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Elia Kazan era um diretor intrinsecamente ligado ao sistema hollywoodiano. Entretanto, foi apenas em 1950 que conseguiu criar duas de suas maiores obras-primas: Uma Rua Chamada Pecado e Sindicato de Ladrões. Apesar de serem filmes completamente opostos, os dois são bandeiras que refletem o estranho dessabor que a indústria passava em meados dos anos 1950.

Não é preciso vasculhar a fundo para qualquer leitor compreender o temor que os produtores estavam sentindo nessa pós-morte da Era de Ouro Hollywoodiana tanto pelos estragos da Segunda Guerra Mundial e também do papel político do Cinema dos anos 1940. Porém, pior ainda, era que nessa mesma década a indústria seria enfrentada por seu pior rival – uma crise que evolui até hoje: o surgimento da televisão.

Com o desafio de tirar as pessoas do conforto de seus lares, tiros foram disparados para todos os lados e no meio disso tudo, alguma liberdade criativa que permitia revoluções cadenciadas, também surgiu. Trazendo esse amargor interno de uma crise sem precedentes para a indústria cinematográfica, Kazan simplesmente trouxe histórias mais próximas ao drama da vida real americana, se valendo de inspirações tiradas diretamente do Neorrealismo Italiano, mas ignorando toda a proposta estética mais “rudimentar”.

A Bondade dos Outros

Não há dúvidas que assistir a Uma Rua Chamada Pecado é uma tarefa difícil e até mesmo estranha se formos ver o caráter mais expansivo do cinema hollywoodiano de 1950, afinal o longa inteiro praticamente se passa apenas em pouco mais de cinco cenários, além de sofrer pesadamente com a censura americana rigorosa.

O texto é essencialmente teatral e Kazan filma toda a história em um nível de linguagem visual bastante próximo ao do teatro, sustentando planos por longos períodos para discorrer até mesmo cenas inteiras – aqui, impressiona o domínio técnico impecável sobre a câmera e a iluminação para manter a ação fluída conforme os enquadramentos são alterados em tempo real.

Nessa questão de se aproximar do espectador comum, nada melhor do que procurar ótimas histórias escritas para a dramaturgia. É exatamente este o caso que temos aqui. A peça de Tennessee Williams e adaptada por ele próprio e também por Oscar Saul. Preservando praticamente a peça inteira, o filme só tinha a dependência de funcionar com a performance imortal de seu elenco de alto escalão contando com Marlon Brando, Vivian Leigh e Kim Hunter.

A narrativa é concentrada no súbito aparecimento de madame Blanche DuBois (Leigh) na casa de sua irmã recém-casada, Stella (Hunter). Esperando um lugar confortável e modicamente luxuoso para comportar suas necessidades de alto padrão, Blanche se depara com um pequeno apartamento de dois cômodos em um cortiço movimentado em Nova Orleans. Nervoso com a chegada dessa convidada cafona e extremamente falsa, Stanley (Brando), se dedica a investigar o passado da cunhada para logo desacreditá-la e ser ver livre de sua presença. Embora os métodos que o faça não sejam nada agradáveis ou justos.

Williams discute diversos temas centrais em pauta da narrativa, obviamente, verborrágica e regada de monólogos repletos de exposição – uma consequência natural da transposição do texto teatral. Através da repetição confortável em situações diferentes, vemos como há a valorização sobre a bondade, honestidade e força. A graça é que o roteirista se preocupa em trazer esses diálogos que tangem os temas idealizados enquanto Kazan encena verdadeiros caos violentos que ocorrem na casa de Stella.

Por ser um “anti-romance”, Williams visa subverter os valores empregados anteriormente pelo cinema clássico de Hollywood trazendo figuras descontruídas sobre o Marido, a Esposa e a Donzela em Perigo. A começar pelos mais fáceis, Stanley é completo oposto do pai de família do sonho americano, afinal ele é negligente, violento contra a própria esposa grávida e beberrão, apesar de bancar o estilo de vida quase subsistente que Stella e a irmã se acostumam a viver.

A Brutalidade do Querer

Stanley é o personagem mais simples, mas também o mais verdadeiro, pois nunca trai sua palavra, apesar de ser um refém das próprias paixões. O homem não raciocina nem por meio segundo antes de praticar violência doméstica a uma mulher que, apesar de tudo, ele ama verdadeiramente. A crítica de Williams cai diretamente sobre os casamentos apressados e frustrados que marcaram o baby boom dos anos posteriores a Guerra, além de levar a uma taxa tão expressiva quanto de divórcios nos anos 1960.

