Toy Story, Os Incríveis, Procurando Nemo, Ratatouille… O que esses filmes têm em comum? Bom, primeiramente, cada um deles se aprofunda em temas de natureza humana para discorrer sobre a complexidade das relações entre indivíduos. Nos longas-metragens dos estúdios Pixar, a antropomorfização de elementos alheios ao universo sociológico ao qual estamos acostumados é o ponto-chave para que o público consiga se conectar de forma indelével à história que está contada, ainda que os protagonistas sejam brinquedos, super-heróis ou peixes.

É sempre possível encontrar traços humanos nos “heróis” das narrativas supracitadas, seja nos conturbados laços de fraternidade que se constroem gradativamente entre Woody e Buzz, ou na improvável amizade entre as personalidades destoantes entre Marlin e Dory numa jornada digna de obras como Odisseia, de Homero. As metáforas seguem um padrão simbólico que não cede às tentações formulaicas de outras produções hollywoodianas, mas que se renova a cada nova investida.

Com WALL-E, as coisas começam a mudar de forma. Temos um romance futurista dentro de uma atmosfera distópica entre dois robôs que mais parecem gente que qualquer coisa. Mas algo falta: a magia com a qual nos envolvíamos parece deixar de existir para dar espaço a uma mensagem generalizada sobre o futuro do planeta Terra e como a própria raça humana está fadada ao sofrimento e às consequências de suas atitudes ainda que continue fugindo das terríveis marcas que deixa. A história parece batida, mas conhecemos o glamour por trás das narrativas dos estúdios – e apesar de não se configurar como a melhor alternativa para que as novas gerações de crianças adorem seus filmes, a Pixar mais uma vez entrega sua incrível inclinação às técnicas das animações 3-D para praticamente nos engolfar num cenário pós-apocalíptico.

ADÃO E EVA

O longa começa de forma um tanto quanto estranha: um plano aéreo do nosso querido planeta envolvido por uma camada metálica de satélites e sondas espaciais, que vai se aproximando cada vez mais até revelar uma paisagem desértica, tomada por prédios abandonados e caindo aos pedaços, veículos virados de cabeça para baixo e uma constante névoa empoeirada se fundindo com um sol escaldante que praticamente derrete uma visão nada agradável da cidade de São Francisco.

WALL-E (cuja voz robótica é emprestada de Ben Burtt) é o protagonista desta nova jornada: uma máquina responsável por limpar a sujeira deixada por seus inventores humanos enquanto uma parcela da “raça dominante” permanece viajando num cruzeiro espacial. Basicamente, ele e seus companheiros se tornaram responsáveis por descobrir um jeito de escoar lixo para longe como modo de recolocar o mundo numa posição sustentável e habitável. Entretanto, ele parece o único “ser vivo” desse caótico ambiente – e temos uma clara certeza disso quando vemos seus semelhantes afundando em camadas e mais camadas de entulho espalhados pelo seco e árido Oceano Pacífico.

Seu objetivo é simples: limpar. Mas depois de anos realizando as mesmas funções, algo em sua estrutura essencialmente submissa e inexpressiva o permitiu desenvolver reações que se aproximassem das primitivas sensações humanas, como o instinto de sobrevivência, a surpresa, o medo e até mesmo o cansaço. Ele desenvolveu uma relação de autossuficiência com uma barata – uma representação não ortodoxa do “bichinho de estimação” – para não se sentir sozinho e, quando retorna para sua casa após um longo dia de trabalho, cuja rotina segue à risca, se delicia com musicais. É engraçado como o seu provável filme favorito, Alô, Dolly! (1969) é um hino à esperança e às promessas de dias melhores, contrastando paradoxalmente com as imagens urbanas.

A personalidade de WALL-E rapidamente o torna uma das criaturas mais adoráveis a povoar o universo Pixar. É fácil mergulhar em seu monótono cronograma, até ser bruscamente interrompido pela chegada nem um pouco premeditada de uma nave espacial, trazendo um outro robô para a Terra, chamado EVE (Elissa Knight). Sua diretriz principal é procurar por sinais de vegetação para reenviar as informações aos seus superiores e declarar, finalmente, que o planeta tornou-se habitável novamente. Entretanto, assim como WALL-E, EVE também é carregada com delineações humanas que mesclam com sua essência maquinaria, dando-lhe espaço inclusive para construir uma relação impagável com o personagem que empresta o nome ao título do filme.

