essa violenta criatura. Acompanhado pelo oceanógrafo Matt Hooper (Richard Dreyfuss) e o capitão Quint (Robert Shaw), ele deve caçar o tubarão e acabar com o animal antes que ele tire a vida de mais pessoas.

Assim sendo, o texto jamais permite que o espectador distancie seu pensamento da criatura-título, em todo e qualquer momento ela aparece nos diálogos dos personagens, seja direta ou indiretamente. Ponto esse utilizado para gerar aquela angustiante raiva em relação aos personagens que se preocupam mais com a renda da cidadezinha do que com a segurança dos banhistas, aspecto que, claro, somente aumenta ainda mais a sensação de perigo gerado pelo animal. Além disso, Spielberg precisava mostrar algumas mortes e ataques para criar o medo no espectador, além de sedimentar a linguagem usada durante o filme, ponto crucial para o funcionamento do clímax, que depende quase que exclusivamente do silêncio e da “tranquilidade” para ser tão efetivo.

Importante notar, também, como a obra é construída a partir de atos muito bem definidos, o que poderia gerar uma narrativa fragmentada, nas mãos de um menos talentoso diretor, mas que acaba sendo essencial para a renovação dessa experiência. Quando vemos que a fonte está prestes a secar, o filme nos leva para o alto mar, tendo sua atmosfera significativamente transformada, de tal forma que nossa atenção é recobrada antes mesmo de ser perdida – deixando bem claro o quanto Spielberg entende sua audiência.

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A construção do suspense

Chegamos, pois, ao que torna Tubarão o que ele é: a magia do Cinema. Como dito antes, Spielberg foi forçado a fazer mais com menos, ele não poderia mostrar muito a criatura em razão dos inúmeros problemas com os tubarões mecânicos e a maneira encontrada para contornar esse percalço foi justamente fazer um filme de suspense, que apenas dá a entender que a criatura está perto, mostrando-a muito pontualmente, sempre em perseguição, similarmente ao que fizera em Encurralado.

Com planos ponto-de-vista do animal, alternando entre focos nos banhistas ignorantes ao perigo, Spielberg deixa bem claro o que está para acontecer. Logo na cena inicial sabemos que o ataque é iminente, tamanha a eficaz simplicidade da direção. Quando os ataques, enfim, ocorrem, também não vemos o ser, apenas a vítima se debatendo ou sendo tragada pelo mar, seguido de um literal banho de sangue, com o vermelho, praticamente não utilizado em qualquer outro contexto (seja no figurino ou nos cenários) do filme, sobressaindo, gerando, assim, o impacto necessário na audiência, que automaticamente assimila o tubarão ao perigo.

Importante notar, também, como o diretor entende que a reação, tanto dos personagens centrais, quanto dos secundários e figurantes é essencial para toda essa construção. Retomamos as influências de Hitchcock e o óbvio paralelismo com Psicose, que em sua mais emblemática sequência mostra somente a vítima e jamais o assassino, transferindo o terror da personagem para o espectador, que logo se coloca no seu lugar. No caso de Tubarão ainda há o agravante de estarmos lidando com a natureza e o próprio teor de mistério do fundo do mar – o desconhecido, o não-visto como fundamental medo do ser humano.

É, portanto, através da reação do chefe de polícia Martin Brody que Spielberg o define como protagonista – ele é um dos únicos a reconhecer o perigo ali presente e nos faz enxergá-lo como uma das únicas pessoas sensatas daquela ilha, algo que chega a ser exprimido em diálogo entre ele e o oceanógrafo Matt Hooper.

Não por acaso, o diretor dedica o que talvez seja o mais emblemático plano da obra para esse personagem, quando ele, sentado na praia, vê o segundo ataque acontecendo, enquanto a profundidade do campo se altera, basicamente colocando em palavras ‘eu estava certo’. Um plano de se arrepiar, que delineia o caminho a ser seguido no restante da obra e que, ao mesmo tempo, define perfeitamente o medo do policial em relação ao mar.