Já Stella é a frustração completa da esposa do sonho americano. Ela não é subserviente ao marido em integralidade e o confronta diversas vezes para defender Blanche. Igualmente, não há felicidade verdadeira neste casamento marcado por brigas e constantes abusos, mas como ela está grávida, acaba se tornando prisioneira de um bruto apaixonante, mas totalmente perigoso. Como ela é uma das personagens menos expressivas, basicamente se colocando como o fiel da balança entre os conflitos de Stanley e Blanche, acaba se tornando relativamente apagada, apesar de protagonizar uma das cenas mais inesquecíveis da obra.

Já Blanche é a mais complexa e intrigante dos três. Vivian Leigh simplesmente oferece um espetáculo em sua atuação que adora contradizer as palavras elegantes e o estilo pomposo cafona da personagem. De primeiro momento já é possível perceber que há algo muito errado com a mulher, já que tudo soa ser falso, desde suas histórias até ao modo de se vestir. Toda a narrativa é centrada nela e nas surpresas inglórias de seu passado que é revelado camada a camada.

A trágica personagem recebe uma roupagem irônica de “donzela em perigo” aguardando por seu salvador na casa tenebrosa de sua irmã. Ela molda a realidade conforme seus desejos e pela proeza dos diálogos ardilosos, acaba até mesmo conquistando o espectador pelo magnetismo inegável tanto do talento de Leigh quanto da escrita exemplar para ela. É simplesmente fascinante.

Com isso, Williams, pouco a pouco, subverte tudo: a personagem, seu passado nada honroso, seu novo relacionamento amoroso com Mitch (que logo se revela um verdadeiro hipócrita) até a culminação de seu destino infeliz. A única coisa que Williams preserva é o abuso constante de Stanley, totalmente obstinado em fazer da mulher, uma verdadeira louca. Isso cobre muito de Blanche, mas não o total. A personagem incômoda tem muito a oferecer para qualquer espectador que nunca tenha visto essa obra-prima de Kazan.

O Desafio Cinematográfico

Por se tratar de uma narrativa escrita propriamente para o teatro, é de se indagar como Elia Kazan faz da Segunda Arte, a Sétima Arte. Apesar de preservar muito da beleza cênica do Teatro, priorizando sempre a movimentação dos atores ante a movimentação da câmera, há momentos verdadeiramente cinematográficos em Uma Rua Chamada Pecado. Um dos primeiros e, talvez, o mais memorável, se concentra na primeira briga feia de Stanley com Stella.

Ao buscar refúgio na vizinha de cima, Stella escuta os berros de Stanley a chamando, clamando para que volte a casa, volte para ele. Kazan filma essa pequena cena de modo tão apaixonado, colocando Brando com roupas rasgadas e com cara de choro enquanto Stella desse as escadas a passos lentos portando uma expressão nada amigável. A cena impacta tanto pelo suspense por conta desse ser realmente o único momento que a personagem tem algum poder sobre seu marido, mas descarta ao perdoá-lo.

Já em diversas outras ocasiões, vemos como Kazan e seu diretor de fotografia operam a iluminação, tornando a casa de Stella cada vez mais sombria através de pequenos feixes de luz até chegar a um ápice assustador quando Blanche tem seu diálogo derradeiro com Mitch. Kazan até mesmo faz uma tirada irônica ao envolver a personagem sempre em luzes difusas com um quê das femme fatales do Cinema Noir, reforçando a mensagem exposta em diálogo sobre as suas verdadeiras intenções.

O mesmo ocorre com a extensão do cenário principal. A cada cena, conforme Blanche se sente cada vez mais encurralada, o cenário diminui fisicamente ficando mais apertado. É um belo truque para refletir o desespero interno da personagem. Além disso, o apreço pelo realismo é demarcado pela encenação em camadas feita por Kazan, procurando sempre utilizar a profundidade de campo para mostrar transeuntes através da janela. A mesma atenção aos detalhes é demarcada na trilha musical sempre presente que por diversas vezes pontua as viradas mais dramáticas da obra.

Campos Elíseos

Mesmo sob pesada censura que deixa as maiores violências de Uma Rua Chamado Pecado apenas na sugestão, Elia Kazan, seu elenco magistral e o roteiro praticamente impecável de Williams, tornaram essa obra em um marco do cinema americano por ousar quebrar paradigmas a ponto de ser relembrado até mesmo em novas produções totalmente inspiradas por ele como foi o caso de Blue Jasmine. Nessa rua de desejos, o sonho de ser um campo elísio sempre está distante, intangível e cruel. Assim como uma miragem.

Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, EUA – 1951)

Direção: Elia Kazan
Roteiro: Oscar Saul, baseado na obra de Tennessee Williams
Elenco: Vivian Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter, Karl Malden, Rudy Bond, Richard Garrick
Gênero: Drama
Duração: 122 minutos.

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