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(No site Bastidores, variamos entre as notas 0,5 e 5. Porém, como o oitavo episódio da nova temporada de Twin Peaks revolucionou a televisão, nada mais condizente do quebrar com o padrão e revolucionar o nosso sistema de notas. Portanto, em vez de 5, darei 10. Afinal, este episódio merece)

Continuando exatamente do ponto em que o episódio da semana anterior parou, a oitava parte começa acompanhando o Dale Cooper dopplegänger (Kyle Maclachlan) e Ray (George Griffith), o seu parceiro traidor, enquanto andam de carro em direção a um destino desconhecido. Durante o trajeto, o primeiro percebe que está sendo rastreado. Perspicaz do jeito que é, faz com que os aparelhos que os perseguem sejam rapidamente eliminados. É assim, de uma maneira inteligente e quase imperceptível, que David Lynch nos fornece um foreshadowing do que sentiremos pelos próximos minutos: igual aos sujeitos que estavam rastreando Cooper e Ray, não saberemos onde estamos. Por um período determinado de tempo, perderemos o nosso GPS.

No entanto, antes de adentrarmos na sequência de cenas mais insana e visualmente impactante da história da televisão norte americana, vemos Cooper ser assassinado por Ray e o seu corpo se tornar uma espécie de altar ritualístico, venerado e tocado por personagens graxentos, cuja aparência cinematograficamente fantasmagórica traz à mente as ilusões visuais de Cidade Dos Sonhos. Instantes depois, o rosto de Bob (Frank Silva) surge. Por uns segundos, ele esteve fora do corpo do dopplegänger. As luzes e os mendigos somem, e Ray desaparece de carro nas entranhas de uma estrada perdida e misteriosa.

De repente, nos vemos na Roadhouse, acompanhando uma performance da banda Nine Inch Nails. Os membros do grupo vestem couro – como Cooper – e parecem ser um prenúncio da descida ao Inferno que nos aguarda. Numa entrega diabólica, Trent Reznor grita desesperançosamente sobre uma garota que foi embora para sempre. Ironicamente, a letra da canção contrasta com o que vemos em seguida: Cooper retornando à vida. Ao contrário da garota, ele não partiu eternamente. Está de volta, renascido das cinzas. Porém, para renascer, alguém precisa ter nascido e morrido, em primeiro lugar. Portanto, seja qual for a natureza do dopplegänger, é hora de irmos até a sua origem. E é isso que Lynch nos mostra. Mas nada – repito, nada – poderia preparar o espectador para o que estava prestes a acontecer.

A imagem do teste nuclear ocorrido em 1945 nas areias brancas do Novo México (e que, aliás, está representado num quadro encontrado na sala de Gordon Cole, interpretado pelo próprio Lynch) não só é um símbolo poderoso do impacto que sentiremos em breve, como pode ser a roupagem do evento histórico originador do Mal que assombra o Mundo desde então, ou do acontecimento que criou fendas entre diferentes planos espirituais. O que pode se dizer com um maior nível de certeza é que, após esse acontecimento, partículas parecem entrar em polvorosa, e a câmera desce a níveis cada vez mais profundos do centro da Terra, numa sequência repleta de violinos dissonantes e explosão de cores, remetendo à Origem do Universo em A Árvore da Vida, de Terrence Malick, e à viagem lisérgica de  2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

Posteriormente, depois de aparecer a tão mencionada loja de conveniência (seria esta a casa do Mal?), com o retorno dos personagens graxentos e numa construção que parece ter sido feita com elementos de técnica stop-motion, surge uma criatura feminina, similar com aquela que é vista no primeiro episódio da nova temporada, dando vida a vários ovos. Entre estes, há um que contém, mais uma vez, a face de Bob. Ou seja, o Mal que assombrará Twin Peaks foi concebido. A pergunta feita no início deste capítulo é, enfim, respondida.

