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Enquanto muitos cineastas da Nova Hollywood se firmavam com estilos únicos, Brian De Palma focaria, especialmente nos anos 1980, na replicação da técnica de grandes mestres que admirava até então. Conquistando muito prestígio nos anos 1970, seria apenas na década seguinte que o jovem diretor, um dos principais nomes que revolucionaram Hollywood, entregaria os seus maiores clássicos.

Considerado como um dos ápices de sua carreira, Um Tiro na Noite é uma ótima carta de amor para Michelangelo Antonioni em Blow Up e Alfred Hitchcock em Intriga Internacional, além de prestar sinceras homenagens ao trabalho de Francis Ford Coppola, seu amigo, com A Conversação. O mais impressionante é que o filme continua funcional até hoje com sua proposta que até pode não ser original, mas certamente genial.

O Som ao Redor

Também roteirizando o próprio filme, De Palma traz a desventura de Jack (John Travolta), um sonoplasta acostumado a editar e mixar o som de filmes pornôs ordinários. Em uma visita mundana a uma ponte afastada da cidade para captar novos áudios para efeitos sonoros. Todo parece ocorrer bem até que testemunha um acidente de carro no local. Com o veículo caindo no rio, Jack mergulha para salvar os passageiros. Notando que o motorista está morto, apenas salva Sally (Nancy Allen), uma jovem moça que acompanhava o homem.

Partindo para a emergência do hospital, Jack descobre que o homem morto era justamente o candidato favorito das vindouras eleições presidenciais. Ao retornar para seu estúdio, o sonoplasta escuta a fita que gravou durante o acidente e acaba descobrindo um som perturbador: o de um tiro. Convencido de que testemunhou um assassinato, Jack procura Sally para tentar compreender a situação e reportar à polícia, mas em pouco tempo descobrirá que se encontra em uma conspiração muito maior do que poderia imaginar.

Como na maioria dos filmes roteirizados por De Palma, a história de Um Tiro na Noite passa longe de ser a força principal da obra. Além da proposta absolutamente genial em fazer um neo-noir aliado a um filme de detetive usando os instrumentos cinematográficos como os recursos investigativos, De Palma opta por escolhas sempre escusas para sua história. Já apostar a narrativa inteira ao colocar um homem comum dentro de uma trama conspiratória beira a exaustão – os anos 1970 devem ter sido campeões com tantos filmes de conspiração que foram lançados, seguindo a onda política caótica dos EUA na época.

De costume, os personagens são ligeiramente superficiais, apesar de haver sim um arco de redenção que o roteirista é criativo em elaborar, conversando diretamente com as habilidades de Jack e também de Sally – além de servir bem como motivação para a insistência de Jack em provar o assassinato dado como mero acidente. Inevitavelmente, De Palma cria um arco romântico para os principais, que não engrena muito bem devido a natureza de conflitos excessivos, além da completa falta de química entre Nancy Allen e Travolta.

Aliás, apesar de Travolta segurar muito bem o filme em um papel denso, Nancy Allen está péssima sustentando um timbre irritante, além de manter a mesma expressão boba em todas as cenas. Mas de fato, quem rouba o show, é John Lithgow encarnando o interessante psicopata Burke – o executor do candidato que vai atrás das pontas soltas para não deixar rastros do trabalho.

Mesmo criando um bom personagem cheio de presença, De Palma erra ao mudar o ponto de vista centralizado em Jack para revelar a conspiração e o rosto do assassino em uma narrativa distinta. Simplesmente tira o mistério do filme, além de não conferir um sentimento constante de perigo para o protagonista, já que sempre sabemos de antemão o que o psicopata pretende fazer para matar a dupla. Seria mais interessante ver Jack lidando com forças gigantescas e poderosas das quais ele não tem nenhum controle.

Como ficou marcado no cinema da Nova Hollywood, os realizadores sempre conseguem trazer finais impactantes e controversos. Com Um Tiro na Noite o mesmo efeito se faz presente, apesar de De Palma arquitetar uma clichê corrida contra o tempo aliado ao resgate da donzela em perigo. Felizmente, o roteirista subverte a previsibilidade da cena e consegue criar um desfecho repugnante para a obra que com certeza deve incomodar o espectador.

Tiros de Homenagens

Mesmo trazendo uma história repleta de altos e baixos, De Palma consegue transformar seu filme com uma direção nada menos que excepcional. Nunca tendo experimentado as magias da steady cam, o diretor já começa o longa com uma introdução divertidíssima em plano-sequência inserindo uma câmera subjetiva sob o ponto de vista de um assassino infernal à solta em um dormitório repleto de sacanagens e perversão.

