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A queda da União Soviética permitiu a libertação de diversos países do Bloco do Leste, todos republiquetas socialistas à mando das vontades do Partido Comunista Soviético. A Polônia sofreu os piores sintomas do socialismo real como escassez de produtos de bens de consumo, fome, eleições manipuladas, falta de liberdades civis, prisões compulsórias, miséria, falta de energia, entre diversas outras características que marcaram praticamente todas as sociedades que experimentaram o inchaço do Estado durante os rígidos governos socialistas.

Crescendo nesse meio e ainda sendo surpreendido pela traição das garantias dadas pelo Ocidente em não permitir o avanço de Stálin na Polônia – algo totalmente previsível por conta dos eventos genocidas da floresta em Katyn, Andrzej Wajda sentiu na pele os efeitos negativos do governo, apesar da flexibilização dos novos governantes durante os anos 1970 permitindo que o importantíssimo cineasta realizasse duas obras que traziam retratos embrionários do movimento político Solidariedade que prenunciou o colapso socialista anos antes.

O excelente O Homem de Mármore marca o início dessa trilogia sobre o Solidariedade que somente foi concluída em 2013 com Walesa. Esse que seria o penúltimo filme da carreira de Wajda só demorou tanto para ser concluído por conta da completa dissolução do sistema de censura na Polônia e também por causa de outros novos projetos que surgiram ao longo dos anos.

A Controvérsia Tardia

Quem conhece a obra de Wajda, não ficaria surpreso em notar como Walesa traz uma narrativa bastante tendenciosa à favor de Lech Walesa, o operário que logo virou líder do movimento revolucionário que conseguiu enfraquecer e derrotar o governo socialista polonês enquanto o sistema ainda vigorava nos anos 1980.

A narrativa é contada através de uma longa entrevista de uma jornalista estrangeira com Walesa que passa a relembrar dos eventos que levaram a vitória do movimento grevista do Solidariedade que parou toda a infraestrutura da Polônia por semanas. Logo, retomamos o formato não-linear de uma história repleta de flashbacks assim como era em O Homem de Mármore e O Homem de Ferro.

Wajda não adota, portanto, uma abordagem clássica de cinebiografias ao apresentar de fato a vida de Walesa em minúcias. O cineasta é somente interessado no aspecto político do homem trazendo alguns lampejos de sua vida pessoal com a esposa e os seis filhos. Felizmente, por conta da introdução eficiente do núcleo familiar, Walesa não se torna um personagem extremamente idealizado, afinal o espectador é testemunha do como o homem foi negligente com sua família ao dedicar tanto tempo à vida pública, apesar de ter motivos nobres.

Sua ausência em casa confere um ar de vulnerabilidade à família que vive sempre com medo por conta das atividades de Walesa que o tornam um alvo indesejado para o governo que, apesar de ter ciência de não poder matá-lo, o deixa encarcerado sempre que surge uma boa oportunidade. Tanto que a cinematografia das cenas no apertado apartamento é sempre bastante fria e instável, revelando a insatisfação completa de sua esposa Danuta. A câmera, como sempre, é manipulada na mão, permitindo maior instabilidade orgânica para todas as cenas, apesar de haver um óbvio excesso no uso da técnica.

A primeira hora do longa é bastante eficiente em mostrar como se deu essa ascensão de influência de um homem até então desconhecido que se tornou líder do maior movimento grevista da História da Polônia. Com muitas situações que mostram o abuso de poder do governo, as motivações da rebelião da população, outras manifestações frustradas pela força policial e reuniões escondidas, há sim um caráter fragmentado em Walesa, mas que nunca deixa o espectador perdido até metade da obra. A verdade é que existe um clímax poderoso na metade do longa que simplesmente tira todo o gás dos eventos posteriores à vitória do movimento grevista, infelizmente.

Com essa perda muito brusca de força, Wajda não consegue retomar a atenção do espectador mesmo trazendo diversas imagens de arquivo e trocas mirabolantes de imagens coloridas para preto e branco na tentativa de oferecer um ar documental para a obra, além do uso sempre inadequado da trilha musical. A narrativa então abandona a esfera familiar e logo o conflito mais humano vai por água abaixo elevando a idealização de Walesa como um poço de moral e virtudes que resistiu por anos para libertar o povo polonês da opressão.

Como não existe um avanço significativo nessa segunda metade, rapidamente a experiência se torna tediosa pela falta de progresso que poderia ser sanado com uma elipse bem alocada como já havia sido feito na primeira parte. Também é triste que Wajda não procure explorar uma das características mais controversas de Walesa a qual já era conhecida na época da realização do filme: segundo documentos descobertos anos mais tarde, Walesa foi espião do partido comunista por seis anos durante os anos 1970, antes da primeira greve dos operários do estaleiro de Gnska.

Isso certamente deixaria um arco mais interessante para Walesa no qual, provavelmente, ele teria sido obrigado a colaborar com delações para proteger a família. Mas a história segue apenas o lado positivo e mais fácil para gerar empatia no espectador com a figura carismática do líder grevista. Isso é mantido até a conclusão do longa que, estranhamente, não menciona a vitória do prêmio Nobel da Paz em 1983.

Na direção, Wajda constrói um filme bastante frio e opressivo para trazer a atmosfera pessimista da época, mas também aposta em uma montagem excessivamente frenética como no caso da primeira prisão de Walesa na qual ele é obrigado a assinar alguns documentos que ele se comprometia a obedecer a lei.

Libertação

Walesa é um filme com diversas qualidade e defeitos, além de apresentar um dos maiores refinamentos estéticos de Wajda nos momentos finais de sua carreira. O diretor faz um importante registro sobre a maior conquista de Walesa que, apesar de suas controvérsias tardias, realmente foi peça de suma importância para a libertação do povo polonês que experimentou a opressão, a morte e o fim da liberdade em mais uma das falsas democracias que o Ocidente ignorou todos os pedidos de ajuda.

Walesa (Walesa. Cztowiek z nadziei, Polônia – 2013)

Direção: Andrzej Wajda
Roteiro: Janusz Glowacki
Elenco: Robert Wieckiewicz, Agniezka Grochowska, Iwona Bielska, Miroslaw Baka, Maria Rosario Omaggio
Gênero: Drama, Cinebiografia
Duração: 127 minutos.

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