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Depois de três episódios alucinantes, Twin Peaks tirou o pé do acelerador nesta quarta parte. De todos os episódios da nova temporada que já foram exibidos, este último é o mais linear do ponto de vista narrativo. Houve uma diminuição significativa na quantidade de símbolos e enigmas a serem desvendados pelo espectador, uma maior compactação nas cenas e um desenrolar mais frenético de eventos. No entanto, de maneira alguma isso significa que a qualidade do seriado decresceu. Pelo contrário, seguindo a tendência dos capítulos atuais, a quarta parte encontrou uma maneira única e própria de continuar surpreendendo o público.

Dando continuidade aos experimentos feitos no episódio passado com a comédia pastelão, a história começa acompanhando Dale Cooper nas suas peripécias físicas e financeiras por um cassino localizado no estado de Nevada. Nessa parte inicial, é importante ressaltar o fato de que são apresentados ao público alguns elementos da vida de Dougie Jones, como a sua esposa – que é interpretada pela atriz Naomi Watts – e o filho. Além disso, há uma passagem em que o Homem de um Braço Só diz para o protagonista que um dos Coopers terá de morrer (portanto, daí é possível decorrer que para não terem de retornar ao Black Lodge, os dois personagens perseguirão um ao outro).

Outros momentos que também merecem ser destacados positivamente, desta vez, por sua criatividade, são o surgimento do Wally Brando, o filho de Andy e Lucy, que é interpretado por Michael Cera e que, além de carregar o sobrenome de Marlon Brando, está vestido como o ator no filme O Selvagem da Motocicleta, e a cena devastadora em que, após descobrirmos que Bobby está trabalhando para a delegacia de Twin Peaks, ele chora ao ver a fotografia de Laura Palmer, enquanto, ao fundo, o inesquecível tema composto por Angelo Badalamenti toca pela primeira vez nesta nova temporada. Dos raros instantes de nostalgia provocado até então pelo retorno da série, este último é o mais emocionalmente avassalador.

No entanto, nada supera as brincadeiras metalínguisticas feitas por David Lynch ao longo do episódio. É impossível não ver em parte da conversa travada entre Gordon Cole e Denise Bryson, na qual eles dizem ser um prazer reencontrar velhos amigos, um comentário acerca da própria sensação do espectador ao entrar em contato novamente com personagens que ele não via há mais de 25 anos. A mesma coisa vale para o reencontro de Cole com o Cooper dopplegänger, no qual a sensação de estranheza do personagem é igual a nossa, e ao diálogo final, em que Cole, assim como nós, admite não estar entendendo nada do que está acontecendo.

Aliás, esse momento é um exemplo perfeito de como Lynch possui um domínio completo da técnica cinematográfica. Até agora, o diretor vem empregando constantemente planos gerais para situar a ação. Os planos mais fechados, típicos da linguagem televisiva, não estão sendo comumente usados. No entanto, na penúltima cena desta quarta parte, ele filma o diálogo dos dois personagens em grandes close ups, intensificando consideravelmente as expressões faciais de si mesmo e de Miguel Ferrer. O momento é hipnótico e gruda o espectador na tela. Por quê? Justamente pelo fato de que não é usado rotineiramente nos novos episódios. Por ser um elemento estranho e novo, é imensamente potencializado. Essa prudência na maneira de conduzir a linguagem costuma ser um símbolo de reconhecimento daqueles que são mestres da arte cinematográfica.

Assim, em razão do que foi dito, o que era para ser um episódio comum e descartável, nas mãos de Lynch se converteu numa oportunidade de flertar com coisas novas e diferentes. Se fosse em qualquer outra série, esta quarta parte seria um daqueles capítulos pouco relevantes que existem somente para movimentar a trama. Porém, em Twin Peaks, se transformou num brilhante exercício de linearidade (para um diretor tão onírico quanto Lynch, esse é um elogio e tanto) e de metalinguagem. Na nova temporada, nada é desperdiçado. O cineasta e a sua equipe se apropriam de cada elemento para enriquecer o universo da série. No final, quem sai ganhando é sempre o espectador.

Twin Peaks – 3ª Temporada: Parte 4 (EUA, 2017)

Criado por: David Lynch e Mark Frost
Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch e Mark Frost
Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Matthew Lillard, Grace Zabriskie, David Lynch, Richard Beymer, Ashley Judd, Russ Tamblyn, James Marshall, Mädchem Amick, Balthazar Getty, Ben Rosenfield, Naomi Watts, Michael Cera, Kimmy Robertson, Harry Goaz, Michael Horse
Emissora: Showtime
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 60 minutos cada episódio

Confira AQUI o nosso guia de episódios da temporada

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