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Enfim, uma das principais características artísticas de David Lynch reapareceu em Twin Peaks: a violência. Depois de ter surgido rapidamente na cena em que o dopplegänger de Dale Cooper (Kyle Maclachlan) assassina friamente a própria parceira, ela retornou com todo o seu horror em dois momentos distintos deste sexto episódio. No primeiro deles, o falecimento precoce de uma criança se junta à dor excruciante de uma mãe, em um breve instante no qual amor e morte se conectam de uma maneira comovente. Já no segundo, a violência aparece numa cena brutal e inquietantemente cômica. É importante lembrar que enxergar poesia e comicidade onde só deveria existir caos é uma característica compartilhada somente pelos artistas genuínos.

No entanto, não é apenas de violência que o sexto episódio se alimenta. Algo que também chama atenção é a capacidade que Lynch tem de compor simbolismos e foreshadowings. Geralmente, nos seus momentos mais insanos, eles costumam ser parte integrante da própria construção das cenas, ou seja, para compreendê-las, precisamos decifrar os seus enigmas. Esses momentos costumam ser recompensadores, mas aquele sentimento de descoberta não os acompanham. Em outras palavras, tudo está muito na cara. Agora, quando eles surgem sutilmente, exigindo a participação mais atenta do espectador, a sensação é incomparável (e isso vale para qualquer diretor).

Sendo assim, como não se regozijar no momento em que a inocência de Dougie (também vivido por Kyle Maclachlan) se vê refletida na de Sonny Jim (Pierce Gagnon) e a brincadeira com as luzes que se acendem e apagam (luz/escuridão) possibilita um paralelo simbólico com a existência simultânea de dois Dale Cooper, um bom e outro ruim? Além disso, essa cena também serve para revelar a Janey Jones (Naomi Watts) a ambiguidade de seu companheiro. Afinal, não é à toa que, justamente no instante que Dougie se diverte como uma criança, as suas traições vêm à luz e a esposa descobre sua infidelidade.

A mesma sensação de alegria vale para a composição cênica do diretor no momento em que Ike ‘The Spike’ Stadtler (Christophe Zajac-Danek) é apresentado. É um fato que, logo depois, ele surgirá novamente assassinando duas mulheres. No entanto, é importante perceber como, na sua introdução, o caráter do personagem já é antecipado pela presença de carne no prato e um pote de ketchup, além, é claro, do instante óbvio no qual manipula um picador de gelo. No caso do ketchup, há uma interessante rima visual envolvendo a sanguinolência da mencionada cena do assassinato. De fato, não há nada que foge da atenção de Lynch.

Já no que diz respeito à trama, os destaques ficam por conta da breve, mas importante participação de Laura Dern (a sua aparição soluciona um mistério que intriga os fãs há mais de 25 anos), o ressurgimento do personagem interpretado por Harry Dean Stanton (retomando uma importante subtrama do filme Twin Peaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer), a hilária participação de Balthazar Getty (as drogas voltam a entrar em Twin Peaks e a inocência promete ser mais uma vez perdida) e o desenvolvimento de Dougie, deixando cada vez mais claro que parece existir uma entidade bondosa o controlando. Aliás, na possibilidade desta ideia se confirmar, o fato de o Mundo e as pessoas estarem fazendo Dougie/Dale Cooper retornar ao seu antigo eu (o famoso café e o indefectível terno já deram as caras) é uma bonita mensagem de otimismo por parte de Lynch.

Com as últimas peças do tabuleiro sendo colocadas, Twin Peaks dá os retoques finais no seu primeiro ato. Aparentemente, quase tudo está a postos para o início do jogo. Portanto, se apenas na parte introdutória, nós já tivemos seis episódios memoráveis, o que esperar do  desenvolvimento da trama?! Assim como todas as obras de David Lynch, Twin Peaks é surpreendente, e qualquer tentativa de antecipar algo costuma ser em vão. Tudo o que nos resta é ansiar nervosamente pelos próximos capítulos.

Twin Peaks – 3ª Temporada: Parte 6 (EUA, 2017)

Criado por: David Lynch e Mark Frost
Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch e Mark Frost
Elenco: Kyle MacLachlan, Mädchem Amick, Naomi Watts, Michael Horse, Naomi Watts, Balthazar Getty, Robert Foster, Tom Sizemore, Laura Dern, Miguel Ferrer, Eamon Farren
Emissora: Showtime
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 60 minutos cada episódio

Confira AQUI o nosso guia de episódios da temporada

 

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