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É um tanto engraçado e assustador se pararmos para pensar que apenas a franquia Alien aborda o terror da exploração espacial em naves ou planetas desconhecidos. O acerto de Ridley Scott foi tão grande que nenhum roteirista ou cineasta ousou tatear esse terreno dominado com maestria por Ripley e os xenomorfos. Para os fãs de terror espacial essa grande espera por mais filmes sobre o tema finalmente acabou com Vida que, ironicamente, vem sendo acusado de ser uma cópia descarada de Alien – O Oitavo Passageiro.

Em Vida, acompanhamos seis astronautas residentes da ISS – Estação Espacial Internacional. Eles se preparam para receber amostras do solo marciano que estão a bordo de uma sonda desgovernada após colisão com asteroides. Com algum esforço, as amostras são salvas e preparadas para estudo ali mesmo na Estação. O biólogo Hugh logo descobre seres microscópicos hibernando por bilhões de anos naquelas amostras decidindo tentar ressuscitá-las. Em pouco tempo, a bactéria marciana começa a responder os estímulos do biólogo, crescendo rápido em questão de poucos dias. Porém, conforme cresce, comportamentos violentos passam a surgir na criatura colocando não só a ISS e os astronautas em risco, mas todo o planeta Terra.

Enigma Marciano

Os também roteiristas de Deadpool, Rhet Reese e Paul Wernick, se arriscam pela primeira vez no ‘sci-fi’ com Vida e, por incrível que possa parecer, fizeram um trabalho bastante satisfatório. No começo, há nítido desenvolvimento de euforia pela incrível descoberta que, inclusive, passa a impactar o psicológico dos personagens. Como essa é uma narrativa de grupo, a coesão é extremamente necessária para desenvolvê-los e em Vida, os roteiristas levam isso muito a sério a ponto de prejudicar a construção de alguns deles.

De todos os seis, é possível apontar que ao menos um consegue ser desenvolvido de modo minimamente satisfatório: o biólogo paraplégico Hugh. Com síndrome de ser Deus, Hugh cria laços afetivos com a criatura, muitas vezes se negando ao fato de que seja um ser hostil. Nisso, até mesmo sua paraplegia e um jogo ambíguo de diálogos deixam sua moralidade em relação aos colegas e o alienígena batizado de ‘Calvin’.

Seguindo essa linha clichê, há algumas características que conferem certa personalidade ao restante da equipe. David, que detesta a vida mundana do homem na Terra, irá quebrar o recorde de mais dias vividos no espaço – o desfecho do personagem é extremamente irônico. Miranda é responsável pelos firewalls, as medidas de contenção e quarentena para proteger a equipe da criatura e risco de contaminação – meio óbvio dizer que ela falha em praticamente tudo da sua função. Ekaterina é a capitã da Estação (só). Sho deseja retornar ao planeta para conhecer sua filha recém-nascida e Rory é o alívio cômico descartável.

É um trabalho bastante rasteiro para a grande maioria da equipe, mas, por competência do elenco muito eficiente de boas atuações de Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson, Hiroyuki Sanada e Ariyon Bakare, é fácil incutir empatia e identificação com o espectador.

A narrativa em si é uma das mais ferrenhas ao pessimismo cósmico – é até mesmo mais cruel do que as narrativas de Alien. Os roteiristas trabalham sempre na perspectiva do pior cenário possível. Como um evento sem leva ao outro para que o filme e a matança continuem, é preciso sim muita suspensão da descrença.

Como a proposta do filme é calcada em um polêmico ‘e se’ contemporâneo e toda a abordagem das áreas técnicas ser bastante realista, o espectador terá que aceitar alguns elementos inacreditáveis criados pelos roteiristas. O principal deles é a criatura que quebra, constantemente, as regras estabelecidas previamente. Sem oferecer spoilers, diversas vezes os roteiristas esquecem de informações passadas nos estágios iniciais da vida do marciano entrando sempre em colisão com a aparente invulnerabilidade extrema do bicho.

O outro ponto se trata das decisões (más) dos personagens que muitas vezes agem com despreparo completo – mesmo que haja um protocolo dos quais Miranda fica quieta até o circo pegar fogo. O interessante é notar que algumas ações são tomadas através do estado de pânico que alguns astronautas ficam ou outras que parecem moralmente dúbias.

Sobre esses roteirismos e diversas conveniências narrativas jogadas em tela, há muito pouco do que reclamar. O longa abraça a estrutura de Alien e não se desprende até seu final inovando pouco, resolvendo alguns desafios com preguiça criativa e quebrando suas regras a todo o momento conforme o marciano “evolui” jogando todo o mambo jambo científico sobre a criatura em escanteio. O problema reside mesmo nessas quebras do ‘realismo’ anteriormente proposto. Isso, na sessão, não me incomodou, mas pode incomodar alguém que espere uma ficção científica “raiz”.

