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Contos de fada pedem por musicais.

Tudo bem, até meados do século passado, essa afirmação poderia ser encarada como uma falácia estampada, se levarmos em considerações que as obras “infantis” publicadas há centenas de anos eram muito mais cruéis que as que conhecemos hoje. Mas com a popularização destes contos através dos estúdios Disney, personagens como Branca de Neve, Bela Adormecida, Chapeuzinho Vermelho, Aladdin e outros ganharam personalidade e arcos narrativos muito bem estruturados através de canções que exteriorizavam de forma coerente e envolvente partes da psique humana que normalmente não conseguimos analisar.

E que melhor obra audiovisual contemporânea que Once Upon a Time para unir o útil ao agradável e fornecer uma visão crítica e irreverente para as histórias que povoaram nossos imaginários quando mais novos com elementos da cultura pop e de diversos movimentos sociais que vemos hoje? Para um público ansioso e fiel à série criada por Edward Kitsis e Adam Horowitz, nenhum show atualmente poderia ter a capacidade para adotar elementos musicais para sua identidade como este. Mas infelizmente, o tiro saiu pela culatra, e o que poderia ter emergido como um dos episódios mais desafiadores se concretizou como um dos piores destes seis anos.

Intitulado The Song in Your Heart, o vigésimo e penúltimo capítulo da sexta temporada retorna para as origens da série, mais precisamente para o episódio piloto que discorre sobre a ameaça feita pela Rainha Má (Lana Parrilla) contra Snow (Ginnifer Goodwin) e David (Josh Dallas). Como bem sabemos, tais afrontas são prenúncio da Maldição Negra, lançada pela principal antagonista de Once como forma de destruir o amor verdadeiro e reinar sobre seus inimigos. Neste meio tempo, o casal Charming foi numa busca incessante e quase inacreditável por diversas forças sobrenaturais que pudessem ajudá-los a refrear o cruel Destino que lhes aguardava.

A premissa deste capítulo talvez seja a mais pura de toda a série, mas sua construção presunçosa é realmente o que destrói a história. Aqui, Snow faz um pedido a uma estrela – referência a Pinóquio, clássico da Disney que introduziu a Fada Azul ao imaginário popular – e, no dia seguinte, amanheceu cantando, assim como todos do seu Reino. Uma “maldição às avessas”, para ser mais sincero. E, como logo percebemos, a esperança vinda com as músicas cantadas pelos personagens é a principal arma contra as forças do mal e a crescente desesperança que se apossa dos corações dos habitantes da Floresta Encantada.

Entretanto, a pureza de seus temas-base logo dá margem para uma das histórias menos convincentes e emocionantes que já assistimos: a própria letra das canções, desenvolvidas por Mark Isham (compositor da trilha sonora original da série), recai sobre clichês tão fortes que nos permitem adivinhar o desfecho de cada um dos arcos. Tudo bem, os atores protagonistas das cenas cantadas têm lá suas referências de grandes musicais da Broadway – podemos ver relances de My Fair Lady, Les Misèrables e até mesmo O Fantasma da Ópera em algumas construções -, mas sua necessidade para o andamento da história simplesmente não existe.

É inegável dizer que a ABC, assim como a CW, tem um “fetiche narrativo” por episódios musicais. Na sétima temporada de Grey’s Anatomy, por exemplo, os médicos do Hospital Seattle Grace se veem dentro de uma perspectiva subjetiva da personagem Callie (Sara Ramirez), cuja vivência nas vertentes teatrais supracitadas tornaram-na mais que apta para dar a fluidez necessária a história, além de configurar o episódio como um dos grandes ápices do ano. Já em The Flash e Supergirl, o crossover sugerido pelos showrunners trouxe opiniões mistas e indicaram uma possível saturação deste gênero – e tal afirmação foi endossada com The Song in Your Heart.

Não há muito o que falar sobre a história, visto que o desenvolvimento narrativo se pautou em mais uma ameaça feita pela Fada Negra (Jaime Murray), agora levada a outro nível com uma maldição – cuja promessa e realização se restringe aos minutos finais do episódio. Perscrutado entre brevíssimos momentos dramáticos e realmente sinceros, grande parte dos quarenta e dois minutos do capítulo é destinada a sequências de dança mal coreografadas e canções que definitivamente não entrarão para o ranking de melhores músicas de 2017.

Nem mesmo o carisma de Parrilla em cena foi o suficiente para ofuscar um dos momentos mais perturbadores – e consequentemente engraçados – deste especial: sua própria música. Já era de se esperar que a Rainha Má tivesse sua presença de cena pautada em um discurso sobre como a “vidinha perfeita” dos Charming estava prestes a acabar. E a canção intitulada Love Doesn’t Stand a Chance traduz exatamente o que ela deseja, mas de forma completamente equivocada. Temos tons de rock misturados com um pop crescendo e que culmina numa miscelânea desequilibrada de vários gêneros. Não critico os vocais da atriz, em momento algum (suas notas harmonizam entre agudos e graves), e sim da própria existência desta sequência. Powerful Magic, cantada por Snow e David, é um pouco mais envolvente, mas ainda não deixa de ser… Excêntrica.

Apesar dos imperdoáveis deslizes, faço questão de pontuar os momentos de glória deste episódio. Rebecca Mader, encarnando Zelena (uma das personagens mais adoradas de toda a série, por sua complexidade e por sua memorável presença), dá voz a Wicked Always Wins, um hino metafórico, verborrágico e contraditório em sua essência. O piano e os violinos são os grandes responsáveis pela melodia desta música, mas sua letra e a performance da atriz se fincam na dualidade visual: a Bruxa Má do Oeste, sorrindo enquanto profere palavras de malgrado para sua meia-irmã, Regina, discorre sobre a necessidade de se provar útil e mais poderosa que todos para o Senhor das Trevas, Rumplestiltskin (Robert Carlyle), de forma tão visceral quanto seus desejos mais obscuros. O alcance vocal de Mader é também algo a ser aplaudido: buscando referências em Mamma Mia! e Wicked, a cantoria beira uma “ária em desconstrução” e que impressiona de forma positiva.

O paralelismo funciona perfeitamente em The Song in Your Heart. A última cena, na qual a maldição toma conta de Storybrooke, podemos traçar uma comparação irrefutável entre o aguardo doentio dos habitantes da cidade, arrancados de seu momento de felicidade com o casamento de Emma (Jennifer Morrison) e Hook (Colin O’Donoghue), e a união entre Snow e Charming, que também encontra a ruína por motivos bem semelhantes.

Em suma, este não é um capítulo a ser considerado na lista de melhores de Once Upon a Time. Sua arquitetura definitivamente não será lembrada em um futuro próximo, representando um grande retrocesso na caminhada narrativa da série, apesar de seus momentos de prazer. Posso contar nos dedos as cenas com viradas marcantes e impactantes – e garanto que elas não ultrapassam nem mesmo cinco minutos.

Once Upon a Time – 06×20: The Song in Your Heart (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: Adam Horowitz, Edward Kitsis
Direção: Ron Underwood
Roteiro: David H. Goodman, Andrew Chambliss

Elenco: Lana Parrilla, Josh Dallas, Jennifer Morrison, Ginnifer Goodwin, Jared S. Gilmore, Emilie de Ravin, Colin O’Donoghue, Sean Maguire, Robert Carlyle, Rebecca Mader
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 42 min.

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada

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