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*Este filme foi visto na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Vazante, o primeiro voo solo de Daniela Thomas na direção, não é um filme de roteiro ou grandes rompantes. Muito menos uma obra que parece pulsar ou conter uma energia capaz de culminar em explosões dramáticas. Na verdade, assim como em Zama, o último longa de Lucrecia Martel, a abordagem histórica é feita de maneira distanciada, onde os gestos são lentos, a câmera, na maior da parte do tempo, permanece estática, as performances se desenrolam sobre demarcações teatrais, o ritmo é compassado e a narrativa parece pouco interessada em desenvolver as tensões ou levá-las a um clímax impactante.

No entanto, mais do que recriar o andamento da época (o início da terceira década do século XIX) ou compor um registro histórico fidedigno, o que move essas escolhas é o retrato da violência intencionado pela diretora. Ultimamente, nos acostumamos a ver filmes sobre escravidão nos quais o tédio do período é interrompido por momentos de choque, ocasionados por atos de brutalidade. Embora saibamos que a maioria das relações senhor-escravo se desenrolava dessa maneira, do ponto de vista cinematográfico, empregar esses recursos de impacto quase sempre soam como saídas fáceis ou maneiras simples de gerar comoção. 

Assim, quando Daniela Thomas decide ir pelo caminho contrário, a sensação de estar testemunhando uma obra ética e cinematograficamente diferente é renovadora. Em Vazante, é a monotonia do dia-a-dia, os silêncios constrangedores, os fade-out abruptos cortando qualquer tipo de confrontação e a composição cênica excessivamente calculada que transmitem a violência daquele universo. Ou seja, a ferocidade humana não estava estampada apenas nas chicotadas, mas, principalmente, na passividade do cotidiano, o qual, ao se estender no tempo, destruía, aos poucos, as esperanças daqueles que tinham a sua liberdade negada. O que fazer quando a bestialidade se institucionalizou e as suas mãos estão constantemente atadas?

Diante disso, a pluralidade de vozes proposta pelo roteiro de Thomas e Beto Amaral deixa de ser uma falta de foco narrativo e se torna um mosaico de lamentações (os espaços entre os atores são sinais claros desses distanciamentos emocionais), em que os diferentes níveis de legitimidade se apagam, nos revelando que, naquela fazenda que mais parece um navio prestes a naufragar, todos estão na mesma situação: distantes de um bote salva-vidas. Se há lacunas imagéticas (como a cena em que Thomas enfoca uma parede em vez do estapeamento) ou temáticas, é porque a fotografia impressionista de Inti Briones, que lembra, por vezes, o trabalho de Fede Kelemen em O Cavalo de Turim e cujo forte contraste é um claro símbolo das tensões sociais, convida o espectador a preenchê-las com as  cicatrizes (as mesmas que marcam as faces dos escravos) que estão impressas no tecido social brasileiro e que carregamos até os dias de hoje.

Deste modo, ao narrar um conto duro sobre as manchas do nosso passado e a origem de uma das características mais marcantes do país, a miscigenação, a qual, ao mesmo tempo que define parcialmente o destino de uma nação, surge à custa de uma dolorosa perda de inocência, Daniela Thomas entregou um filme de caráter identitário – um temo tão caro aos nossos ancestrais -, que, na sua aparente indiferença, nos pede que olhemos para as feridas sociais atuais e, como peças de um enigma do qual já sabemos o resultado, as coloquemos no retrato geral que as originou. O quebra-cabeça fica completo e não há justificativa que redima a culpa histórica.

Vazante (Idem, Brasil – 2017)

Direção: Daniela Thomas
Roteiro: Daniela Thomas e Beto Amaral
Elenco: Adriano Carvalho, Luana Nastas, Sandra Corveloni, Juliana Carneiro da Cunha, Roberto Audio
Gênero: Drama
Duração: 116 min

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