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A narrativa de Edward Kitsis e Adam Horowitz sempre prezou pela originalidade e pela subversão. Desde suas participações em Lost, seus roteiros são perscrutados por viradas bruscas e por tratamentos não convencionais a seus personagens – e com Once Upon a Time as coisas não poderiam ser diferentes.

É um fato que a partir da quarta temporada, os deslizes começaram a ficar bem aparentes: ao contrário da identidade emocionante e extremamente bem delineada de seu ano de estreia, personagens iam e vinham sem explicações coerentes em sua completude, deixando rastros de arcos não finalizados e que poderiam ser muito bem utilizados em subtramas posteriores. É também um fato de que a quinta temporada não atingiu todo seu potencial e nos fez desacreditar na capacidade da série de voltar a ser aquilo que era antes.

Felizmente, os criadores do show perceberam que os erros não poderiam mais acontecer com tanta frequência e, como dito no primeiro texto sobre a sexta temporada, ambos decidiram retornar às raízes. O resultado foi satisfatório – ao menos em sua maior parte – apesar de não conseguir abandonar a pontualidade de algumas presenças novas, como Jafar, Aladdin e Jasmine. Entretanto, é justificável o tratamento que estes personagens sofreram, submetendo-se às arquitramas dos protagonistas como forma de adicionar mais camadas à complexidade narrativa.

Em Tougher Than the Rest, capítulo de reestreia após o comum hiatos de inverno, as coisas adentraram um pouco mais nas relações interpessoais entre os habitantes de Storybrooke, os quais já abandonaram os maniqueísmos entre bem e mal e se uniram num conglomerado fantasioso contra forças inefáveis que ameaçam – mais uma vez – a integridade da cidade portuária. A ruína da Rainha Má (Lana Parrilla) deu-se com a chegada de Gideon (Giles Matthey), filho de Rumplestiltskin (Robert Carlyle) e Belle (Emilie de Ravin), raptado pela Fada Negra e levado para uma terra longínqua na qual a passagem de tempo é diferente do mundo real.

Todos esses acontecimentos não se deram de forma ocasional, mas sim resgataram a premissa principal da série – toda magia vem com o seu preço. E ao desejarem que a Rainha tivesse um destino justo a toda sua crueldade e sua impetuosidade assassina, conseguiram exatamente o que queriam abrindo as portas para uma figura cuja orientação ambiciosa ainda não se faz muito clara. Sabemos que este novo arquétipo preza pela justiça – e para tanto, deve absorver os poderes da Salvadora (Emma, interpretada por Jennifer Morrison). Uma saída um tanto quanto ambígua e que nos leva a imaginar se Gideon – representação mortal do deus Morfeu, controlador do mundo dos sonhos – já fez sua investida em outros reinos como Agrabah, subjugando os poderes de Aladdin. Mais uma vez, uma de nossas protagonistas se vê numa batalha com um perigo mortal, reafirmando sua condição utópico e inalcançável do “felizes para sempre”, e abrindo margem para algumas novas apostas.

Enquanto isso, encarceradas dentro de um desejo – sim, isso mesmo – Regina (outra personagem interpretada por Parrilla) e Emma tentam escapar da realidade paralela e retornar para o mundo que conhecem. Confesso que o décimo episódio desta temporada se configurou como um dos melhores dos últimos anos e preparou terreno para uma nova jornada épica. Na quarta temporada, Snow (Ginnifer Goodwin), David (Josh Dallas), Hook (Colin O’Donoghue) e os outros protagonistas foram sugados para um mundo literário onde os papéis de “mocinho” e “vilão” foram invertidos; na terceira, Emma e Hook foram levados através do feitiço de viagem no tempo de Zelena (Rebecca Mader) para o passado e quase alteraram toda a história da Floresta Encantada e de Storybrooke. Mas agora, as coisas ficam um pouco mais complicadas, visto que a fusão entre duas dimensões distintas poderia ter grandes consequências na cronologia espaço-temporal.

Mas sem esses riscos, Once Upon a Time não seria o que é. Então é uma associação meio óbvia que, no momento em que Regina encontra uma versão mais rebelde e mais egoísta de Robin (Sean Maguire), seu amor verdadeiro cuja vida foi arrancada no season finale da quinta temporada, ela deseja levá-lo para casa. Confesso que minha primeira impressão sobre a decisão foi a pressa em colocar a personagem de Parrilla dentro de um arco romântico novamente. Além disso, a sucessão de acontecimentos entrou num ritmo muito metódico e acelerado, abrindo vários subtramas narrativas – que, de forma nostálgica, trouxeram as histórias de Gepetto e Pinóquio para a telinha -, forçando-as a um final não muito bem construído.

Em uma das sequências mais cômicas, o eterno “boneco que se transformou em gente” vai com Emma até uma árvore encantada para construir um armário mágico capaz de transportá-las para Storybrooke. Então, uma versão mais envelhecida de Hook aparece, ordenando que Pinóquio entre numa luta de espadas cujo fiasco é o que contribui para a descontração e o escape cômico. Até mesmo a inexpressividade da protagonista ajuda na construção da atmosfera e num relaxamento por parte do espectador.

Apesar disso, não podemos deixar de nos lembrar da primeira temporada, onde cada episódio desmembrava-se em sutilizas narrativas que se completavam em viradas espetaculares – e falando nisso, a história de Gepetto e sua criação tem uma delas. A falta de comprometimento para com o desenvolvimento dos fatos e a correlação deles com as outras realidades não consegue ser varrida para debaixo do tapete.

De forma geral, Tougher Than the Rest é um episódio interessante para nos reintroduzir à mitologia da série, mas ainda carrega deslizes que, na primeira parte da temporada, foram lapidadas com cuidado. Imaginando o que pode ocorrer nos próximos capítulos, só podemos sentar e esperar que o roteiro se reencontre e use e abuse de sua incrível potencialidade.

Once Upon a Time – 6×11: Tougher Than the Rest (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: Adam Kitsis, Edward Horowitz
Direção: Billy Gierhart
Roteiro: Edward Kitsis, Adam Horowitz

Elenco: Lana Parrilla, Josh Dallas, Jennifer Morrison, Ginnifer Goodwin, Jared S. Gilmore, Emilie de Ravin, Colin O’Donoghue, Sean Maguire, Robert Carlyle.
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 42 min.

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