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*Este filme foi visto na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Simplicidade e leveza são os termos que definem perfeitamente Visages Villages, documentário dirigido pela lendária Agnès Varda e o artista de rua JR. Embora a realizadora tenha 89 anos de idade e esteja se aproximando cada vez mais da morte, o seu novo filme contém a vivacidade, agilidade e alegria de uma produção comandada por alguém muito mais jovem. Evidentemente, há um sentimento de fatalidade rondando a narrativa e a memória é um dos elementos mais recorrentes, porém, a experiência de assistir ao filme é tão prazerosa que é impossível sair da sala de cinema sem um sorriso no rosto.

Uma grande parte desse sentimento se deve ao imenso carisma de JR. Com gestos expansivos e um humor sempre eficiente, ele guia ao espectador ao longo do documentário e se torna, fisicamente, o contraste perfeito para os movimentos lentos de Varda. No entanto, é a segurança da diretora francesa que garante o sucesso da produção. Mantendo um ritmo que engaja o espectador e explorando as diferenças e semelhanças que marcam o seu relacionamento com o co-diretor, ela mostra mais uma vez ter um olho cirúrgico para registrar as tensões e possibilidades emocionais do acaso.

Aliás, é a casualidade – segunda a diretora, a sua melhor parceira – que proporciona os momentos mais emotivos. Visitando locais desconhecidos e participando por um período de tempo da vida de completos estranhos, Varda e JR se deparam com lugares visualmente lindos (algumas aldeias francesas parecem ter sido feitas sob medida para uma produção cinematográfica) e histórias comoventes, como as da última moradora de uma determinada região, do senhor que trabalha nos correios e compõe quadros e do sujeito solitário no meio de suas terras e posses, preso a uma rotina surpreendentemente recompensadora. Vê-los representados em murais esteticamente perfeitos é uma fonte de emoções genuínas.

Em certos instantes, talvez sentindo que o documentário estivesse desprovido de um conteúdo mais relevante, os dois diretores – Varda, principalmente – incluem comentários políticos e, já no terceiro ato, surge uma linha narrativa envolvendo uma viagem até a casa de Jean-Luc Godard. Todavia, esses elementos são inteiramente dispensáveis. Além de não se encaixarem naturalmente na narrativa, dão um peso desnecessário a uma obra cujo maior mérito é a despretensão. Refletir e se conscientizar nem sempre são bem-vindos. Às vezes, tudo o que precisamos é de um constante sorriso no rosto. Felizmente, Visages Villages, na maior parte do tempo, produz exatamente esse tipo de reação.

Visages Villages (Idem, França – 2017)

Direção: Agnès Varda e JR
Roteiro: Agnès Varda e JR
Gênero: Documentário
Duração: 99 minutos

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