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Se existe um nome que desfruta da credibilidade e confiança tanto do público quanto dos estúdios, esse nome é Brad Pitt. Não é de hoje que se sabe que escalar Pitt para um papel é quase certeza de sucesso, devido ao seu provado e inegável talento e beleza, mas também em grande parte pelo apelo que seu nome e status de super celebridade têm perante os mais variados públicos. No outro lado da moeda, está outra queridinha da mídia e verdadeira unanimidade nos corações e mentes dos consumidores de filmes e séries, a Netflix. A união dessas duas forças top-of-mind num longa tem um gigantesco potencial, mas que é infelizmente desperdiçado, ou pelo menos não completamente realizado em War Machine.

O filme conta a história do General Glen McMahon (Pitt),um condecoradíssimo e celebrado comandante linha dura apontado pelo presidente Obama para liderar os esforços militares da OTAN no Afeganistão. Empregando sua vasta experiência e seu time de assessores, marqueteiros e conselheiros, McMahon assume a ingrata tarefa de “ganhar” a Guerra do Afeganistão (a Segunda, nos livros de História), aparentemente sem entender bem a dimensão e escala do conflito e suas implicações sociais. O filme é narrado do ponto de vista de um jornalista da Rolling Stone convidado a acompanhar o General e sua entourage numa viagem pelos aliados americanos na Europa, em busca de tropas e apoio político.

War Machine é baseado no livro The Operators de Michael Hastings (o supracitado jornalista da Rolling Stone), e se propõe a fazer uma crítica ácida e satírica do mindset político-militar yankee, chamando atenção à forma antiquada e ingênua dos esforços americanos de estabelecer a paz por meio da ocupação, e da famosa e já batida contradição de enfiar democracia goela a baixo dos afegãos. Retratando pessoas reais (com nomes trocados), o roteiro de David Michôd se esforça para contrapor a sinceridade e idealismo ingênuo de McMahon com sua incapacidade de compreender a complexidade dos esforços de contra-insurgência numa terra ocupada e desolada, povoada por pessoas que não entendem nem compartilham dos anseios dos ocidentais, que também estão ali a contragosto. É um nobre e interessante ângulo para a história, mas que é mal executado por conta de escolhas preguiçosas, como as ações de um soldado revoltado e forçação de barra sobre a vida amorosa do general.

O grande destaque positivo do longa é seu brilhante e até surpreendente casting. Não se passa um minuto em cena sem que nos deparemos com pelo menos um rosto conhecido, e a maior parte deles são de pessoas talentosas e que estão muito bem no papel. Destaco em especial a atuação de Sir Ben Kingsley e de Topher Grace (Homem-Aranha 3) no papel do principal marqueteiro de McMahon, que possui diálogos interessantes e uma entrega no ponto certo, e que ilustra bem o pensamento de como um civil aplica suas técnicas de lobby e marketing num contexto de conflito e relações internacionais. As cenas onde o personagem de Topher coordena as mídias e marca entrevistas estão entre as melhores do filme.

Uma surpresa negativa é a postura do que deveria ser seu maior trunfo, Pitt. Apesar do desafio de viver uma pessoa real com características no mínimo extravagantes, Brad transparece um grande desinteresse e falta de empenho em quebrar o piloto automático. Além disso, o papel do general possui uma postura física e trejeitos extremamente caricatos, que aparentemente deixaram Brad um pouco engessado em sua atuação, não conseguindo empurrar pra fora da mente seu papel antigo como Aldo, O Apache em Bastardos Inglórios .Há que se ressaltar, no entanto, que Brad Pitt consegue passar a frustração e desconforto do General McMahon com a situação toda, em especial nas cenas com os políticos e inclusive com sua própria esposa.

Na direção, Michôd traz bem pouca inspiração. O filme tem problemas graves de ritmo e edição, com cenas muitas vezes amarradas e cortes pouco fluidos, além de uma duração excessiva de 121 minutos, que nos deixa com a sensação de que se perdeu tempo demais com coisas desnecessárias. A ausência de cenas de ação impactantes (apesar de isso de certa forma se dar pela proposta do roteiro) é bastante sentida, piorado pela falta de timing e criatividade na direção e montagem da única cena de combate do longa.

Já imaginava que não seria sempre que teríamos um Beasts of No Nation , mas War Machine deixa um gosto amargo na boca, principalmente por conta do potencial desperdiçado da união de Brad Pitt e Netflix, ainda mais pelo excelente casting e rica temática para se explorar. Apesar de um filme interessante para quem gosta de História contemporânea e se interessa pelos conflitos políticos e ideológicos do Oriente Médio, War Machine infelizmente não passa de um filme medíocre e cansativo.

War Machine (EUA – 2017)

Direção: David Michôd
Roteiro: David Michôd, baseado no livro The Operators de Michael Hastings
Elenco: Brad Pitt, Ben Kingsley, Topher Grace, Anthony Hayes
Gênero: Comédia, Guerra

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