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A Guerra muda pessoas. George Stevens, mesmo já consolidado na indústria antes de 1944, foi um dos diretores que partiram para a Europa a fim de fazer o registro histórico em filme das ações das tropas americanas. Dentro de sua filmografia, há uma nítida diferença entre o antes e depois dessa experiência transformadora na vida do diretor.

Se antes Stevens abordava temas espinhosos através da sutileza do sistema de estúdios com algumas comédias românticas com pitadas de drama, nada seria comparado quando surgissem as poucas oportunidades dele próprio financiar um filme como no caso de Um Lugar ao Sol conseguindo distinguir fortemente seu trabalho do que era feito na época, alcançando uma atenção dedicada a outros mestres como Elia Kazan e Alfred Hitchcock.

Ideias Perigosas

Apesar de já ter sido adaptado anteriormente, a versão de Michael Wilson e Harry Brown sobre a “Tragédia Americana”, romance clássico de Theodore Dreise, é uma das mais eficientes em trazer o cerne da problemática moral do original. A narrativa é focada na enorme desventura de George Eastman (Montgomery Clift), um garoto pobre de uma família muito rica. Sem esperanças de encontrar emprego, parte para a casa dos tios ricaços donos de uma fábrica de maiôs como última tentativa para melhorar de vida.

Pouco sensibilizados pela situação do sobrinho, os Eastman oferecem um cargo baixo na indústria para o garoto conseguir sair da miséria, mas não o adotam como parte da família. Isolado e solitário, George trabalha por meses como embalador na fábrica e nota que certa moça sempre lhe oferece olhares amigáveis. Alice (Shelley Winters) se apaixona por George e os dois começam a namorar, apesar disto ser contra as regras da firma. Com a relação apimentada, ambos dão passos ousados e ela acaba grávida. Isso seria um ótimo sonho para George, caso não fosse a nova paixão que aparece em sua vida, Angela Vicker (Elizabeth Taylor).

Ela, extremamente rica, oferece a oportunidade perfeita para George ascender socialmente e ser aceito pelos milionários de sua família. Aliando o útil ao agradável, tudo poderia ser perfeito se Alice não estivesse grávida. Temendo a miséria novamente, George começa a planejar um modo de se livrar do estorvo que vira Alice.

O tom sombrio da sinopse não é constante no longa inteiro, afinal Stevens e os roteiristas caminham por diversos gêneros ao longo da narrativa. De fato, Um Lugar ao Sol é um filme que engana bastante. Em primeiro momento, trabalham para oferecer a errônea impressão de trazer um drama de questões sociais, com um pobretão se esforçando para ser aceito pela família e melhorar as condições de vida da mãe que mora em um lugar distante. E claro, uma pitada de romance obrigatório para as produções da Hollywood clássica.

A eficiência desse primeiro ato é tamanha que a força de empatia que George gera no espectador é simplesmente impossível de ser quebrada, mesmo nos caminhos mais tenebrosos que a narrativa seguirá posteriormente. Como a empatia com o protagonista é forte, o espectador passa a desejar o melhor para ele. Os roteiristas são espertos em inserir o segundo romance em primeiro momento, com Angela nem percebendo a existência de George enquanto ele era rejeitado pela classe social dos tios.

Somente por uma olhada do acaso que ambos se conhecem, apesar de George já ser vidrado na moça desde a primeira vez que a viu. Como a diferença de abordagem – sustentada pelo talento indubitável de Montgomery Clift, de George com as duas moças, é possível sentir para qual o coração dele pertence. Mesmo que haja sim um maior contraste para revelar o lado sombrio do protagonista após solidificar o romance com Angela, sentimos o crescente pavor do conflito interno que ele sofre: ser feliz e arriscar sua liberdade ou ser infeliz com uma mulher que não e um filho indesejado.

De certa forma, essa disputa mais sombria dentro de um triangulo amoroso, pela abordagem ética do herói e da própria jornada, é possível relacionar Um Lugar ao Sol com o clássico Aurora, grande obra-prima de F.W. Murnau. No caso, temos aqui um olhar repaginado dessa história tão marcante. A evolução dos personagens, principalmente de Alice com George, é crível pelo jogo desesperado que os dois se encontram.

É justamente aqui que temos a abordagem de problemas sociais relevantes que capturam tanto a atenção do George Stevens pós-Guerra. O tema do aborto é uma constante toda vez que Alice e George estão juntos, apesar de nunca ser diretamente mencionado. Há buscas para isso, além da profunda tristeza de Alice notar que George já não está mais conectado a ela, a tratando com indiferença ou repugnância. Exatamente como os ricos o tratavam quando era apenas um operário qualquer, afinal ele só passa a ser notado pela sociedade quando namora Angela.

Isso certamente complica a relação de George com o espectador. Moralmente, ele sempre está errado, mas como o próprio personagem sabe disso, as circunstancias que levam ao terceiro ato ficam ainda mais complicadas. É simplesmente difícil definir uma condenação ao protagonista, afinal ele parece não ter culpa pelo ocorrido, apesar de ter desejado que o pior acontecesse. O segundo ato inteiro envolve esse clima de suspense bastante soturno e como Stevens filma tudo a uma distância complicada, o espectador fica ainda mais perdido para julgar o personagem.

De romance para suspense, Stevens e os roteiristas decidem mudar novamente os rumos do filme, sempre de modo bastante imprevisível, mas muito lógico pelas causas e consequências. O terceiro ato inteiro é concentrado no profundo melodrama por vezes exagerado e em outras, bastante adequado. O gênero do longa é alterado para contemplarmos uma injustiça justa ou uma justiça injusta já que há muita ambiguidade na sombra da dúvida do ato de George. A moral do filme é bastante poderosa não só por conta do texto excelente repleto de diálogos marcantes, mas principalmente pela direção de Stevens.