Extrapolando com uma miríade de efeitos sonoros, De Palma já infere a importância que o som terá na obra. Isso não demora nada para surgir com a brilhante sequência do assassinato, na qual temos a criação exemplar de uma atmosfera tranquila com Jack se portando como um voyeur de sons capturando conversas alheias de transeuntes, piados de corujas, coaxar de sapos e, enfim, do próprio acidente/assassinato.

O que deixa a sequência fenomenal é a eficiente decupagem na qual em questões simples de plano/contraplano, além de apresentar grandes planos detalhe do microfone direcional, De Palma cria o magnetismo que liga sons e imagens de modo separado. Quando quer impressionar, usa a técnica subvalorizada do Split focus, uma objetiva que permite focar simultaneamente imagens que estão em primeiro e terceiro plano. Apesar de usar o recurso mesmerizante em diversas cenas, a mais marcante é quando enquadra a coruja em primeiro plano, encaixando Jack na profundidade de campo, estabelecendo uma relação poética de vigias noturnos, observadores do proibido.

Depois de nos surpreender pela qualidade cinematográfica apresentada nesse trecho inicial, De Palma evoca seu estilo barroco repleto de toques estéticos apaixonantes – muitos deles tirados da obra de Hitchcock como a bela projeção de sombras para ilustrar o horror de mais um degolamento na cidade.

Em inúmeras sequências, De Palma mostra um domínio implacável sobre a câmera criando uma assinatura cinematográfica bastante pessoal que adora explorar tanto a montagem – vide as cenas com tela dividida, quanto a encenação que atinge o ápice de perfeição na cena do assassinato da prostituta na estação de trem resultando em um suspense digno de mestre ao convergir duas excitações no psicopata: a sexual e do poder de matar.

É nítido que De Palma quis ser o mais criativo possível para conferir esse estilo apaixonante na obra. Apesar de criar essas ótimas sequências de assassinato e até mesmo uma bizarra perseguição, os maiores esforços ficam concentrados para as elaboradas cenas que exibem a característica metalinguística do trabalho de Jack. Ali, sim, a montagem se transforma para mostrar todas as intrincadas peças dos aparelhos analógicos que auxiliam o protagonista a criar os mais diferentes sons.

Como são muitas cenas envolvendo o exercício da escuta e da manipulação de fitas, De Palma sempre traz algum elemento novo seja na criação de um flashback inventivo apenas baseado na encenação do direcionamento do microfone ou no simples plano-sequência no qual rotacional a câmera em 360 graus para mostrar o desespero de Jack ao descobrir que todas suas fitas de áudio foram apagadas.

Quando De Palma resolve apelar para contrastes para criar imagens mais poéticas, é justamente onde se perde. O exemplo claro disso é o clímax da obra, na qual ele crítica a indiferença urbana que festeja diante aos gritos de socorro de uma mulher lutando desesperadamente por sua vida. Inserindo slow motions intermináveis em completo exagero, essa cena em particular perde bastante pelo impacto cartunesco que vai em contramão da elegância e refinamento da técnica que De Palma apresentava até então.

Para piorar, há a presença constante da trilha musical invasiva exageradíssima de Pino Donaggio repleta de composições melosas ou ávidas demais em manipular as emoções do espectador em cenas mais intensas. Pode até ser uma das mais favoritas de De Palma, mas simplesmente não funciona e distrai o espectador do assunto tratado na obra.

Gritos na Noite

Repleto de estilo de uma das mentes mais interessantes da Nova Hollywood, Um Tiro na Noite traz uma narrativa razoável de mistério, cuja maior força é sim o seu interesse na metalinguagem cinematográfica. Porém, apesar de uma história que demora a se tornar memorável, De Palma nos convida para uma jornada audiovisual apuradíssima na qual ele apresenta suas melhores técnicas de direção conseguindo arrancar sorrisos de contentamento de qualquer fã do cineasta que sabe muito bem que estaremos nos deliciando na conclusão circular de sua obra sobre gritos perdidos na noite.

Um Tiro na Noite (Blow Out, EUA – 1981)

Direção: Brian De Palma
Roteiro: Brian De Palma
Elenco: John Travolta, Nancy Allen, John Lithgow, Dennis Franz, Peter Boyden
Gênero: Suspense
Duração: 107 minutos.

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