O coup de grâce na audiência é o fato de tudo isso soar extremamente real, fruto da escolha por atores não tão conhecidos à época. Spielberg notadamente fugiu de grandes astros de Hollywood para os papéis nesse seu filme, possibilitando que o espectador enxergue cada um dos personagens como pessoas, de fato e não atores desempenhando seus respectivos papéis, permitindo que, ao ver aquela praia sendo atacada, vejamos qualquer outro lugar mais próximo de nossas individuais realidades, aumentando, portanto, o impacto da obra.

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A trilha sonora como personagem

Como dito pelo próprio Spielberg, Tubarão não seria nem metade do que é sem a impactante trilha sonora de John Williams e sua música tema minimalista, que não somente representa a criatura, ela é o tubarão em si. Acompanhando os já mencionados planos ponto-de-vista, a emblemática melodia substitui perfeitamente o ser que não aparece, na maioria das vezes, na imagem e ensina o espectador, logo cedo, que quando ouvimos tais tons, quer dizer que o animal está próximo.

Trata-se de um processo até bastante didático, ao passo que Spielberg passa a minimizar o uso desses planos e deixa nas mãos de Williams a ideia desse terror marinho estar chegando, por vezes colocando na imagem apenas a barbatana do tubarão, que, a esse ponto, já traz consigo toda a necessária tensão à narrativa. Curioso, pois, observar como a simplicidade da imagem se estende para a trilha, que também trabalha com menos para atingir o melhor dos resultados, oscilando entre duas notas musicais para criar um dos temas mais facilmente reconhecíveis da Sétima Arte.

Observamos, então, a subversão de nossas expectativas, quando, no clímax, o diretor faz uso do silêncio para gerar o inesperado. Sem a presença do tema, vemos o tubarão atacar repentinamente, elevando a tensão às alturas, conseguindo o que qualquer jump scare nos terrores contemporâneos não consegue: deixar o espectador simplesmente paralisado, tudo enquanto praticamente ouvimos o tema sendo tocado, embora, na realidade, ele não esteja presente nesses específicos momentos.

Temos, aqui, uma verdadeira sensação de urgência e o completo discernimento de que qualquer um dos três personagens que saíram na caçada podem, de fato, morrer – o que, claro, acaba acontecendo com um deles, mimetizando o destino do capitão Ahab em Moby Dick, claramente uma das fontes de inspiração do romance original e do próprio filme, levando em conta a caracterização e a própria maneira de falar e agir de Quint., que alterna entre o marinheiro rabugento, velho brincalhão e o homem com um doloroso e traumático passado.

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Uma obra de arte atemporal

São todos esses elementos que nos engajam tanto à narrativa, permitindo que relevemos os pontuais planos, ao término da obra, que mostram mais do que deveriam, evidenciando as falhas dos tubarões mecânicos construídos. Nesse ponto, claro, Spielberg precisava mostrar a criatura e, em geral, tudo funciona plenamente, à exceção de alguns momentos que podemos ver nitidamente que não se trata de uma criatura viva. Nossa imersão, no entanto, é tamanha que não nos deixamos levar por isso, fruto daquela já falada urgência que veio sendo construída desde a primeira vítima.

Dito isso, Tubarão consegue se manter atual até os dias de hoje e, por mais que repetidas tentativas de replicar esse excepcional suspense tenham sido realizadas, nenhuma, de fato, conseguiu capturar a alma desse angustiante longa-metragem de Steven Spielberg. Trata-se de um fruto de todas as circunstâncias que envolveram sua produção e, claro, da visão de seu diretor, que soube nos proporcionar mais com menos, garantindo, assim, a atemporalidade de sua obra, que pavimentou o caminho da Hollywood atual.

De fato, alguns males vem para o bem e Tubarão é uma das maiores provas disso.

Tubarão (Jaws – EUA, 1975)

Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Peter Benchley, Carl Gottlieb (baseado no livro de Peter Benchley)
Elenco: Roy Scheider,  Robert Shaw, Richard Dreyfuss,  Lorraine Gary,  Murray Hamilton, Carl Gottlieb, Jeffrey Kramer, Susan Backlinie
Gênero: Suspense
Duração: 124 min.