Saindo do Escuro

Daniel Espinosa era um grande desconhecido até dirigir Vida assim como Ridley Scott era com Alien – mesmo que Os Duelistas seja um baita de um filme. Essa semelhança de momento na carreira dos dois, é realmente interessante dada a maneira como esta ficção se comporta com sua notória referência mestra.

Para quem esperava um estupendo desastre na direção de Espinosa, sairá muito decepcionado, pois o diretor sustenta o roteiro razoável com mãos firmes tornando essa obra a mais tensa e enervante do ano – isso é, até Alien Covenant chegar no mês que vem.

Já para abrir seu modesto blockbusters, Espinosa trabalha a câmera em um longo plano sequência falseado que explora a geografia apertada da ISS enquanto os astronautas flutuam pela Estação enquanto se preparam para apanhar as amostras desgovernadas (já um foreshadowing do desastre anunciado da descoberta da vida alienígena). Assim como os personagens, a câmera flutua no ambiente sem gravidade invertendo eixos verticais a todo o momento gerando uma leve vertigem – essa sensação nauseante perdura por um bom tempo. Toda essa encenação é feita com extremo cuidado agregando muito neste primeiro “parto” para salvar as amostras.

Outro bom elemento de sua direção é a diferente abordagem que ele tem tanto para a criatura quanto para os astronautas. Ao contrário de Alien, um filme de horror de suspense, Espinosa faz de Vida quase um slasher (diminuindo o grau de violência gráfica). O diretor mostra a criatura sem nenhum receio e a utiliza em diversos segmentos do filme com embates diretor entre os heróis.

Além de permitir que o espectador estude a biologia do monstro que revela bastante do ecossistema marciano caso pensemos nisso, Espinosa constrói um paralelo duro entre a fragilidade da vida humana (de fácil replicação) com a resistência sobrenatural do marciano que custou a renascer. Não é preciso pensar muito para notar como esse discurso de vida x morte permeia o filme inteiro.

Inclusive, nesse sentido da valorização da criatura e das emoções humanas transmitidas tão competentemente pelo elenco, que o filme ganha certas camadas de complexidade garantidas pela encenação de Espinosa. É extremamente importante notar como o marciano se comporta no primeiro contato com duas criaturas terrestres agindo com certa inocência e curiosidade que rapidamente se transforma em instinto assassino no primeiríssimo momento que se sente ameaçada – isso é levemente sugerido pelo discurso do biólogo.

Essas breves sequências contrastadas com olhares de ternura, sofrimento, deslumbramento, desespero e profundo ódio dos personagens edificam uma relação interessante entre antagonista vs. mocinhos. Além dessa atenção preciosa, Espinosa se esforça para criar sequências de extrema tensão sendo a mais enervante o primeiro ataque de Calvin. Depois, infelizmente, suas cenas exigem muito da potência da ótima trilha musical de Jon Ekstrand para nos deixarem colados na poltrona. Todavia, nada supera a excelente cena citada.

Importante também ressaltar a potência lírica da música original de Ekstrand. Ela traduz diversos sentimentos, além de potencializar o suspense da obra. Há arranjos belíssimos para refletir a euforia da descoberta da vida, assim como há outros incômodos demais. A questão da música ser muitas vezes maior que a encenação é um eterno debate dentro da crítica de cinema. Tem gente que condena quando isso acontece, a julgando pouco “orgânica”. Já eu, acho que Ekstrand fez um trabalho excepcional que se sustenta com ou sem filme.

Também gosto consideravelmente quando Espinosa tateia a simbologia das boas imagens da obra. Quase todas são funcionais, mas algumas quebram essa função primordial para dizer algo a mais. Algumas mimetizam a Criação de Adão de Michelangelo, outras flertam com a concepção da vida – principalmente o plano que fecha o filme remetendo a um óvulo e espermatozoides.

Espinosa erra somente quando inventa de colocar sua câmera como ponto de vista da criatura que resulta em uma bizarrice que quebra o realismo do filme – até mesmo a música de Ekstrand assume ares de super-herói totalmente inconvenientes. São planos que poderiam ter sido removidos pois agregam nada à narrativa.

Nova Vida

Vida é um ótimo divertimento para qualquer espectador que flerte com o gênero de ficção científica – principalmente na vertente de horror espacial. A atmosfera realista tão bem traduzida pelo visual estupendo da obra agrega muito para a tensão eficiente que o diretor constrói ao longo da obra. Desse modo, Vida se torna uma das experiências mais tensas que você pode experimentar nos cinemas neste ano. As poucas falhas ou decepções causadas seja pela estrutura vinda de Alien ou de mau uso de computação gráfica não tiram o brilho vivaz e muito funcional dessa ótima empreitada da Sony.

Vida (Life, EUA – 2017)

Direção: Daniel Espinosa
Roteiro: Rhett Reese, Paul Wernick
Elenco: Ryan Reynolds, Rebecca Ferguson, Jake Gyllehaal, Hiroyuki Sanada, Ariyon Bakare, Olga Dihovchnaya
Gênero: ficção científica, horror espacial, slasher
Duração: 104 minutos

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