Já aqui, percebemos que a história idealizada por Andrew Stanton, um dos grandes veteranos dos estúdios, ao lado de Pete Docter, mergulha fundo nos diversos mitos da criação humana para transferi-la simbolicamente ao “próximo passo”, ou seja, ao controle das máquinas perante as falhas das pessoas. A principal alegoria aqui utilizada parte da narrativa de Adão e Eva e de como, a partir de uma figura principal, o homem e a mulher foram constituídos. As sutilezas apresentadas são mascaradas por um pano de fundo romântico que nos relembra com gosto as comédias adolescentes de meados dos anos 1990, mas se emprestarmos nossa atenção para os arquétipos, poderemos ver que EVE é uma extensão da existência de WALL-E, ainda que se comporte como uma construção totalmente única e independente. As duas máquinas se completam como uma, assim como Adão e Eva também se uniram para constituir as complexidades humanas dentro da mitologia católica – incluindo suas falhas, suas ambições e sua devoção a forças inexplicavelmente divinas.

Os dois robôs constroem laços que se endossam virada após virada, e dão certo alívio a um panorama tenso e apocalíptico. Seguindo fórmulas prontas, mas que ainda trazem uma aproximação entre narrativa e público e felizmente não se mostram clichês, eles inicialmente estão afastados por patamares tecnológicos que tangenciam a diferença de classes sociais de outros casais cinematográficos – seja com Humpfrey Bogart e Ingrid Bergman em Casablanca (1942), ou com Romeu e Julieta na peça homônima do século XVII. Afinal, EVE utiliza uma versão antigravitacional para se locomover e é equipada com instrumentos de batalha supermodernos, enquanto WALL-E se locomove com esteiras e já demonstra sua secularidade com amassados e peças enferrujadas.

O robô-herói demonstra seu mundo e sua perspectiva para uma companheira intrinsicamente atrelada às funções às quais foi designada. É possível ver, na passagem do primeiro para o segundo ato, que ela está se libertando de sua forma maquinal, desvencilhando-se de seu objetivo principal para deixar sua marca na vida de “outrem”, além de ser constantemente bombardeada pela humildade que outrora havia sido esquecida. Mas sem os famosos obstáculos, este não seria mais uma obra-prima da Pixar: acontece que WALL-E detém a peça-chave para que a missão de EVE seja completada – uma forma de vida vegetal. E durante uma sequência tensa, ela retém a planta e permanece num “estado de coma” até ser resgatada pela mesma nave-mãe que a trouxe em primeiro lugar.

O jogo entre estes dois personagens continua durante os quase cem minutos de duração da animação e, em vez de se tornar repetitivo, apenas mostra as infinitas possibilidades e aventuras pelas quais eles podem passar, além de explicitar a capacidade inigualável dos estúdios em fornecer o hibridismo identitário para construir uma nova perspectiva. Em outras palavras, espere diversas referências fílmicas para WALL-E, incluindo a influência atemporal da franquia Star Wars nas novas investidas da “jornada do herói” através do desconhecido, e até mesmo o mórbido suspense científico de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Misture tudo isso com o clássico amor romântico próprio das escolas do século XIX, incluindo o inesquecível amor à primeira vista, e temos uma das melhores combinações narrativas dos últimos tempos.

AXIOM

O ano é 2805 depois da era comum, época em que a própria humanidade desistiu de seus preceitos de sustentabilidade e colocou a Terra num estado aparentemente irreversível de coma ambiental. A companhia responsável pelas propostas de salvação se intitulava Buy-n-Large (BnL), uma megacorporação que, como apresentado nos minutos iniciais do longa, se transformou na monopolizadora do consumo e do mercado mundial, espalhando suas franquias capitalistas para todo o mundo. Mas após perceber que a restauração do ecossistema era um ideal falido, decidiu evacuar a Terra em uma grande nave totalmente automatizada chamada Axiom.

Este é o segundo grande cenário – e talvez o mais importante – da narrativa de WALL-E. Seu significado transcende apenas o que nos aparece em cena e se afasta do lugar-comum de outras histórias de ficção científica que povoam as telas de cinema. Primeiramente, devemos entender que Axiom é a palavra inglesa para axioma, uma premissa considerada, em seu cerne, evidente e verdadeira, fundamento de uma demonstração, mas, contraditoriamente, indemonstrável. Dentro do universo desta animação, o axioma ao qual somos apresentados é o conceito utópico de locus amoenus, ou seja, do “lugar ameno” e a promessa de um amanhã perfeito para uma comunidade que perdeu as esperanças. Em outras palavras, as pessoas salvas da completa exterminação num inóspito e caótico lugar acreditam que um dia voltarão e se tornaram completamente alienadas ao que realmente está acontecendo: todas estão há mais de sete séculos navegando sem rumo no espaço sideral, engolfando-se em bolhas de autopreservação.

