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James DeMonaco, com Uma Noite de Crime, tinha uma ótima ideia em suas mãos. A premissa de uma noite, durante a qual qualquer um poderia cometer qualquer crime, inclusive assassinato, abre infindáveis ramificações, podendo ser exploradas tanto desde a via do slasher, com a diferença de que todos seriam a figura do slasher no filme; até a via do thriller psicológico, podendo abordar a violência de forma explícita ou mais implicitamente, focando, possivelmente, no impacto dela nos personagens centrais. Infelizmente, de todos os caminhos que DeMonaco poderia ter seguido, ele acaba escolhendo a via da previsibilidade, entregando um longa que não sabe se diferenciar da grande maioria dos outros exemplos de seu gênero.

Não é desde cedo que enxergamos isso, no entanto, já que o diretor/ roteirista sabe muito bem como construir esse universo de forma simples e ágil.

Começamos com James Sandin (Ethan Hawke) poucas horas antes da fatídica noite anual. Vendedor de equipamentos de segurança domiciliar, ele está no caminho de casa, enquanto descobre que foi o vendedor mais bem-sucedido do ramo nesse ano. Já em casa, sua esposa, Mary (Lena Headey) e seus filhos, Charlie (Max Burkholder) e Zoey (Adelaide Kane) estão à espera do fim da contagem regressiva para que a casa se feche e eles aguardem até que a noite vá embora.

Logo nesses momentos de tranquilidade inicial, DeMonaco vai dando indícios de quem pode provar ser um risco à essa família. Passamos a suspeitar de todos, desde o namorado de Zoey, até os vizinhos estranhamente suspeitos dos Sandin,que chegam a comentar que a vizinhança considera que os Sandin se tornaram ricos às custas deles (considerando que James vende equipamentos de segurança, era de se esperar que isso acontecesse). Ao mesmo tempo, pitadas de crítica social são acrescentadas à trama, enquanto que os filhos demonstram, neste momento, de forma mais discreta, serem radicalmente contra essa surreal política de carta branca anual do governo.

Infelizmente, essa discrição inicial do roteiro vai desaparecendo progressivamente, até o ponto do texto martelas, sempre que pode a mesma ideia repetidas vezes. O que facilmente poderia ser uma forte crítica à sociedade americana, ao racismo, o porte de armas e mais, acaba permanecendo no raso, enquanto ouvimos os antagonistas dizendo “porco sem-teto” e cosias do tipo. Menos é mais nesse e na maior parte dos casos. Não ajuda o fato da política correta ser colocada através do comportamento dos dois filhos, que mais soam inconsequentes (e realmente o são), do que defensores da justiça, parecendo portanto, como duas portas ambulantes que somente sabem colocar a família em risco.

Com isso, sentindo-se obrigado a defender o que é certo, a todo o tempo (o que não necessariamente constrói uma boa crítica social), DeMonaco acaba enfraquecendo tanto o clímax de sua obra, que é uma sucessão de anti-clímaces, quanto o próprio desfecho em si, que, ao invés de deixar pontas ou ideias no ar, acaba utilizando absolutamente tudo que foi apresentado antes, não deixando um pingo de dúvida no espectador, o que ajudaria na construção de uma ideia mental dessa sociedade. Tanto por isso, quanto pelo final relativamente feliz, tudo acaba soando extremamente artificial e não funcional além dos limites do filme em si.

Fica claro que DeMonaco é melhor em idealizar um universo do que, de fato, desenvolvê-lo. Ao longo de toda a projeção nos deparamos com algumas boas ideias, desde o educado líder dos assassinos, esperando para entrar na casa – claramente inspirado em Violência Gratuita, de Michael Haneke – até a vítima acolhida por Charlie no início do segundo ato, que funciona, indiretamente, como estopim para tudo que dá errado para essa família. Curiosamente, o diretor não sabe trabalhar com essas ideias simultaneamente e precisa eliminar uma por uma antes de efetivamente desenvolver a próxima, um excesso de linearidade que fortemente incomoda e transmite ainda mais fragilidade à narrativa como um todo.

Praticamente como se soubesse que essa frágil estrutura não seria capaz de sustentar a tensão do espectador, DeMonaco faz uso de alguns truques baratos do terror, que nada combinam com o que ele gostaria de construir aqui. Notavelmente, os jump scares soam consideravelmente aliens ao resto da narrativa, especialmente pelo fato desse filme não ter o objetivo de passar medo e sim criar uma atmosfera que nos deixe estáticos, nervosos, possibilitando o questionamento dos deturpados valores apresentados em tela.

Não ajuda que o diretor faça uso de artifícios extremamente clichês para tal, telegrafando tudo o que irá acontecer previamente, como o típico ocultamento de parte da imagem pelo rosto de um personagem, ou uma profundidade de campo que, de forma suspeita, “decide” se apresentar pontualmente ao longo da narrativa. Naturalmente que o som repentinamente fica mais alto nas cenas de susto, reiterando a falta de inspiração do diretor no desenvolvimento de seu filme.

Uma Noite de Crime, portanto, poderia, facilmente, ser muito mais do que é, mas acaba falhando em aproveitar de sua ótima premissa para construir algo minimamente diferente das dezenas de outros filmes de terror que vemos sendo lançados anualmente. Ao menos, DeMonaco conseguiu construir uma franquia em cima dessa ideia e, quem sabe, com isso, veremos alguma obra que realmente saiba a aproveitar.

Uma Noite de Crime (The Purge – EUA/ França, 2013)

Direção: James DeMonaco
Roteiro: James DeMonaco
Elenco: Ethan Hawke, Lena Headey, Max Burkholder, Adelaide Kane, Edwin Hodge, Rhys Wakefield, Tony Oller, Arija Bareikis
Gênero: Terror
Duração: 85 min.

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