O Espectador como Testemunha

Stevens faz confidências para o espectador de muitos modos. Acompanhamos cada momento íntimo de George e até mesmo alguns de Angela e Alice. O diretor quer que saibamos mais do que os personagens para infligir maior desespero com o trágico desfecho da obra, já que a dúvida sempre permanecerá na discussão que ele propõe.

Desse modo, da força das relações humanas e de alguns ótimos momentos como a visita de Alice ao “bom doutor” e do desmaio de Angela, Stevens torna esses personagens bastante críveis fugindo do glamour artificial que muitos longas empregavam na época. Também há a diferença de Um Lugar ao Sol ser um dos filmes que o próprio diretor bancou, podendo realizar as extravagâncias autorais que desejava.

O intenso trabalho com locações e cenários mais ornamentados e diversos tornam o filme mais ritmado, além das reviravoltas surpreendentes que alteram a guia de gênero que Stevens trabalha. Seja com qualquer campo que ele toca, há um estupendo trabalho de ideias. Logo no começo do longa, com Eastman conhecendo o resto de sua família, o diretor consegue isolar o protagonista de todos os modos nos enquadramentos afastados para definir a geografia das posições que os atores estão. Não somente o figurino rudimentar o isola, mas o fato de toda a família estar em um eixo oposto a ele, como se tivessem nojo e quisessem evitar o incômodo de sua presença a todo custo.

O drama é bem imposto e sentimentos como o personagem passa a ficar levemente deprimido e sonhar o impossível até se apaixonar por Alice, se contentando com as possibilidades de sua realidade, apesar de ser tão Eastman como qualquer outro da fábrica. A condução dos dois romances é bastante eficaz e repleta de pequenos contrastes. Novamente abordando Aurora enquanto há um romantismo da cidade, com cinemas e parques que Alice e George visitam, com Angela temos a palpitação da aventura exótica com a visita a lagos, passeios de lanchas, extremo conforto, além da companhia de uma mulher bem mais bonita.

Um dos mais poderosos momentos se concentra no verdadeiro primeiro contato de Angela com George. Na segunda visita a casa do tio, novamente o personagem é tratado com indiferença. Stevens faz com todos os figurantes se afastem dele conforme se movimenta no cenário até finalmente ficar isolado, jogando bilhar sozinho.

Quando Angela o convida para dançar, vemos o protagonista resistir em entrar no salão repleto de figurões da alta sociedade, dançando no batente da porta até que a garota o conduz para dentro. A mensagem é sutil e bela, mas bastante clara: somente Angela poderia ter colocado ele como um privilegiado. Tanto que na cena seguinte, em outro jantar elegante, os convidados já até sabem o nome de George. Ele finalmente é adotado pela grife de seu nome e se sente realizado pela primeira vez na vida. Como o sentimento de felicidade é tão genuíno – novamente, Montgomery Clift impecável, compreendemos toda sua motivação para se livrar de Alice, o passaporte de volta para a miséria.

Apesar de estar próxima de ser um sex symbol para a época, Shelley Winters que interpreta Alice se esforçou ao máximo para que Stevens a escalasse para o papel. Para isso, deliberadamente usou roupas nada glamourosas, além de penteados que a envelheciam além da conta. Mantendo o visual idealizado pela atriz, Stevens cria um contraste simpático, mas poderoso entre os dois amores, inserindo mais um item polêmico para as escolhas de Eastman na obra.

Aliás, Stevens optou inteiramente em filmar em preto e branco por conta de uma cena em particular que também é a melhor do filme: a do barco. Em toda a sequência, Stevens prepara o terreno com planos enquadrados de modo bastante fantasmagórico, como se os personagens tivessem adentrado o próprio Estige em um plano sobrenatural. Sob o tratamento mais forte de contraste dos tons cinzentos e uma decupagem simples, o diretor evoca um suspense matador que, apesar de não durar muito tempo na prática, parece uma verdadeira eternidade.

Stevens simplesmente trabalha como um mestre em Um Lugar ao Sol. Sua condução é impecável do início ao fim no vasto esforço de oferecer dinamismo visual, movimentos de câmera elegantes, além de enquadramentos inteligentes que sempre valorizam a profundidade de campo trabalhada com tanto cuidado por ele. Entretanto, ouso dizer aqui que nenhum cineasta americano consegue trabalhar com fusões tão bem quanto Stevens. Os usos vão desde funcionais como uma elipse aliando imagens de Eastman trabalhando intercaladas com passagens dos dias no calendário, até mais poéticas quando o protagonista caminha para seu destino final e se lembra do primeiro beijo, tão terno e mágico em Angela. Há fusões que aliam até mesmo quatro planos diferentes de modo absolutamente impecável. É algo mágico de se ver.

A Tragédia Americana

O cinema clássico rendeu filmes excepcionais e mesmo já bastante “idoso”, Um Lugar ao Sol facilmente é um dos melhores exemplares que os grandes diretores americanos poderiam fornecer. George Stevens soube tornar seu filme em uma peça artística atemporal. Não por conta da linguagem e de seus dilemas morais repletos de problemáticas que jogam o espectador em diversas emoções conturbadas, mas pela eficácia do inegável charme que o filme sustenta. Um romance, suspense e melodrama que com certeza encontrou seu lugar ao Sol.

Um Lugar ao Sol (A Place in the Sun, EUA – 1951)

Direção: George Stevens
Roteiro: Theodore Dreiser, Michael Wilson, Harry Brown
Elenco: Montgomery Clift, Elizabeth Taylor, Shelley Winters, Anne Revere, Keefe Braselle, Raymond Burr, Fred Clark
Gênero: Drama, Romance, Suspense
Duração: 122 minutos.

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