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Kimmy está de volta – e infelizmente para seu último ano. E sim, esta é uma notícia de grande infortúnio e dor, visto que Unbreakable Kimmy Schmidt chegou ao seu último ano na Netflix após quatro anos arrancando as mais irreverentes risadas de um crescente público. Apesar da triste notícia, a série criada por Robert Carlock e Tina Fey manteve-se em suas estruturas originais ao mesmo tempo em que expandiu a “mitologia” – se é que podemos chamar assim – acerca de cada um dos personagens principais: na verdade, o termo mitologia consegue até mesmo manter a dualidade de existência-inexistência desses tipos sociais que fazem referência às vertentes teatrais italianas conhecidas como commedia dell’arte, mas elevadas a um nível incomparável de absurdez.

Se pensávamos que Kimmy Schmidt (Ellie Kemper) havia mergulhado em um brusco coming-of-age após passar quinze anos enclausurada em um bunker, estávamos totalmente errado. É claro que, enfrentar uma Nova York da virada do século e não saber mais como é o mundo em que se vive é sempre um desafio, mas a nossa heroína apenas começara os seus grandes passos nas perigosas ruas da cidade que nunca dorme. Ainda que tenha evoluído psicologicamente e tenha compreendido alguns trejeitos para sobreviver na compulsoriedade cotidiana americana, é apenas nesta primeira parte do mais novo ano que ela compreende as responsabilidades de ser uma mulher adulta e todos os obstáculos que irá enfrentar – tudo mergulhado em uma crítica tão clara e tão ácida que chega a ser comicamente angustiante assistir a cada uma das cenas.

A protagonista, agora, faz parte de uma empresa de tecnologia cuja vaga conseguiu pelo carisma e pela indubitável inteligência emocional que sempre fez parte de si, até mesmo quando presa no bunker. Entretanto, ao contrário de se respaldar em traumas passados, ela olha para o futuro e não é assombrada diretamente pelas ações extremistas do Reverendo Richard Wayne (Jon Hamm, que faz uma pequena ponta nessa temporada); ela tem outras preocupações, inclusive manter uma nova rotina que nunca antes fizera parte de sua vida. Mas as coisas não são tão mágicas, quanto ela esperou, e ela acaba por cair em uma acusação de assédio sexual após demitir um dos funcionários da companhia – que, representando muito bem o estilo de Fey e de Carlock, serve como um reflexo mais brando do que enfrentamos ano passado no complicado mundo do entretenimento.

Enquanto isso, Titus (Tituss Burgess) e Jacqueline (Jane Krakowski) mantém-se em uma quase impossível relação de trabalho em que a outrora rica dona de casa experenciou algumas das tortuosas linhas do destino após separar-se do marido infiel e se tornou uma caça-talentos e agente. Titus, por sua vez, conserva sua adorável personalidade egocêntrica e talentosa que também sofre pela perda do namorado Mike (Mike Carlsen), ainda que quietamente. Todo esse confronto interno é traduzido em formas de diálogos hilários e que aprofundam a relação que tem com Jackie e Kimmy, bem como com outros coadjuvantes que também aparecem em cena uma vez ou outra – e que são de extrema importância para uma epifania inesperada, por exemplo.

Se todos passam por arcos de amadurecimento e confronto de seus obstáculos, isso não poderia ser diferente com Lillian (Carol Kane), a proprietária do buraco em que Titus e Kimmy vivem. Retornando com seus irreverentes e verdadeiros discursos sobre o crescimento da gentrificação e da brusca mudança pela qual sua comunidade passou nos últimos anos, ela abandona sua caricatura de escape cômico e ganha um arco dramático mais refinado, porém tão rebelde quanto sua personalidade. Isso se mantém até os momentos finais dessa primeira parte, na qual ela conhece a “inexistente” família de seu ex-amante, Artie (Peter Riegert), e se torna parte de um núcleo muito maior do que esperava.

Apesar dessa preocupação com o arco de cada um dos protagonistas, a série peca em trazer um filler que não se mostra tão necessário ou pertinente – pelo menos não em sua completude. No terceiro episódio, intitulado Party Monster: Scratching the Surface, Kimmy e Titus acham um documentário muito familiar na HouseFlix (coincidência? Acho que não) que fala sobre a história do Reverendo Wayne/DJ Lizzard, trazendo a interminável história das Mulheres-Toupeira e do fato de sua prisão ser errada. Apesar da “seriedade” estilística do mockumentary funcionar como um reflexo e uma pesada crítica social, bem como grande parte da série, tal episódio não é tão impactante ou envolvente quanto os outros e representa uma queda de ritmo narrativo muito grande para a série, ainda mais por durar o capítulo inteiro.

A primeira parte da última epopeia de Kimmy Schmidt tem seus errinhos, mas ainda é extremamente satisfatória. Sempre inovando e, ao mesmo tempo, trazendo elementos universais para um cosmos universalmente conhecido pelo telespectador – a comédia escrachada -, a série começa sua despedida do melhor jeito possível. Agora, é só esperarmos a próxima leva de episódios chegar.

Unbreakable Kimmy Schmidt – 4ª Temporada: Parte 1 (Idem, Estados Unidos – 2018)

Criado por: Robert Carlock, Tina Fey
Direção: Tristram Shapeero, Rhys Thomas, Claire Cowperthwaite, Claire Scanlon, Jude Weng
Roteiro: Sam Means, Dan Rubin, Meredith Scardino, Leila Strachan, Robert Carlock, Nick Bernardone, Tina Fey
Elenco: Ellie Kemper, Tituss Burgess, Carol Kane, Jane Krakowski, Mike Carlsen, Dylan Gelula, Amy Sedaris
Emissora: Netflix
Episódios: 06
Gênero: Comédia
Duração: 23 min.

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