» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

E mais uma vez Once Upon a Time resolve apostar em seus personagens secundários para garantir um pouco mais de complexidade às multitramas de sua sexta temporada. A série criada por Edward Kitsis e Adam Horowitz vinha há alguns episódios numa onda de melhorias e lapidações dignas de iterações anteriores – resgatando o motivo que fez os fãs se apaixonarem pelos personagens em 2011 -, mas no décimo quarto e no décimo quinto capítulos deste novo ano, alguns deslizes retornaram, ainda que com menos força.

Nestes dois últimos episódios, dois arcos significativos encontraram respectivamente seu fim e seu começo, ambos se relacionando com uma atmosfera que nos carrega lentamente para o season finale e para o desfecho de mais uma aventura vivida pelos protagonistas. No caso, estamos falando da volta triunfal da Rainha Má (Lana Parrilla), alter-ego de Regina (também Parrilla), que havia sido presa por uma força obscura no corpo de uma víbora, mas que, com a ajuda do sósia reverso de Robin (Sean Maguire) conseguiu recuperar seu invólucro humano. Sabemos da dualidade de personalidade entre as personagens supracitadas, e em Page 23 aparentemente tudo chegará a um final.

A luta entre as nuances intrínsecas de Regina sempre se configurou como um dos temas-base de Once Upon a Time e é um dos poucos a ainda continuar chamando a atenção dos fãs e de um público que se interesse por contos de fada. Entretanto, os twists e os toque de distorção são muito presentes nesta obra audiovisual de fantasia, e várias das histórias que conhecemos se relacionam entre si – e apontam para a crueldade insensível e desumana da protagonista. A escuridão esteve em seu caminho desde seu nascimento, e até mesmo tentativas sem sucesso de “cortas a linha do Destino” trouxeram apenas amargura para seu dia a dia, afastando-a de quem realmente ama.

O aprofundamento psicológico em vertentes freudianas como alter-ego, ego e subconsciente encontra uma presença palpável envolvendo uma batalha muito bem coreografada e permeada com diálogos detalhadamente pensados, partindo do roteiro assinado por Jane Espenson e Jerome Schwartz. O final é relativamente previsível, mas uma saída que casa com o final feliz desejado por Regina para si própria, ainda que na forma de uma cruel tirana que só nos quarenta e cinco do segundo tempo encontrou a paz interior que tanto necessitava.

Enquanto isso, Emma (Jennifer Morrison) e Hook (Colin O’Donoghue) se encontram num dilema moral que envolve a morte do pai de David (Josh Dallas) e as mentiras que circundam seu relacionamento. A trama é essencialmente novelesca, mas adiciona algumas camadas instáveis à história; o grande problema é a execução e a retomada de acontecimentos que o público já conhece. As oscilações, desde meados da terceira temporada, encontram espaço entre o casal episódio após episódio e, por vezes, satura as sequências de drama.

Mas tudo é compreensível, principalmente com a transmissão de A Wondrous Place: acontece que essas discussões e reviravoltas foram de certo modo causados por Gideon (Giles Matthey), um dos personagens com mais amargura que posso citar na série. Sua perspectiva de vida e seus objetivos obscuros ultrapassam o entendimento humano, até quando comparados às tentativas de destruição de Regina e de Zelena (Rebecca Mader) para com Storybrooke e seus habitantes. Apesar de ser fruto de um amor verdadeiro, ainda que conturbado, sua vivência traumatizante com a Fada das Trevas o transformaram numa criatura sedenta por vingança e por se tornar, a qualquer custo, o próximo Salvador – mesmo que tenha que destruir Emma para isso.

Acontece que, após brigar com Emma, Hook vai ao encontro do Capitão Nemo (Faran Tahir), pedir um lugar para passar a noite e refletir sobre suas ações e suas mentiras. Entretanto, Gideon utiliza de seus poderes e dos encantamentos do Náutilus para obrigá-los a viajar entre Reinos, separando o casal e nos deixando ansiosos para o desfecho dessa subtrama.

Eis que, ao chegarem à Floresta Encantada, os viajantes se reencontram com os esquecidos Aladdin (Deniz Akdeniz) e Jasmine (Karen David) cujas tentativas em encontrar Agrabah falharam miseravelmente, colocando-os numa jornada interminável por florestas infinitas em um Reino desconhecido e que os levou a lugar nenhum. Todos então resolvem se unir tanto para encontrar o território perdido quanto para tentar mandar Hook de volta para casa, para que possa alertar Emma dos perigos que estão à espreita. Apesar de pouco explorado, suas cenas de insanidade e falta de coerência frente ao fato de estar longe e sua amada causam certa angústia e nos fazem esperar um desfecho feliz entre os dois.

É inegável que os deslizes narrativos voltam a ser cometidos aqui, principalmente o apressamento dos desfechos de alguns arcos. Já era de se esperar que Jasmine e Aladdin finalmente encontrariam um pouco de paz ao final de A Wondrous Place – o que me parece compreensível -, mas Espenson e Schwartz tomaram cautela para manter Hook em busca de um modo para retornar a Storybrooke – além de encontrar brechas para o retorno de duas personagens muito queridas e protagonistas das sequências mais adoráveis: Sininho (Rose McIver) e Ariel (Joanna Garcia), que já não davam às caras desde a quarta temporada e que adicionaram elementos nostálgicos para os episódios.

A comédia também foi muito bem utilizada aqui, em especial numa cena que se passa dentro de um bar chamado Aesop (cujo dono é ninguém menos que o grande poeta grego Esopo, responsável por fábulas atemporais como A Raposa e as Uvas e A Lebre e o Coelho) e que tem como foco a bebedeira de Snow (Ginnifer Goodwin) e sua total falta de senso e responsabilidade frente a outros clientes – incluindo vikings assustadores. O timing é perfeito, e contrasta com outras construções dramáticas.

Os últimos dois capítulos de Once Upon a Time retrocederam um pouco em termos narrativos, mas ainda sim entregaram desfechos importantes e fiéis à identidade da série. E entre altos e baixos, o público se mantém confiante de que, no final do dia, todos poderão encontrar um pouco de felicidade em meio a um cenário caótico.

Once Upon a Time – 6×14: Page 23 / 6×15: A Wondrous Place (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: Adam Kitsis, Edward Horowitz
Direção: Kate Woods, Steve Pearlman
Roteiro: Jane Espenson, Jerome Schwartz

Elenco: Lana Parrilla, Josh Dallas, Jennifer Morrison, Ginnifer Goodwin, Jared S. Gilmore, Emilie de Ravin, Colin O’Donoghue, Sean Maguire, Robert Carlyle, Rebecca Mader
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 42 min.

Comente!