Mas a jornada não para por aí. Assim como o Éden continha dentro de si o fruto responsável pela condenação da humanidade, da ebulição do maligno também surge a esfera do Bem. E, percorrendo sobre o mar da mesma maneira com que o Espírito Santo percorria sobre as águas no Gênesis bíblico, a câmera de Lynch vai parar num castelo ilhado, a residência, talvez, de Deus e de sua Eva. Ouvindo, através de um sino de igreja que toca constantemente, e vendo, por uma tela de Cinema, o nascimento/surgimento do Mal, o Gigante (Carel Strycken) gera, a partir de si mesmo, o esperma que, se juntando ao óvulo da Mulher (Joy Nash), é beijado/fecundado por esta e enviado à Terra através d’aquilo que parece ser tanto a trompa de uma fêmea quanto a boca de uma vitrola, igual a que os dois personagens tanto ouvem no seu Éden particular (a metáfora da concepção é muito parecida com a cena inicial de Eraserhead). Aqui, diferentemente da sequência em que o Mal se origina, os violinos deixam de dissonar e se juntam numa melodia harmônica e comovente.

Sabendo, talvez, que Laura Palmer (Sheryl Lee) seria a vítima das criaturas malignas que acabaram de nascer, eles a abençoam, da mesma maneira que Deus Pai enviou o seu único Filho para morrer e ser sacrificado. Afinal, não podemos nos esquecer que, depois de todos os sofrimentos que lhe abateram em Twin Peaks e no Black Lodge, em Twin Peaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer, Laura é salva por anjos divinos. O porquê disso ter acontecido pode estar inteiramente explicado na bonita cena deste episódio.

Agora, estamos de volta à Terra. Todavia, o ano é 1956. Novamente, os personagens graxentos surgem e aterrorizam a região do Novo México. Pedem cigarro para viajantes (a edição de som deste momento, no qual se escuta barulhos de eletricidade, é brilhante – aliás, a edição de som de todo o episódio é puro brilhantismo), assassinam dois empregados de uma rádio (é importante perceber que, no White Lodge, o disco toca, porém, nessa cena terrestre, um dos personagens malignos interrompe uma música cujos versos são sobre o fim do crepúsculo) e, ao emitirem comentários sobre se perder nas profundezas de um poço (o cavalo branco, constantemente visto na série, também é mencionado por ele), hipnotizam os ouvintes (neste momento, chama atenção os elementos dos anos 1950, tão adorados e referenciados por Lynch).

Ao mesmo tempo, um casal de adolescentes caminha pelas imediações. Seriam estes os pais de Laura, Dale, Bob ou outro personagem? O que sabemos é que um ovo, muito parecido com os ovos malignos concebidos pela estranha criatura (mas que também pode ser o resultado da esfera enviado pelo Gigante e pela Mulher), dá vida a um inseto que se aproveita do transe da adolescente (Tikaeni Faircrest) para invadi-la. Será que a garota será uma mãe virgem, como Maria, concebendo um filho por intervenção divina? Ou será diabólica? A resposta a essa pergunta ainda é um enigma.

Finalmente, depois de uma longa caminhada, chegamos aos segundos finais, nos quais o personagem maligno desaparece no meio da escuridão noturna e ouve-se barulhos de um cavalo. Com esse adeus, saímos do pesadelo magnificamente fotografado por Pete Deming, genialmente comandado por Lynch e nos afundamos em nossas camas, perplexos, assustados e maravilhados com o que acabamos de assistir. E de muitas dúvidas, apenas três certezas: do lado de cá da tela, tivemos uma experiência inédita em nossas vidas; do lado de lá, os presidentes de emissoras não fazem a menor ideia de como prosseguir; e no desenrolar natural da história televisiva, as coisas nunca mais serão as mesmas…

Twin Peaks – 3ª Temporada: Parte 8 (EUA, 2017)

Criado por: David Lynch e Mark Frost
Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch e Mark Frost
Elenco: Kyle MacLachlan, George Griffith, Frank Silva, Robert Broski, Trent Reznor, Tikaeni Faircrast, Xolo Maridueña, Atticus Ross, J. R. Starr, Carel Struycken, Joy Nash
Emissora: Showtime
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 60 minutos

Confira AQUI o nosso guia de episódios da temporada

 

 

 

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