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Dizem que a realidade é mais estranha que a ficção em alguns casos. Obstinado a encontrar um caso como este, Sidney Lumet logo achou o que procurava: o bizarro assalto amador ocorrido no Brooklyn em 1972. Os detalhes e a motivação para que dois homens invadissem um banco e tentassem faturar uma grana impulsionaram a história na época como um grande “causo” americano.

Essa inusitada história rendeu um dos maiores clássicos da Nova Hollywood, mostrando como era possível apostar um orçamento firme em um diretor talentoso que certamente conseguiu trazer um resultado arrebatador nesse longa tão peculiar. Isso ocorre justamente por conta do clima único de Um Dia de Cão. Simplesmente não havia um filme de assalto à banco como esse naquela época e até hoje, com certeza, não tivemos outro que trouxesse uma história inusitada próxima a uma comédia de erros.

Realidade Recriada

O conto bizarro envolve a tentativa fracassada de um assalto perpetrada pela dupla Sal (John Cazale) e Sonny (Al Pacino) a um pequeno banco. Sem muito planejamento e com armamentos módicos, os dois anunciam o roubo, mas logo descobrem que o cofre da agência foi esvaziado poucas horas antes. Em questão de poucos minutos, logo a polícia descobre a tentativa do assalto e uma situação incômoda se instala obrigado os dois criminosos amadores a fazerem reféns para sobreviverem a quaisquer tentativas de invasão policial. Nesse cenário caótico e imprevisível, começa uma longa negociação para a liberação dos reféns e a rendição dos assaltantes.

Frank Pierson, roteirista da obra, apesar de ter se inspirado no artigo jornalístico bastante completo sobre o evento, trouxe um quê muito saudável de técnica para trazer uma verdadeira história repleta de ritmo e bastante agradável. Pela estética extremamente realista por Lumet, em questão de segundo o espectador percebe que Sal e Sonny são apenas dois caras desajustados, mas nada maldosos.

O roteirista traz as características amistosas da dupla já com poucos diálogos perspicazes que mostram a relação minimamente agressiva com os funcionários do banco. Essa relação bizarra acaba se tornando uma das mais interessantes do longa, pois aborda uma espécie de síndrome de Estocolmo na qual os funcionários começam a simpatizar com os bandidos até o ponto de sentirem compaixão e torcerem pela fuga improvável de ambos.

De modo bastante básico, até mesmo pela proposta estética do longa em centralizar a ação em apenas três espaços, temos um desenvolvimento muito considerável do protagonista Sonny cujos detalhes muito curiosos sobre sua vida rendem reviravoltas inacreditáveis e bastante valiosas para o espectador. Desse modo, o longa adentra camadas muito interessantes sobre minorias, além de tratar com tremendo respeito a dor do conflito do protagonista – sendo igualmente correto em apresentar as reações da multidão que acompanha o assalto atrás das barreiras policiais.

O longa inteiro se fundamenta no jogo de pingue-pongue realizado por Sonny e os policiais também igualmente expressivos. Através de uma interação forte que gerou uma receita básica para o subgênero, há também uma relação de causa e efeito que deixam os agentes da lei igualmente incrédulos como o apoio da população pela atitude criminosa ou da empatia dos funcionários com os bandidos.

Igualmente interessante é o fato de conhecermos o âmago da vida privada de Sonny, mas, ao mesmo tempo, desconhecermos todo o restante. O personagem é inteligente e simpático, sempre conseguindo dar um nó na estratégia dos policiais, mas através de outros coadjuvantes descobrimos uma instabilidade psicológica completa. Apesar de Um Dia de Cão nunca condenar o criminoso como tal, também oferece pontos de vista desfavoráveis ao protagonista, gerando um personagem misterioso, complexo e bastante ambíguo.

Já Sal, comparsa de Sonny, é bastante calado e parece sempre estar à beira de explodir e partir para a violência. Como o personagem é um completo mistério, mas também bastante fiel ao amigo, consegue gerar uma aura de interesse nunca explorada pelo filme de fato. O drama aqui é realmente o de Sonny e somente ele já consegue oferecer uma grande história.

Com um roteiro bastante adequado e um espetáculo completo de Al Pacino que consegue transparecer toda a exaustão física e psicológica ao longo do dia, temos também Sidney Lumet se portando como um verdadeiro mestre da indústria em Um Dia de Cão. Digo isso por conta da junção de uma narrativa ousada para um filme de estúdio, mesmo que barato, nas mãos de um dos autores mais importantes da Nova Hollywood.

Ao contrário de outros colegas que também explodiam criativamente na época, a abordagem de Lumet é bastante simples, evitando ao máximo chamar a atenção do espectador para a técnica que realiza durante as filmagens. No caso, o diretor se empenhou ao máximo para criar uma realidade na ficção por conta do grau absoluto de realismo empregado na encenação extremamente orgânica se valendo de diversos improvisos impactantes – como a clássica frase “Attica! Attica!”.

Conferindo movimentos simples para a câmera, além de buscar quebrar a teatralidade da encenação dos atores, o diretor faz todo o possível para criar essa ilusão da filmagem de uma espécie de “documentário direto” para a ficção. Para isso, há diversos planos abertos ou de pontos de vista inusitados revelando observadores anônimos de toda a comoção caótica causada pelos assaltantes, além de se valer ao máximo da iluminação disponível nas locações, nunca se entregando a um trabalho fotográfico mais caprichado.

Tanto que a única cena que realmente temos um grandioso foco em close de Al Pacino é justamente na mais emocional da obra, na qual Sonny liga para suas duas noivas para explicar a situação e se despedir. Através de um simples contraste envolvendo ternura, afobação e silêncio, Lumet transmite toda a motivação do personagem e seu conflito para o espectador sem precisar apelar a técnicas de exposição apelativas. Aliás, aqui seria um momento ideal para inserir música no longa. Pela proposta estética do diretor, há somente o uso de canções durante os créditos iniciais mostrando a banalidade da rotina da cidade até o acontecimento do assalto. Depois disso, ele nunca mais recorre ao poderio musical que desmancharia a ilusão da obra.

Lumet simplesmente dá um show com poucos instrumentos conseguindo manipular as emoções do espectador apostando tudo na performance de Al Pacino enquanto se preocupa em criar esse microcosmo de captura perfeita para a realidade até a culminação fria e cruel da obra que se encerra sem delongas. Talvez, o único ponto que realmente prejudique o filme é sua duração, pois em alguns segmentos temos uma dilatação clara de situações na qual Lumet, por achar o improviso tão valioso, optou por não encurtar.

Mais Estranho que a Ficção

Um Dia de Cão é uma das maiores conquistas artísticas que Sidney Lumet já ousou fazer, além de ser outro exemplo magnânimo do quão ousado e incomum o cinema da Nova Hollywood foi ao conseguir render os estúdios para a criação de obras peculiares como essa. Atravessando gêneros e se revelando um drama escondido em uma comédia de erros, há a fantástica surpresa de tratar temas complicados sobre minorias com extrema consciência. Muito provavelmente por conta da escolha adequada de centrar o longa no realismo pleno. A recriação do assaltado frustrado de azarados no Brooklyn se trata de uma bela obra-prima que provou o quão estranha pode ser a realidade que vivemos.

Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon, EUA – 1975)

Direção: Sidney Lumet
Roteiro: Frank Pierson, P.F Kluge, Thomas Moore
Elenco: Al Pacino, John Cazale, Penelope Allen, Sully Boyar, Carol Kanne, James Broderick, Charles Durning, Chris Sarandon
Gênero: Drama
Duração: 121 minutos

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