As metáforas não cessam por aí. As referências identitárias para a elaboração do filme se estendem para clássicos da literatura mundial como Admirável Mundo Novo e 1984, e até mesmo de forma mais sutil e escondida pelos véus de uma temática mais infantil para as páginas de Germinal. A alienação presente nos personagens humanos vai ao encontro de sua “perda óssea” devido à microgravidade, cuja condição os condena a permanecer sentados em cadeiras flutuantes, de frente para telas holográficas e se alimentando com comida pastosa, a qual pode ser ingerida através de canudos. Eles perderam a capacidade de se comunicar e de se portarem como indivíduos – e cabe às presenças de WALL-E, EVE e os outros incríveis robôs da nave a resgatar essa humanidade, ainda que de forma indireta.

No segundo ato do filme, as coisas chegam a um consenso narrativo: o foco agora é resgatar a planta e levá-la até o capitão da nave, interpretado por Jeff Garlin, para que ele ative a diretriz que levará todos de volta para casa. É interessante notar que os personagens humanos ou não têm nome ou são caracterizados com intitulações universais – como as presenças de John e Mary. Isso possivelmente está atrelado ao fato de que todos ali se transformaram em uma massa amorfa de criaturas passivas que não carregam o desejo pela mudança, mas estão confortáveis daquele modo. À medida em que a história caminha para seu fim, cada um deles começa a despertar para a realidade em que vivem e começam a se tornar diferenciados, como se entrassem em um processo re-evolutivo.

WALL-E e EVE passam a maior parte em uma montanha-russa de obstáculos essencialmente cômicos a serem enfrentados. E como falamos de robôs, é muito agradável vê-los passar pelas mesmas situações que nós, incluindo sequências muito bem arquitetadas de “nem tudo é o que parece ser” e o sofrimento por ver seu verdadeiro amor sofrendo sem poder fazer nada e se mostrar totalmente impotente. O desfecho vem com a redenção de cada um destes personagens, incluindo momentos de extrema importância para a compreensão da arquitrama – e que conseguem arrancar lágrimas até dos mais céticos, principalmente por mexer com a perda e com a solidão.

AND THAT IS ALL

A trilha sonora de WALL-E é algo a ser definitivamente ovacionado. Thomas Newman merece um lugar especial no panteão da Pixar por criar uma ambiência auditiva digna de perscrutar todas as delineações dos anseios humanos, buscando a origem do que tememos e transpondo-a para as telonas com um arranjo melodramático que oscila entre a suavidade do xilofone e a transparência macabra do órgão.

Logo no início do primeiro ato, o trajeto percorrido pelo personagem-título é adornado com a música Put On Your Sunday Clothes, contrastando com a emergência de um cenário alaranjado, poeirento e intragável, composto por construções de entulho que se elevam mais que os arranha-céus outrora habitáveis. Gradativamente, a melodia alegre e linear dá lugar a uma arquitetura tétrica, na qual o teclado é o regente e os violinos vêm lhe acompanhando, criando uma crescente tensão que permanece durante todo o longa. Além disso, Newman busca inspiração na agradável musicalidade de Ratatouille, resgatando um ritmo frenético para as cenas de maior dinamismo e descoberta do oculto.

Entretanto, apesar da grandiosidade de tal obra, devo dizer que a animação tem os seus deslizes – e eles aparecem aqui na falta da universalidade. Os temas-base para a construção narrativa resgatam elementos até das novelas de cavalaria se analisarmos de modo profundo, mas se esquecem do próprio público-alvo no tocante à desenvoltura: as crianças. As metáforas e simbologias se fundem em complexos emaranhados que podem não ser totalmente absorvidos por mentes ainda em formação, as quais, com toda essa conversa distópica e apocalíptica, talvez não se identifiquem com o teor do filme. Ao contrário de outros filmes, a incompatibilidade com a faixa etária que dá força para os estúdios pode pesar até mais que a mensagem a ser passada.

Em suma, WALL-E é mais uma pérola atemporal. Seus deslizes por vezes gritam mais alto que a pureza de suas intenções, mas ainda é inegável que os espectadores passem os cento e poucos minutos em frente à tela torcendo para que os dois adoráveis robôs protagonistas encontrem um pouco de paz em meio a tantas turbulências humanas – e até mesmo divinas.

WALL-E (Idem, 2008 – EUA)

Direção: Andrew Stanton
Roteiro: Andrew Stanton, Jim Reardon
Elenco: Ben Burtt, Elissa Knight, Jeff Garlin, Fred Willard, John Ratzenberger, Kathy Najimy, Sigourney Weaver, Teddy Newton
Duração: 104 min.

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